Sete prédios e quase 200 anos: veja por onde passou o Parlamento de Goiás
Por Bruna Ariadne — Jornal Opção

Muito antes dos plenários modernos, dos gabinetes e dos grandes auditórios, os deputados goianos se reuniam em um lugar criado para outra finalidade: fundir e cobrar impostos sobre o ouro retirado das minas. Foi nesse cenário, ainda no século 19, que começou uma trajetória de mudanças que levaria o Parlamento de Goiás a ocupar sete prédios diferentes.
São quase dois séculos de mudanças de endereço. Nesse período, a Assembleia Legislativa de Goiás (Alego) saiu da antiga Vila Boa, acompanhou a transferência da capital para Goiânia, passou por instalações improvisadas e permaneceu seis décadas em um mesmo prédio até chegar ao atual Palácio Maguito Vilela, no Park Lozandes.
Alguns desses endereços ainda fazem parte da paisagem das duas cidades. Outros desapareceram. Há também prédios que ganharam novas funções e continuam recebendo diariamente pessoas que talvez nem imaginem que, décadas atrás, decisões políticas de Goiás eram tomadas ali.
Tudo começou onde o ouro era fundido
O primeiro endereço ajuda a dimensionar o tamanho dessa transformação.
Em 1º de junho de 1835, quando Goiânia sequer existia, os primeiros deputados goianos começaram a trabalhar na Casa de Fundição, em Vila Boa, atual cidade de Goiás. O edifício havia sido erguido pela Coroa Portuguesa em 1752 para controlar uma das principais riquezas da época. O ouro extraído na região passava pelo local para ser fundido, transformado em barras e tributado.

Com o enfraquecimento da mineração e uma nova organização política do País, o imóvel foi adaptado para receber os 20 integrantes da primeira Legislatura goiana. Onde antes funcionavam atividades ligadas à exploração do ouro, passaram a ocorrer discussões e decisões políticas.
O prédio, porém, não chegou aos dias atuais. Um incêndio em 1921 destruiu grande parte da construção.
Um casarão para a República
A mudança do regime político brasileiro também alterou o endereço dos parlamentares. Depois da Proclamação da República, a Assembleia passou a funcionar em um casarão na Rua da Abadia, atual Rua Eugênio Jardim, em frente à Igreja de Nossa Senhora d’Abadia, ainda na cidade de Goiás.

Foi uma passagem bem mais longa. Onze legislaturas ocuparam o imóvel, que precisou ser adaptado para comportar deputados, direção dos trabalhos e pessoas interessadas em acompanhar as sessões.
A saída ocorreu em 1937, com a transferência da capital para Goiânia. Diferentemente da primeira sede, o casarão sobreviveu às décadas. Atualmente, o espaço é utilizado por uma escola da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae).
Em Goiânia, apenas 26 sessões
A chegada à nova capital não significou estabilidade imediata. O primeiro endereço dos deputados em Goiânia foi um sobrado na Avenida Tocantins, esquina com a Rua 12, no Centro.
A passagem por ali foi interrompida quase tão rapidamente quanto começou. Apenas 26 sessões chegaram a ser realizadas no imóvel.

Em novembro de 1937, Getúlio Vargas instaurou o Estado Novo e determinou o fechamento do Congresso Nacional, das assembleias legislativas e das câmaras municipais. O Legislativo goiano, recém-transferido para Goiânia, teve as atividades suspensas.
O pequeno sobrado, no entanto, também está ligado a outro capítulo importante da história estadual: foi ali que Pedro Ludovico Teixeira assinou o decreto definitivo que transferiu a capital de Goiás para Goiânia. O prédio permanece no Centro e atualmente é utilizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Uma sede que não chegou a completar um mês
A Assembleia só voltou a funcionar cerca de uma década depois. Com a redemocratização, em 1947, surgiu um problema imediato: onde colocar os deputados?
A solução emergencial foi usar o segundo andar do então Museu Histórico, na Praça Cívica. Hoje, o endereço é conhecido como Museu Zoroastro Artiaga.

A experiência durou menos de 30 dias, tornando o local a sede mais passageira da história do Parlamento goiano.
Faltava praticamente tudo o que uma Casa Legislativa precisava para funcionar adequadamente. Não havia plenário planejado para sessões, gabinetes suficientes, salas próprias para comissões nem estrutura adequada para receber o público. A Assembleia precisou procurar outro endereço.
O improviso que durou 15 anos
A alternativa surgiu no mesmo ano. Em abril de 1947, a Sociedade Goiana de Pecuária e Agricultura disponibilizou o terceiro andar do Palácio da Pecuária, na Avenida Goiás.
A solução era provisória. Pelo menos no papel.

O que deveria durar pouco tempo acabou se prolongando por 15 anos. Entre 1947 e 1962, os deputados dividiram plenário, administração e demais atividades legislativas dentro de um espaço limitado. Foi também ali que os parlamentares participaram da elaboração e promulgação de uma nova Constituição Estadual.
Com o crescimento de Goiânia e da própria estrutura do Legislativo, a situação ficou insustentável. Décadas depois, o Palácio da Pecuária acabaria demolido.
Seis décadas no Setor Oeste
A peregrinação por espaços adaptados começou a terminar em 1962. Naquele ano, a Assembleia finalmente ganhou uma sede própria.
O então Palácio dos Buritis, depois chamado de Palácio Alfredo Nasser, foi construído na Alameda dos Buritis, no Setor Oeste, integrado à região do Bosque dos Buritis. O complexo tinha mais de 8,3 mil metros quadrados de área construída em um terreno de aproximadamente 12,5 mil metros quadrados.

O endereço se tornou o mais longevo do Parlamento goiano: foram 60 anos.
Ao longo dessas seis décadas, porém, a estrutura da Assembleia cresceu. Aumentaram o número de servidores, as atividades das comissões e a circulação de pessoas. Um prédio projetado para uma Casa Legislativa menor passou a enfrentar limitações.

A mudança definitiva ocorreu em 2022. Depois da saída dos deputados, o antigo Palácio Alfredo Nasser foi reformado para receber o Tribunal de Contas dos Municípios do Estado de Goiás (TCM-GO).
De 8 mil para 44 mil metros quadrados
A dimensão da mudança fica evidente quando as duas últimas sedes são colocadas lado a lado.
O Palácio Maguito Vilela, no Park Lozandes, tem aproximadamente 44 mil metros quadrados de área construída — quase cinco vezes a área da antiga sede. São quatro pavimentos e dois subsolos.

O complexo reúne 50 gabinetes de aproximadamente 100 metros quadrados, salas para comissões, dois miniplenários e um auditório com capacidade para 600 pessoas. Mais de 200 pessoas podem acompanhar as sessões sentadas na galeria do plenário. Do lado de fora, há quase mil vagas de estacionamento.
A sede atual demorou 17 anos para ficar pronta e exigiu investimento de aproximadamente R$ 126 milhões.
Mais do que uma sequência de mudanças de endereço, os sete prédios ajudam a contar as próprias transformações de Goiás. O Parlamento que nasceu dentro de uma construção destinada ao ouro atravessou Império, República, mudança de capital, fechamento durante o Estado Novo, redemocratização e décadas de expansão até chegar à estrutura atual.
Leia também: Fisioterapeuta denuncia racismo religioso após ser demitida durante iniciação no Candomblé
O post Sete prédios e quase 200 anos: veja por onde passou o Parlamento de Goiás apareceu primeiro em Jornal Opção.
Fonte: Jornal Opção