O Sentir é Arte ou Artesanato?
Por Marnylton Cabral — Brasil de Fato
Todos os conteúdos de produção exclusiva e de autoria editorial do Brasil de Fato podem ser reproduzidos, desde que não sejam alterados e que se deem os devidos créditos.
Escritor, Estudante de Letras na Universidade Federal do Ceará, Membro do Conselho de Jovens Leitores do Jornal “O Povo”
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Estamos olhando para os nossos processos emocionais como artesanato ou arte no seu fazer e nas suas finalizações? Onde começa o processo do sentir e no que ele deságua?
A obra underground Arte e Medo, de David Bayles e Ted Orland, discorre em um texto encantador e instigante sobre as múltiplas esferas que envolvem o fazer artístico e o pavor intrínseco a esse processo, seja no mundo interno da criação ou no mundo externo da recepção. Em dado momento, os autores resgatam um pensamento do artesão e luthier italiano Antonio Stradivari: “há uma diferença real entre arte e artesanato: no artesanato, a perfeição é possível”.
A frase é tensa. As fronteiras e aproximações entre arte e artesanato rendem debates infinitos. Há quem note como o pensamento patriarcal impõe divisões veladas que reproduzimos sem perceber como a máxima tática de que “homens fazem design, mulheres fazem artesanato”. Mas não é necessariamente a isso que nos ateremos agora, embora a crítica seja no mínimo genial. Vamos para um outro lugar.
Souto MC, rapper indígena brasileira, faz um trabalho impecável em seus discos ao mesclar a força do hip-hop com letras que traduzem suas vivências em território urbano. Em sua canção Talismã (2021), ela canta:
“Em espírito várias respostas me deixam sã / Se a tristeza alarma, minha música é meu divã / Dádiva ou karma, das minhas emoções sou artesã / E em cada arte nova, ó que foda, fiz mais um talismã.”
É intrigante como Souto emprega as palavras artesã e arte. Sob a ótica de Bayles e Orland, a artista parece indicar que suas próprias emoções não precisam vir prontas ou perfeitas. O sentir é um processo longo, feito de rachaduras, erros e reajustes: um artesanato diário do qual ela domina a técnica. Em contrapartida, a arte surge como o atravessamento consolidado desse processo: a canção acabada, a qual ela batiza de talismã. Stradivari diz que no artesanato a perfeição é possível, enquanto a arte lida com a imperfeição da criação. Ao se colocar como “artesã das emoções”, Souto desafia a ideia de perfeição estática. O artesanato das emoções dela não é sobre alcançar um estado perfeito ou “curado”, mas sobre o trabalho manual e contínuo de esculpir, cuidar e lapidar o que se sente, com todas as suas imperfeições. Bayles e Orland ainda são categóricos ao dizer: A artesania é a borda visível da arte.
Para além de rotular o que é arte ou artesanato, esse pequeno liquidificador de ideias nos convoca a refletir sobre como encaramos nossas próprias vulnerabilidades. Em uma sociedade acelerada e hiperprodutiva, fomos incumbidos de talhar até mesmo nossas emoções em busca de uma perfeição, na qual não cabem falhas ou equívocos. Souto articula que encarar os processos emocionais é fundamental para a criação da sua própria arte, assumindo que o caminhar por suas várias facetas é passível de imperfeição, é aceitável e deve ser encarado como natural. Afinal, o sentir realmente precisa ser bem lapidado? Quando se está no olho do furacão das próprias emoções, nada precisa estar no lugar. É como a metáfora recorrente da terapia enquanto um momento de “limpar a casa”: tiramos tudo das gavetas, inalamos a poeira, encaramos o caos instaurado na sala para só então iniciar o trabalho de reorganizar. O que Souto assinala é que a arte que emerge desse processo não é a tentativa de maquiar a bagunça, mas o resultado direto dessa lida, a colheita do trabalho com a matéria-prima do sentir, transformada em amuleto de proteção e sorte. O artesanato, aqui, não surge como a busca por uma perfeição do ser, mas como a coragem técnica de habitar a própria órbita empoeirada até que ela possa virar talismã. Outra passagem do texto diz: “para o crítico arte é um substantivo, para um artista arte é um verbo”.
Talvez Bayles e Orland não tenham tido o deleite de ouvir as canções de Souto MC, mas essa conversa de mesa seria no mínimo memorável.
*Marnylton Cabral – Escritor, estudante de Letras na Universidade Federal do Ceará, membro do Conselho de Jovens Leitores do Jornal O Povo
**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.
Todos os conteúdos de produção exclusiva e de autoria editorial do Brasil de Fato podem ser reproduzidos, desde que não sejam alterados e que se deem os devidos créditos.
Fonte: Brasil de Fato