O que vai acontecer com a Floresta e com a gente se Flávio Bolsonaro ganhar
Por Flavia Coimbra — SUMAÚMA
Levantamento de SUMAÚMA encontrou 75 nomes que disputam uma vaga nas eleições de 2026 com infrações na Amazônia; entre eles estão aliados de Flávio Bolsonaro, que fizeram do ataque à fiscalização ambiental bandeira eleitoral
Nesta terceira reportagem da série, SUMAÚMA mostra a guerra entre sindicato e governo nos tribunais. Apesar de não faltar nem agentes nem investimento, muitas aldeias ficam sem assistência e crianças sem vacinas por alegação de suposta insegurança
Nos próximos meses, o risco de incêndios e secas vai aumentar a passos largos, agravado pela crise climática e pelo desmatamento. Estão sob ameaça comunidades tradicionais e produtores rurais, mas o governo também precisa levar em conta pequenos povoados remotos
Se Flávio Bolsonaro for eleito, há grande probabilidade de a Floresta Amazônica acabar. Fotomontagem: Soll, com imagens de Marcio Nagano/SUMAÚMA e Christian Braga/GREENPEACE
É sobre a sua vida: coração do planeta e decisiva para a sobrevivência, a Amazônia tem grande probabilidade de deixar de existir se a extrema direita vencer a Presidência, além de ter dominado o Congresso eleito
Para entender o impacto das eleições brasileiras na vida é preciso compreender primeiro que o Brasil é a periferia da Amazônia. O Brasil não é importante por causa da monocultura de soja pra alimentar porcos e frangos na China nem da carne que sai dos frigoríficos, parte dela originada nos corpos dos bois do desmatamento. A importância do Brasil não se deve ao agronegócio. A relevância global do Brasil se deve ao fato de mais de 60% da maior floresta tropical do planeta estar em seu território. É isso que faz do avanço da extrema direita neste primeiro turno ser uma preocupação da população global. Não enxergar isso é deixar de entender o que está em jogo na nossa época – e não entender o que está em jogo hoje pode custar o futuro das nossas crianças e das crianças das outras espécies, estas cujos pais nem podem votar, mas são diretamente afetadas pelas nossas boas ou más escolhas.
Se Flávio Bolsonaro ganhar de Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno, há uma grande probabilidade de a Floresta deixar de existir como floresta, o que inclui deixar de atuar como reguladora do clima e sumidouro de carbono, que forma um dos gases geradores do aquecimento global. Haverá terra nua, convertida em pasto pra boi, monocultura de soja, exploração de minérios e de petróleo, mas não haverá floresta. Haverá outro tipo de vegetação, mas não haverá floresta. O ciclo de chuvas será alterado, e mesmo o agronegócio que hoje destrói a Floresta e grita por Flávio Bolsonaro vai perder, e muito. É este o futuro bem próximo que se desenha. E não parece que o Brasil e o mundo tenham percebido isso com a clareza necessária.
Boi do desmatamento, a triste vida que vira mercadoria devastando a Floresta e emitindo metano, um dos gases de efeito estufa. Foto: Lela Beltrão/SUMAÚMA
A votação de 4 de outubro não chegou a ser uma surpresa. Um Congresso tão ou mais predatório que o atual era o cenário mais provável. E o resultado foi um Congresso ainda mais predatório, com aumento da influência do Partido Liberal da família Bolsonaro. Marina Silva, a melhor ministra do Meio Ambiente que o Brasil já teve e a mais importante ativista climática do país, não se elegeu para o Senado em São Paulo, o que revela os caminhos tortuosos do voto de grande parte das brasileiras e brasileiros. O segundo turno para a disputa presidencial era antecipado pelas pesquisas, a surpresa veio com os 2,2 milhões de votos a mais de Flávio Bolsonaro, que saiu na frente.
Se Lula conseguir inverter a superioridade numérica no segundo turno, terá muita dificuldade de governar com este Congresso – muito mais do que no atual mandato, em que já colecionou derrotas e capitulações. Como o repórter Guilherme Guerreiro Neto explicou em reportagem de SUMAÚMA, o Congresso hoje tem muito mais poder e depende muito menos do Executivo.
Outra diferença é o Supremo Tribunal Federal. Nos últimos quatro anos, a Corte barrou parte dos abusos e inconstitucionalidades do atual Congresso. Hoje, mergulhado numa crise provocada pela suspeita do envolvimento de ministros com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, protagonista daquela que tem sido chamada de a maior fraude da história do sistema financeiro no Brasil, o Supremo está dividido e desmoralizado. O próximo presidente poderá indicar entre três e quatro ministros da Corte. Somados aos dois indicados pelo ex-presidente Jair Bolsonaro – hoje preso por tentativa de golpe de Estado e que será solto caso o filho vencer a eleição –, serão entre cinco e seis ministros da totalidade de 11 alinhados ao bolsonarismo. No Senado, hoje o PL dos Bolsonaro ampliou sua presença e já tem o apoio de partidos do Centrão, como o Republicanos, o Podemos e o União Brasil, e de direita, como o Novo, o que garante número suficiente para fazer o impeachment de ministros que não se alinhem com a ideologia da extrema direita.
Se Flávio Bolsonaro vencer, o Supremo quase certamente servirá a um grupo político-econômico e a uma ideologia em vez de servir ao povo. “Se quiser fechar o STF, sabe o que você faz? Não manda nem um jipe. Manda um soldado e um cabo”, disse Eduardo Bolsonaro, que terá um papel de protagonismo no governo, caso o irmão mais velho seja eleito. O mesmo que pressionou os Estados Unidos para taxar os produtos brasileiros, agindo contra seu próprio país. A frase foi dita pelo primeiro-irmão em 2018. De lá para cá, os Bolsonaro aprenderam que podem derrotar o STF sem nem precisar de um cabo e um soldado.
Na Amazônia, pelo menos sete dos nove governadores serão de extrema direita. No segundo turno, esse número poderá subir para oito, como nos conta a repórter especial Claudia Antunes, aqui em SUMAÚMA. Flávio Bolsonaro venceu em oito dos dez municípios que mais desmataram o bioma, como mostrou a investigação do jornalista Fábio Bispo. No estado do Pará, o mais desmatado da Amazônia, o governador eleito, Daniel Santos, mais conhecido como “Dr. Daniel”, em 2024 foi multado pela agência ambiental brasileira em 1,4 milhão de reais (cerca de 275 mil dólares) por desmatamento. Ele venceu a candidata do ex-governador Helder Barbalho, aliado de Lula, prometendo “libertar o setor produtivo”. Entre as propostas, cancelar as multas ambientais.
Terra nua, terra morta, do que um dia foi vida criadora de mais vida no estado do Pará, levando a Floresta para o fim. Foto: Mauro Pimentel/AFP
Em algumas áreas de disputa na Floresta, os relatos são de que invasores esperam nas margens, literalmente, para entrar em Terras Indígenas assim que Flávio Bolsonaro vestir a faixa presidencial – isso se não for antes, apenas com a confirmação de sua vitória. Há um estranho silêncio nestas eleições, o que não se via nas anteriores, como acontece nas tocaias. É a espera. A orientação parece ser evitar ações violentas para não espantar os mais de 33,4 milhões (21,08% do total de eleitores) – número próximo à população do Peru – que se abstiveram de votar no primeiro turno, além dos 2,3 milhões que votaram em branco e dos 3,7 milhões que anularam o voto para presidente. Somando abstenções, nulos e brancos, são 39,4 milhões, mais do que a população da Polônia. A extrema direita, pelo menos até agora, teve cuidado de não empurrá-los rumo aos braços de Lula no segundo turno.
Lula, o Partido dos Trabalhadores e o campo progressista têm até 25 de outubro, data do segundo turno, para seduzir eleitores não totalmente alinhados com a extrema direita, mas que preferem uma “mudança” à continuidade representada pelo atual presidente, assim como convencer os que optaram por não votar no primeiro turno a se comprometer com a democracia. Há ainda um desafio para a democracia que ficou explícito neste primeiro turno, como foi mostrado em vídeo pelos jornalistas-floresta de SUMAÚMA: a dificuldade de alcançar os locais de votação, às vezes a dias de viagem por rio e por estrada. Há grupos, como os Indígenas, que não apenas são sub-representados nas instituições, como não têm garantia de acesso à democracia.
Se não conseguirmos reverter esse cenário e Flávio Bolsonaro ganhar, haverá pelo menos três grandes consequências para nossa casa-planeta. A primeira é que a América do Sul será quase toda dominada pela extrema direita tutelada por Donald Trump, o que impactará para muito além do continente. A segunda é que há grande probabilidade de que o Brasil deixe de ser uma democracia, dado o histórico golpista dos Bolsonaro. Flávio Bolsonaro poderá repetir o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, hoje preso por tentativa de golpe de Estado, ou, o mais provável, minar as instituições por dentro, reduzindo a democracia a uma fachada. A consequência mais grave, porém, será o fim da Amazônia, com a abertura total à exploração de “recursos”, levando a Floresta, hoje já bastante degradada, ao ponto de não retorno.
A primeira e a segunda consequências têm impacto sobre o mundo, mas é a terceira que poderá levar a humanidade para muito mais perto da extinção.
* Parte deste artigo foi publicada no jornal espanhol El País
A delicadeza da vida na aridez do desmatamento produzido pelo agronegócio, vida que resiste na solidão desolada dos escombros da mata. Foto: Soll/SUMAÚMA
Reportagem e texto: Eliane Brum
Edição de arte: Cacao Sousa
Edição de fotografia: Lela Beltrão
Checagem: Plínio Lopes
Revisão ortográfica (português): Valquíria Della Pozza
Tradução para o castelhano: Meritxell Almarza
Tradução para o inglês: Diane Whitty
Edição em inglês: Jonathan Watts
Montagem de página e acabamento: Flávia Coimbra
Coordenação de fluxo editorial: Viviane Zandonadi
Editora-chefa: Talita Bedinelli
Diretora de redação: Eliane Brum
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Fonte: SUMAÚMA
