O que tem no jornal dos petroleiros censurado pelo TSE a pedido de Flávio Bolsonaro (PL)
Por Redação — Brasil de Fato
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O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) acolheu um pedido de tutela de urgência apresentado pela campanha de Flávio Bolsonaro (PL) e determinou a suspensão imediata da circulação da edição especial de setembro do jornal Petróleo dos Brasileiros, produzido pelo Sindicato Unificado dos Petroleiros do Estado de São Paulo (Sindipetro Unificado).
A coordenadora-geral da Federação Única dos Petroleiros (FUP), Cibele Vieira, explicou que a decisão judicial não questionou a veracidade dos dados econômicos, históricos e trabalhistas reunidos na edição: “A Justiça não disse em nenhum momento que as informações do jornal são falsas, apenas barraram por classificar como eleitoral no período de campanha”.
A publicação censurada abre suas páginas internas com um artigo assinado pela professora de economia da Universidade Federal Fluminense (UFF) Juliane Furno, que analisa os indicadores do mercado de trabalho e destaca que o país alcançou a menor taxa de desemprego de sua história, com 5,2%, além de registrar uma renda média recorde de R$ 3.762.
A decisão monocrática de barrar o jornal foi proferida pelo presidente da corte, ministro Kassio Nunes Marques, que considerou haver eventual emprego de recursos de fonte vedada na disputa eleitoral devido ao uso da estrutura sindical.
Em cumprimento à ordem superior, a 1ª Zona Eleitoral de São Paulo expediu mandado intimando o sindicato a interromper a distribuição física e digital da publicação, a retirar o arquivo em formato digital do site oficial e a acautelar todos os exemplares não distribuídos, sob pena de multa de R$ 10 mil por ato de descumprimento ou por dia de atraso. A FUP e sindicatos filiados repudiaram a ordem judicial, classificando a medida como censura prévia e ataque à liberdade de imprensa sindical.
Conforme a coordenadora da FUP, “o sindicato entende que a publicação possui caráter jornalístico, informativo e sindical, voltado ao debate de temas de interesse dos trabalhadores”. Cibele diz ainda que “não houve intenção de realizar propaganda eleitoral, contribuição de campanha ou atuação coordenada com candidatura ou partido político”.
Com tiragem de 30 mil exemplares e oito páginas em formato tabloide, a edição especial traz o mote “Eleição 2026: o que cada projeto defende para o Brasil?”. Em vez de propaganda genérica, o periódico reúne análises econômicas, levantamentos sobre preços de combustíveis, votações trabalhistas e um resgate documental sobre a trajetória dos dois candidatos que disputam a Presidência da República.
Segundo os dados apresentados por Juliane Furno na segunda página do jornal censurado, a renda média da população trabalhadora cresceu 34% entre 2022 e 2025, impulsionada pelo emprego formal e pela política de valorização do salário mínimo.
O texto também compara a evolução dos preços de alimentos. Durante a gestão de Jair Bolsonaro (PL), a inflação de alimentos acumulou 46,24%, patamar 19,3 pontos percentuais superior à inflação média geral do período, enquanto sob o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a taxa acumulada até junho de 2026 foi de 17,12%, ficando abaixo da inflação média de 18,19%.
Furno alerta que o plano econômico defendido por Flávio Bolsonaro propõe cortes profundos nos gastos públicos, revisão previdenciária e aprofundamento da reforma trabalhista, o que reduz investimentos sociais e a renda.
Em outra reportagem, assinada pela jornalista e mestre em Políticas Públicas Alessandra Murteira, o jornal detalha o impacto da privatização de ativos da Petrobrás realizada durante a administração bolsonarista. A matéria aponta que a participação da estatal no refino nacional recuou de 99% para 83%, forçando um aumento de 15% na importação de derivados e encarecendo os combustíveis.
Com dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), a publicação demonstra que as refinarias privadas cobram valores superiores aos praticados pela Petrobrás.
Conforme o jornal, a Refinaria Landulpho Alves (Rlam), na Bahia, repassada ao fundo Mubadala Capital, aumentou o litro do diesel em 72,2% e o da gasolina em 56,1% em meio a tensões geopolíticas no Oriente Médio, enquanto os reajustes da Petrobrás foram de 0,9% e 2,1%, respectivamente. No Amazonas, a refinaria privatizada vendeu o diesel a R$ 7,90 por litro, índice 60% mais caro do que os R$ 4,47 cobrados pelas unidades da estatal.
A matéria cita ainda estudos do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep) indicando que a Rlam foi vendida por metade do seu valor de mercado às vésperas da entrada ilegal no país de joias de origem saudita, caso investigado pela Polícia Federal que resultou em indiciamento de Jair Bolsonaro.
O jornal dedica espaço à votação legislativa sobre a redução da jornada de trabalho. O texto ressalta que a proposta de fim da escala 6×1, que prevê a redução da jornada máxima para 40 horas semanais e assegura dois dias de descanso sem redução salarial, foi aprovada na Câmara e avançou no Senado com apoio da bancada governista.
A publicação denuncia que Flávio Bolsonaro viajou a Brasília durante o período eleitoral para articular com aliados o bloqueio da tramitação do texto no Senado. Em contraponto, o jornal expõe que o candidato do PL apoia uma proposta alternativa para permitir o pagamento por hora trabalhada e negociação direta entre empregado e empregador sem mediação de acordo coletivo.
Na página três, sob o título “O lobo em pele de cordeiro”, o periódico apresenta uma linha do tempo documental com episódios da trajetória de Flávio Bolsonaro. O material relembra declarações do candidato do PL na tribuna da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) em 2007 defendendo milícias como “novo tipo de policiamento”, a concessão da Medalha Tiradentes ao miliciano Adriano da Nóbrega enquanto este estava preso e o emprego de familiares de Nóbrega em seu gabinete até 2018.
O jornal cita ainda fatos de 2026, como a proximidade política de Flávio Bolsonaro com o deputado Rodrigo Bacellar e mensagens com o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do liquidado Banco Master. Paralelamente, o texto elenca ações de fiscalização da Polícia Federal e da Receita Federal no governo Lula que desarticularam esquemas de lavagem de dinheiro no setor de combustíveis operados por facções criminosas.
A contracapa da publicação traz a seção “O print é eterno”, que compara posições literais dos dois concorrentes em cinco áreas centrais: soberania nacional, armas e segurança, privatizações, meio ambiente e Banco Master.
No debate sobre soberania e o papel do Estado, o periódico contrapõe declarações sobre a gestão das riquezas nacionais e das empresas públicas.
De um lado, Lula afirma que um país soberano deve ser capaz de defender seu território, seus recursos e seu povo contra interesses estrangeiros, além de sustentar que privatizações não resolvem os problemas econômicos do país.
Do outro, o jornal resgata a fala de Flávio em evento nos Estados Unidos apontando o Brasil como alternativa para suprir a demanda estadunidense por minerais críticos, bem como sua declaração a investidores prometendo privatizar 95% das estatais e seguir as diretrizes econômicas de Paulo Guedes.
No campo da segurança pública e do armamento, o impresso destaca o confronto entre as visões sobre o acesso a armas de fogo. Enquanto o candidato do PT avalia que decretos de flexibilização de armas atendem aos interesses do crime organizado e defende que as famílias trabalhadoras buscam alimentação e material escolar em vez de armas, o parlamentar do PL declara que armas nas mãos de civis asseguram a defesa da vida e da propriedade, gerando reflexos positivos na segurança.
A publicação aborda ainda as divergências em torno da agenda climática e do sistema financeiro. Sobre meio ambiente, o jornal contrapõe a fala de Lula repudiando o negacionismo climático ao posicionamento de Flávio que classificou o aquecimento global como “discurso apocalíptico” e declarou em sabatina que os eventos climáticos extremos são fenômenos cíclicos.
Por fim, na seção sobre o Banco Master, o texto confronta a afirmação de Lula destacando a liquidação da instituição e a prisão de seu controlador à mensagem de áudio interceptada pela Polícia Federal na qual Flávio diz a Daniel Vorcaro que estaria sempre com ele.
A direção do Sindipetro Unificado informou que está cumprindo integralmente a ordem da Justiça Eleitoral, tendo adotado as medidas necessárias para suspender a distribuição, retirar o conteúdo digital do ar e recolher os exemplares impressos ainda não entregues.
A entidade destacou que as providências operacionais são executadas sem que isso configure reconhecimento de qualquer irregularidade na publicação.
No campo jurídico, a assessoria jurídica das entidades será formalmente habilitada nos autos para apresentar contestação perante o TSE, incluindo um pedido de reconsideração da decisão monocrática de Nunes Marques.
Caso a liminar não seja revista, o sindicato informou que avaliará a interposição de recurso ao Plenário da corte para garantir o direito à livre manifestação e à atividade sindical. Para a representação dos petroleiros, a ofensiva judicial movida por Flávio Bolsonaro busca silenciar as entidades sindicais e impedir que a categoria tome conhecimento dos projetos defendidos pelo próprio parlamentar durante a campanha eleitoral.
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Fonte: Brasil de Fato