O que está em jogo: cultura, democracia e o voto em 2026

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Por Bares pela Democracia — Brasil de Fato

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O bar como ponto de vista da rua e o debate sobre a cidade: quem ocupa, quem governa e quem é ouvido.

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Em 2018, o Estadão publicou um editorial intitulado “Uma escolha muito difícil”, argumentando que o eleitor teria que tomar uma decisão complicada entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad. O texto já deixava claro o lado assumido, ainda que de forma envergonhada: colocava na mesma métrica um “truculento apologista da ditadura militar” e um “preposto de um presidiário”, com argumentos que beiravam o ridículo.

Não é difícil de adivinhar quem era o candidato favorito do veículo que, assim como Bolsonaro, é uma viúva da ditadura. Nunca é demais lembrar outro famoso editorial, de 2 de abril de 1964, com o título “Vitorioso o movimento democrático”, celebrando a chegada dos militares ao poder. Ainda que posteriormente o apoio tenha sido retirado e a redação tenha virado um dos núcleos de denúncia contra a censura, o mal já estava feito.

Como bem sabemos, o bolsonarismo saiu vitorioso e mergulhamos em quatro anos de obscurantismo de fazer inveja à Idade Média. Logo no início do governo, Bolsonaro extinguiu o Ministério da Cultura, rebaixado a secretaria especial vinculada ao Ministério da Cidadania e depois ao Turismo.

Foi o início de uma longa perseguição ao setor, que asfixiou a Lei Rouanet com redução drástica do teto de captação e corte de cachês sob a justificativa do “fim da mamata”. Ainda que os maiores beneficiados com o incentivo fiscal fossem artistas alinhados à extrema-direita e que a família do então presidente estivesse toda na política há décadas sem produzir nada, o discurso colou.

Houve também o desmonte de órgãos como a Ancine e o Iphan, o veto às leis Paulo Gustavo e Aldir Blanc 2 (posteriormente revertido pelo Congresso), o cancelamento de editais e a censura a espetáculos e exposições que não estivessem alinhados à cartilha moral do governo. Tivemos a indicação de Sérgio Camargo à Fundação Cultural Palmares, que retirou grandes nomes da história afro-brasileira da lista de personalidades homenageadas e pregou o fim do Dia da Consciência Negra, tudo empacotado em um discurso que minimizava o racismo e suas lutas.

O auge, para orgulho do chefe, que até foto com cosplay de Hitler já tirou, foi o discurso do então secretário da Cultura, Roberto Alvim, utilizando estética nazista, com trilha de Richard Wagner e frases de Joseph Goebbels. Isso em 2020, em meio à pandemia, com o presidente fazendo propaganda de cloroquina e dando rolê de moto. O resultado: 700 mil mortos e a queda da taxa de vacinação.

Já deu para ter uma ideia do inferno que vivíamos. Todo dia alguma canalhice, o que nos levou às eleições de 2022 exaustos, mas esperançosos com a mudança do governo, com Lula à frente. A mobilização foi intensa, inclusive de parte da classe política, e nesse clima surgiu o Bares Pela Democracia.

Uma das principais articuladoras para a formação do grupo foi Jessy Dayane, candidata a deputada estadual pelo PT. Advogada, mestre em políticas públicas e produtora cultural, integrou a UNE e o Levante Popular da Juventude, e recentemente atuou no governo Lula. Sambista por essência e integrante do MST, fala com propriedade quando o assunto é território e cultura, o que a conduziu naturalmente a ser a articuladora entre movimentos sociais e os bares de São Paulo. Entre suas bandeiras estão a valorização da cultura negra e a defesa dos trabalhadores e pontos de cultura.

Outra mulher preta que sempre nos apoia é Carmen Silva, também candidata a deputada estadual, pelo PSB. Ela é uma das fundadoras do Movimento Sem-Teto do Centro (MSTC) e principal referência da Ocupação 9 de Julho, que abriu as portas para os nossos primeiros festivais em 2021. Hoje, esse quilombo urbano é um dos mais emblemáticos territórios de moradia popular, cultura, sustentabilidade e urbanismo social, construído à base de muita luta e resistência. Suas pautas vêm dessa prática diária: moradia digna, soberania alimentar, direito à cidade e justiça racial.

Ainda no campo estadual, temos a Bancada Feminista pelo Psol, composta por cinco mulheres negras: Paula Nunes (cabeça de chapa na urna), Simone Nascimento, Sirlene Maciel, Camila Lisboa e Raquel Gualberto. De acordo com seu site, “a Bancada Feminista é um movimento pela ocupação das mulheres na política, que defende o feminismo popular, antirracista, ecossocialista e para a maioria da população trabalhadora”. Paula fazia parte da bancada na Câmara Municipal de São Paulo, junto com Silvia Ferraro, Carolina Iara, Dafne Sena e Natália Chaves, que, além do apoio permanente ao Bares Pela Democracia desde o início, nos possibilitou orientar os bares a como participar dos treinamentos da Lei Não Se Cale, voltada contra a agressão sexual e situações de risco, proposta por elas.

A lista aumenta com Luna Zarattini, candidata pelo PT a deputada federal e eleita vereadora de SP em 2024. Um mandato sempre disponível a nos auxiliar, inclusive no importante debate sobre a nova lei do PSIU, e que se mostra pronto para abarcar diferentes compromissos com a população. Esse é o mote da campanha dela: pautas que vão do fim das bets à Tarifa Zero e ao fortalecimento dos cursinhos populares, com forte vínculo com a classe trabalhadora e a cultura.

Um dos pontos do programa de Luna que merece destaque é a defesa da soberania nacional. Acabamos de assistir ao discurso de Donald Trump na Assembleia Geral da ONU, em tom de ameaça contra a América Latina e, em especial, ao Brasil. Já está em curso a interferência dos estadunidenses nas nossas eleições, derrubando vídeos nas redes, instituindo sanções e permanentemente deixando no ar a possibilidade de uso da força contra nós, como foi feito na Venezuela.

A corrente bolsonarista fica em êxtase a cada fala nesse sentido. Na pessoa de Flávio Bolsonaro, temos o capacho perfeito que abrirá as portas do país para um alinhamento e submissão automáticos aos EUA. Este candidato é parte indissociável da tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2022. Sempre esteve ao lado do pai nas entrevistas e palanques, colocando dúvidas sobre o nosso sistema eleitoral para minar a democracia.

Envolvido até o pescoço no caso do Banco Master e com proximidade cada vez mais evidente do escândalo do INSS, o Bolsonaro da vez parece entrar em contagem regressiva para ser preso, assim como seu pai já está. Porém, tivemos que passar por quatro anos de desmonte do país para finalmente frear essa gangue. Não é possível que uma segunda chance esteja sendo dada para que se concretize esse projeto de dissolução do Estado brasileiro. Aliás, possível é, porque é um fato, com o realinhamento de interesses externos com os donos do poder por aqui, como aconteceu em outros momentos.

Temos diversas críticas ao governo Lula e seu modelo de governabilidade, no qual o Centrão dita as regras. Isso é normal, mas não conseguimos imaginar que possa ser pior do que o que passamos no passado recente, quando uma peça de roupa vermelha nas ruas já era motivo para agressões. O risco é real no governo estadual e federal, daí nosso apoio às candidaturas de Haddad e Lula.

Somos um grupo heterogêneo, as opiniões e correntes internas são diversas. É impossível dizer como grupo que todos apoiam determinados candidatos, mas a história é uma só, seja do nosso coletivo ou do país. Se não queremos permanecer reféns desse modo de se fazer política, no qual a ameaça e o medo são as ferramentas principais, é importante votar em candidatos e candidatas que tenham alinhamento com os requisitos básicos do que a lei determina como convívio social. O que nos leva, também, às candidaturas ao Senado que respeitam essas regras, como Marina Silva.

Lutamos diariamente contra o desmonte da cultura em nossa cidade, o que demonstra os perigos da coesão entre município e estado em um projeto bolsonarista. Batemos sempre na tecla do diálogo para que as convivências sejam possíveis em um cenário cada vez mais intolerante, no qual o Estado tem atuado mais como fomentador das diferenças do que como mediador dos naturais conflitos de uma democracia. Ao contrário do Estadão, não acreditamos que os lados sejam iguais.

Dito isso, fica aqui a cola com os números das candidatas e candidatos que citamos e acreditamos se alinhar ao projeto social que queremos. Há várias outras candidaturas com as quais já estabelecemos contato e que desejamos que sejam eleitas; aqui nos resumimos a quem fez parte da nossa história e que concorre nestas eleições. Vamos à luta:

Deputada Estadual:

Jessy Daiane (PT) – 13713

Carmen Silva (PSB) – 40300

Bancada Feminista (Psol) – 50000

Deputada Federal: 

Luna Zarattini (PT) – 1302

Senadora: 

Marina Silva (REDE) – 180

Governador:

Fernando Haddad (PT) – 13

Presidente: 

Lula (PT) – 13

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*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato

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Fonte: Brasil de Fato

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