O apito da Globo, os ataques à Justiça e a ameaça à eleição

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Por Florestan Fernandes Jr — Brasil 247

O apito de cachorro para a matilha fascista foi disparado ontem à noite de dentro dos estúdios da Rede Globo. A justificativa apresentada pela direção da emissora para o cancelamento do debate presidencial, uma suposta insegurança jurídica provocada pelas decisões judiciais que alteraram as regras acordadas, foi um dos primeiros e mais estridentes toques do apito. Entre essas decisões estava a determinação da ministra do TSE, Estela Aranha, que suspendeu a exibição do púlpito vazio destinado a representar a ausência de Lula e também impediu que os demais candidatos dirigissem perguntas ao presidente ausente.

Interessante constatar que, antes mesmo da nota da Globo, o maior interessado na armação da cadeira vazia, o candidato Flávio Bolsonaro, que havia confirmado presença, cancelou sua participação, alegando que houve “censura imposta ao evento pelo TSE”. Não demorou muito para que os outros candidatos também pusessem a boca nos apitos, atacando as decisões judiciais.

É justamente nesse ponto que a posição da Globo acaba se aproximando da estratégia política dos bolsonaristas. Ao transformar decisões judiciais em sinônimo de “insegurança jurídica” e colocar a Justiça no centro da crise que levou ao cancelamento do debate, a emissora passa a alimentar, ainda que por caminhos próprios, a mesma narrativa que vem sendo utilizada pela extrema direita para desacreditar as instituições responsáveis por garantir o processo eleitoral.

Não à toa, os três candidatos — Flávio, Caiado e Zema —, que nos últimos anos estiveram juntos em manifestações atacando o STF e pedindo anistia para os condenados pela tentativa de golpe de Estado, incluindo Jair Bolsonaro, atacaram mais uma vez as decisões das mais altas Cortes de Justiça do país.

A Justiça sempre foi um dos principais focos dos ataques da extrema direita. É ela que precisa ser dobrada, controlada e silenciada para que regimes autocráticos possam prosperar.

Desde o início de seu segundo mandato, Donald Trump tem feito de tudo para ameaçar nossa Justiça. Uma delas foi impor sanções a ministros do Supremo Tribunal Federal por meio da Lei Magnitsky. Trump também vinculou publicamente a política tarifária contra o Brasil ao processo judicial de Jair Bolsonaro. Em julho de 2025, ao anunciar a tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, afirmou que sua decisão estava relacionada ao tratamento dado ao ex-presidente e exigiu o fim do processo.

Na mesma noite do cancelamento do debate da Globo e no mesmo dia em que pesquisas eleitorais apontavam para uma possível vitória de Lula, o governo dos Estados Unidos fez uma sinalização preocupante: suspendeu, sem informar detalhes sobre a ameaça, os serviços na Embaixada e nos consulados dos Estados Unidos no Brasil por questões de segurança. A missão norte-americana no Brasil orientou os cidadãos estadunidenses que necessitassem de assistência de emergência a não comparecer às instalações diplomáticas durante o período de suspensão. Até o momento, o governo dos EUA não informou que tipo de ameaça motivou a decisão.

Qual é o temor do governo Trump durante as eleições no Brasil? Houve alguma ameaça de organizações terroristas? Se sim, por que não pedir ajuda ao governo brasileiro? Ou será que a ideia seria outra: criar um clima de insegurança para que a matilha de extrema direita retome a tentativa de golpe de Estado diante de uma provável derrota do bolsonarismo?

A justificativa infundada poderá ser a mesma de 2022: colocar em dúvida a nossa Justiça e o processo eleitoral.

Fiquemos atentos. A imprensa mundial vem noticiando, nos últimos dias, os riscos que a democracia brasileira poderá enfrentar diante da postura intervencionista de Donald Trump na América Latina.

Quando a Justiça é atacada, quando o processo eleitoral é colocado sob suspeita e quando a maior potência do mundo cria um ambiente de insegurança às vésperas da eleição, não estamos diante de episódios que devam ser analisados isoladamente. São sinais que precisam ser observados com atenção. A democracia brasileira já sobreviveu a momentos muito mais graves. E não será o medo, nem o apito de cachorro, que poderá determinar o seu destino. Como bem definiu Paulo Nogueira Batista Jr., o Brasil não cabe no quintal de ninguém.

Fonte: Brasil 247

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