A Globo preparou uma arapuca para Lula — e caiu nela

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Por Maria Luiza Falcão Silva — Brasil 247

A Globo preparou uma arapuca para Lula — e caiu nela. Essa é a leitura política que faço da combinação entre o púlpito vazio, a possibilidade de perguntas ao candidato ausente e o cancelamento do encontro depois que essas condições foram alteradas.

Não é necessário supor uma conspiração: basta examinar o efeito que o formato poderia produzir. Lula permaneceria simbolicamente em cena, como alvo, sem estar ali para responder. A dois dias da eleição, a imagem que fica da noite de quinta-feira, 1º de outubro, é a de um fracasso. A Globo prometeu o último debate presidencial antes do primeiro turno e terminou cancelando o encontro. Para uma emissora que se apresenta como referência do jornalismo brasileiro, foi um vexame. Mas o prejuízo ultrapassa sua reputação: milhões de brasileiros perderam uma oportunidade de ouvir candidatos, confrontar propostas e avaliar quem pretende governar o país. 

É preciso estabelecer os fatos para que a indignação tenha fundamento. Lula havia anunciado que não participaria. Flávio Bolsonaro, inicialmente confirmado, desistiu horas antes. A emissora atribuiu o cancelamento a decisões judiciais de última hora: uma impediu a exibição do púlpito vazio reservado a Lula e perguntas dirigidas ao candidato ausente; outra determinou a inclusão de Renan Santos. Essa foi a justificativa apresentada pela Globo, não uma conclusão que o público esteja obrigado a aceitar sem questionamento. 

O episódio exige discutir a responsabilidade dos candidatos, o formato dos debates e, sobretudo, a escolha editorial de uma emissora que decidiu retirar o programa do ar. Explicar as dificuldades não encerra a discussão sobre a decisão. 

O púlpito vazio e o debate que desapareceu 

Informar que um candidato recusou um convite é obrigação jornalística. Transformar sua ausência em elemento permanente de encenação televisiva é uma escolha editorial. Um púlpito vazio não é um objeto neutro: produz uma mensagem, organiza a atenção do espectador e pode converter a ausência em protagonista do programa. Há um argumento legítimo em favor de cobrar o comparecimento dos candidatos. Quem disputa a Presidência deve responder a perguntas difíceis e submeter suas propostas ao escrutínio público. Isso vale para Lula, para Flávio e para qualquer outro concorrente. Mas a cobrança precisa conviver com outra exigência: o debate deve oferecer esclarecimento, e não apenas criar imagens úteis para a disputa de versões. 

A Globo alegou que as alterações judiciais comprometiam as condições previamente acordadas. Mudanças às vésperas de uma transmissão realmente podem criar dificuldades. Ainda assim, cabe perguntar por que a resposta foi cancelar todo o encontro. Qual era a impossibilidade concreta de ouvir os participantes restantes? Que alternativas foram consideradas? Por que não oferecer ao público uma explicação mais detalhada sobre aquilo que teria se tornado inviável?

Não temos elementos para afirmar que seria simples reorganizar o programa em poucos minutos. Temos, porém, motivos para exigir transparência de quem ocupa tamanho espaço na vida pública. A expressão “insegurança jurídica” não pode funcionar como ponto final de uma discussão que envolve o direito do eleitor à informação. É nesse sentido que a palavra arapuca ganha força. Um encontro que poderia manter Lula como alvo permanente, mesmo ausente, perdeu essas condições por determinação judicial. 

Depois da desistência de Flávio, a Globo cancelou o programa. A sequência permite questionar o peso que aquela encenação tinha no evento, embora não demonstre, por si só, uma intenção deliberada de prejudicar o presidente. A emissora pode contestar decisões judiciais, defender seu formato e explicar suas dificuldades. O que não pode esperar é que seu próprio diagnóstico seja recebido como verdade incontestável. Liberdade de imprensa também pressupõe liberdade para criticar a imprensa. 

Flávio amarelou 

A desistência de Flávio Bolsonaro merece atenção. Depois de anunciar presença, o candidato recuou e invocou censura. É sua interpretação política dos acontecimentos. Não basta repeti-la para que se transforme em descrição objetiva do que ocorreu. Impedir a exposição de um púlpito vazio e perguntas a quem não está presente não equivale, por si só, a proibir os participantes de apresentar suas propostas. A decisão pode ser discutida e criticada. Para sustentar que houve censura, contudo, é necessário explicar precisamente qual manifestação foi impedida e em que condições. 

Há uma contradição política no comportamento de quem cobra o confronto e, diante de mudanças no evento, decide não comparecer de última quando outros candidatos já se encontravam inclusive no local do debate. Flávio precisava responder pelo seu projeto de governo perante o eleitorado e os demais candidatos. A disputa presidencial não se resume ao adversário que cada campanha prefere enfrentar. Também seria pouco convincente fazer uma crítica severa à Globo e silenciar sobre a ausência de Lula. O presidente tem experiência, realizações e argumentos para defender. Justamente por isso, é legítimo cobrar sua participação em espaços de confronto público. A defesa de sua candidatura não exige tratar todas as decisões de sua campanha como indiscutíveis. Lula participou do Flow na mesma noite. Essa escolha mostra que a televisão já não concentra todos os caminhos de comunicação com o eleitor. Foram mais de um milhão e meio de ouvintes do Flow.

É certo que uma entrevista e um debate cumprem funções diferentes. Conversar longamente com entrevistadores permite desenvolver argumentos; responder a adversários permite testar esses argumentos sob contestação. Uma democracia se beneficia dos dois. O problema da noite de quinta-feira foi a soma de decisões que deixou o eleitor sem o encontro anunciado. Reconhecer responsabilidades diferentes torna a crítica mais consistente.

 O vexame de quem acreditava controlar a cena 

Avalio que a Globo saiu politicamente diminuída. Não porque se possa medir, neste momento, uma perda definitiva de audiência ou de influência. Saiu diminuída porque o grande evento que anunciava terminou em cancelamento, num dos momentos mais importantes do calendário democrático. Uma emissora pode organizar um debate. Não pode determinar sozinha o valor político que ele terá nem monopolizar a conversa nacional. As campanhas dispõem de outras plataformas; o público circula entre televisão, podcasts e redes sociais; decisões judiciais podem alterar condições de realização. A autoridade jornalística precisa demonstrar capacidade de responder a esse ambiente. Também seria um erro celebrar o desaparecimento de debates televisivos. A fragmentação da comunicação pode ampliar vozes, mas pode igualmente fechar eleitores em ambientes onde suas certezas nunca são confrontadas. Quando cada candidato fala apenas ao público mais receptivo, diminui a possibilidade de uma experiência comum de discussão.

 A perda de centralidade da Globo, portanto, não resolve o problema democrático. O que deve ocupar esse espaço é mais jornalismo, mais perguntas relevantes e mais confronto de projetos. A emissora merece ser cobrada pelo cancelamento precisamente porque o debate público importa. O vexame está na distância entre a promessa de um grande serviço ao eleitor e o resultado entregue. Quem pretendia organizar a cena acabou tendo de explicar por que a cena desapareceu.

 Dois dias para transformar ruído em decisão 

Nesta sexta-feira (01) e neste sábado (02), a disputa deve se concentrar na mobilização final, na tentativa de conquistar indecisos e na batalha pela interpretação dos últimos acontecimentos. É uma expectativa política, não uma previsão de resultado. Nenhum cancelamento autoriza concluir, sozinho, quem ganhou votos ou quem perdeu a eleição. É provável que as campanhas tentem apresentar a noite de quinta-feira como prova das narrativas que já vinham defendendo. Uns falarão em censura; outros, em fuga; outros, em fracasso da emissora. O eleitor precisa perguntar o que cada versão esclarece e o que procura esconder. A proximidade da votação também aumenta o valor político de conteúdos que provocam medo, indignação ou sensação de urgência. Por isso, gravações recortadas, acusações sem documentação e mensagens que prometem revelar uma verdade definitiva devem ser examinadas com cuidado. 

A velocidade de circulação não substitui a verificação. As pesquisas finais ajudarão a retratar o momento, mas não funcionarão como apuração antecipada. Sua leitura exige atenção à data das entrevistas, à margem de erro e à diferença entre intenções de voto e votos válidos. Até a votação, permanece a incerteza sobre comparecimento e decisão dos eleitores. Para quem defende a reeleição de Lula, a resposta mais consistente é recolocar o projeto de país no centro da conversa: emprego, renda, proteção social, investimento, soberania e compromisso democrático. 

A indignação com a Globo pode ser compreensível. Ela não substitui a explicação de por que um programa de governo merece o voto. Da mesma forma, Flávio Bolsonaro deve ser avaliado pelo que propõe e pela relação de sua candidatura com o legado político do pai. A troca de geração dentro de uma família não demonstra, por si só, mudança de projeto. Essa mudança, se reivindicada, precisa aparecer em compromissos claros e escolhas concretas. Flávio não conseguiu passar essa mensagem. Muito pelo contrário, seguiu o rastro do pai preso.

O eleitor também escolherá o Congresso. A capacidade de governar e a direção das políticas públicas dependerão dessa composição. Uma campanha concentrada exclusivamente na disputa presidencial deixa de explicar uma parte decisiva do poder que estará sendo distribuído nas urnas.

 A Globo se complicou e se apequenou ao cancelar o debate. O tamanho e a duração desse desgaste ainda dependerão de sua resposta e da avaliação do público. O fracasso daquela noite, porém, já está dado: o encontro prometido não aconteceu. No domingo, 4 de outubro, o Brasil fará uma escolha que nenhuma emissora pode fazer em seu lugar. Até lá, a tarefa é exigir informação, confrontar projetos e resistir à tentativa de transformar a eleição em uma sucessão de cenas calculadas. O país precisava de uma discussão à altura de seu futuro. Ontem, a Globo não a entregou. 

A participação de Lula no Flow, na noite de ontem, mostrou justamente o que o debate cancelado pela Globo não pôde mostrar: um candidato capaz de sustentar uma conversa longa, responder a perguntas, defender seu governo e expor sua visão de país sem depender de frases de efeito. Lula apareceu seguro, experiente e à vontade, falando diretamente a um público que em boa parte não acompanha a política pelos meios tradicionais. Mais do que uma boa performance de comunicação, foi uma demonstração de presença política. Enquanto a Globo terminava a noite explicando por que seu debate não aconteceria, Lula ocupava outro espaço, falava ao país e reafirmava sua candidatura. A ironia talvez seja a melhor síntese daquela quinta-feira: a emissora preparou o palco, mas quem conseguiu ocupar a cena foi Lula.

Fonte: Brasil 247

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