O ano da COP tripla: três crises ou uma só agenda?
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Em 2026, essa conexão ficará especialmente evidente. O ano reúne três das grandes conferências ambientais das Nações Unidas: as COPs sobre desertificação e biodiversidade, realizadas a cada dois anos, e a COP sobre mudanças climáticas, que acontece anualmente. Todas nasceram do mesmo marco histórico, a Rio-92, que colocou o meio ambiente e desenvolvimento no centro da agenda internacional há mais de três décadas.
A primeira delas já aconteceu. Em agosto, Ulaanbaatar, na Mongólia, recebeu a COP17 sobre desertificação. Em outubro, Yerevan, na Armênia, será sede da COP17 da biodiversidade. E, em novembro, Antalya, na Turquia, recebe a COP31 do clima, com a Austrália à frente das negociações.
Não por acaso, 2026 vem sendo chamado de triple COP year, o ano da COP tripla. Mais do que uma coincidência de calendário, a sequência ajuda a mostrar o quanto essas agendas dependem umas das outras.
Uma terra degradada perde biodiversidade, perde carbono e fica mais vulnerável a secas, enchentes e outros eventos extremos. A perda da natureza, por sua vez, afeta água, alimentos, matérias-primas e cadeias produtivas. E as mudanças climáticas ampliam todas essas pressões.
Durante décadas, tratamos clima, biodiversidade e degradação da terra como problemas ambientais distintos. A realidade física nunca respeitou essas fronteiras. E, cada vez mais, a economia também não.
Os números ajudam a dimensionar o problema. Segundo a ONU, degradação do solo, desertificação e seca custam cerca de US$ 878 bilhões por ano à economia global, enquanto as perdas associadas à seca podem crescer até 7,5% ao ano. Desastres relacionados ao clima já provocaram US$ 3,6 trilhões em danos neste século. E a perda de polinizadores, apenas um dos efeitos da crise de biodiversidade, coloca em risco até US$ 577 bilhões por ano da produção agrícola mundial.
Mas há uma outra face dessa conta. A economia verde, que reúne atividades ligadas à energia limpa e à regeneração de ecossistemas, já movimenta cerca de US$ 5 trilhões por ano e pode ultrapassar US$ 7 trilhões até 2030, de acordo com o Fórum Econômico Mundial.
É aí que a convergência das três COPs ganha outra dimensão. Mais do que conferências ambientais em sequência, elas começam a apontar para uma mesma transformação econômica.
Em 2026, as presidências das três convenções, com o Brasil ainda à frente da COP do clima até novembro, vêm buscando explicitar essas conexões nas negociações formais e na Agenda de Ação, que mobiliza empresas, governos locais, investidores, academia e sociedade civil. Afinal, se os acordos são negociados entre países, sua implementação acontece muito além das salas de negociação.
A COP17 de desertificação, encerrada em 28 de agosto, mostrou bem essa mudança de enfoque. O encontro teve forte ênfase em implementação, financiamento e resiliência à seca e reforçou uma ideia importante: restaurar terras degradadas é também uma agenda econômica. A conferência apresentou um portfólio de US$ 1,3 bilhão para restauração e resiliência à seca em 23 países e aproximou bancos multilaterais, investidores e instituições de desenvolvimento de projetos que utilizam instrumentos como garantias, seguros, recursos concessionais e financiamento associado a resultados ambientais.
Esse pragmatismo tende a aparecer também na COP17 da biodiversidade, que acontece de 19 a 30 de outubro. O desafio agora é tirar do papel as metas para 2030 do Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal, aprovado em 2022.
Para as empresas, essa discussão já deixou de ser periférica. Compreender dependências e impactos sobre a natureza significa olhar para segurança hídrica e alimentar, disponibilidade de matérias-primas, resiliência das cadeias produtivas, acesso a capital e competitividade. Proteger a natureza, portanto, não é uma agenda paralela ao negócio. É parte das condições que permitem ao negócio existir e prosperar no longo prazo.
Em novembro, a COP31 do clima fecha esse ciclo. A conferência acontece depois da COP30 de Belém, que colocou a implementação no centro da agenda climática, e chega com o desafio de aprofundar esse movimento, levando compromissos e decisões cada vez mais para o terreno dos investimentos, das políticas públicas e das soluções concretas.
Essa orientação já aparece na preparação para a conferência. Temas como eletrificação, redução das emissões de metano, cidades mais resilientes e segurança alimentar ganham espaço justamente por exigirem mudanças práticas em setores produtivos, infraestrutura e planejamento urbano.
Nesse contexto, adaptação e mitigação aparecem cada vez mais conectadas. Depois de o planeta ultrapassar temporariamente a marca de 1,5°C de aquecimento, fica ainda mais evidente que reduzir emissões e preparar economias, cidades, empresas e comunidades para impactos que já estão acontecendo precisam avançar juntos.
As três COPs continuarão tendo ritos, negociações e decisões próprias. Nem faria sentido esperar que produzissem respostas idênticas. O que começa a mudar é a forma de enxergar o problema.
Há uma movimentação concreta, no âmbito da ONU, para aproximar as três COPs. Em Belém, durante a COP30, as presidências das três convenções aprovaram a Declaração Conjunta de Belém sobre as Convenções do Rio, um passo político que reconhece que a fragmentação dificulta o cumprimento dos objetivos de clima, biodiversidade e combate à degradação da terra. Isso sinaliza não para uma fusão das três convenções, mas um plano conjunto para 2026 com iniciativas coordenadas de restauração e resiliência.
Mudanças climáticas, perda de biodiversidade e degradação da terra são pressões diferentes sobre uma mesma base: os sistemas naturais dos quais dependem nossas economias e sociedades. Quando essa base se fragiliza, crescem os riscos para alimentos, água, infraestrutura, cadeias produtivas e investimentos.
A oportunidade aberta por este ano de COP tripla é justamente superar as fronteiras que nós mesmos criamos. Conectar políticas, mercados, financiamento e soluções empresariais pode transformar três agendas ambientais em uma agenda de desenvolvimento capaz de combinar resiliência, competitividade e prosperidade.
Sobre a autora
Marina Grossi é presidente do CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável), entidade com 29 anos de atuação e mais de 110 grandes empresas associadas, Enviada Especial da Presidência da COP30 para o Setor Empresarial.
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Fonte: umsoplaneta