Narcisa Cordeiro e a arte de guardar o tempo

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Por Redação — Jornal Opção

Narcisa Cordeiro e a arte de guardar o tempo

Paulo Rolim

Especial para o Jornal Opção

Há pessoas que passam pela cidade. Outras levam a cidade consigo, guardada nos olhos, na memória e no tempo. Narcisa de Abreu Cordeiro é uma delas.

Goiânia ainda era quase menina quando ela nasceu, em 19 de agosto de 1946, filha de Antero Batista de Abreu Cordeiro e Lina Carvalho Cordeiro.

A cidade contava pouco mais de uma década desde a inauguração oficial e ainda havia muito de novidade naquele chão vermelho do Planalto Central. Ruas aprendiam seus caminhos, árvores ensaiavam sombras sobre calçadas recentes e casas novas recebiam famílias que chegavam trazendo malas repletas de sonhos, esperanças e o desejo de sucesso, partindo do começar da nova vida.

Narcisa e Goiânia cresceram quase juntas.

Talvez venha daí essa relação tão próxima entre a mulher e a cidade, entre a arquiteta e a memória, entre aquela que observa o presente e aquela que insiste em perguntar ao passado: o que havia aqui antes de nós?

Adquiriu conhecimento ao estudar nos renomados Grupo Escolar Modelo, no Instituto Maria Auxiliadora, Liceu de Goiânia, Colégio Universitário e Colégio Carlos Chagas, até escolher o prestigiado curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Católica de Goiás. Escolha que, pode-se dizer, foi um encontro anunciado.

Narcisa percebeu que uma cidade não cabe em uma planta urbanística. Havia árvores. Havia águas. Nascentes escondidas entre o capim, córregos procurando caminho ante obstáculos que começaram a oprimi-los

Narcisa tinha dentro de si a certeza de que era preciso compreender a cidade. Saber por que determinada avenida seguia naquela direção, por que as praças estavam naqueles locais e de onde nascera a ideia e o desenho que transformaram uma porção do Cerrado na nova capital de Goiás.

Mas logo percebeu que uma cidade não cabe em uma planta urbanística. Havia árvores. Havia águas. Nascentes escondidas entre o capim, córregos procurando caminho ante obstáculos que começaram a oprimi-los e um Cerrado inteiro respirando para além das ruas que avançavam.

Attílio Corrêa Lima: arquiteto e urbanista que projetou Goiânia | Foto: Reprodução.

Vieram os estudos de Botânica. E a arquiteta passou a conviver com a ambientalista. Uma observava aquilo que o homem construía. A outra perguntava o que ele não tinha o direito de destruir. As duas permaneceriam juntas.

Ao se debruçar sobre as origens de Goiânia, Narcisa encontrou Attílio Corrêa Lima e o desenho primeiro da cidade. Pesquisou seu plano urbanístico, seus fundamentos, suas transformações e aquilo que o tempo acrescentou — ou retirou — do projeto original. Desse olhar nasceram trabalhos como Goiânia — Embasamentos do Plano Urbanístico Original, realizado em parceria com Normalice Maria de Queiroz, e Goiânia — Evoluções do Plano Urbanístico Original.

Mas talvez ela procurasse algo além dos traços de Attílio.

Talvez quisesse reencontrar a Goiânia que seus próprios olhos conheceram. Porque existe uma cidade que está nos mapas e outra que carregamos dentro de nós. A primeira pode ser medida. A segunda, somente lembrada. É feita da casa que havia naquela esquina — como a de seus vizinhos Pedro Ludovico e Dona Gercina, fundadores de Goiânia —, da árvore que sombreava determinado passeio, do vizinho cujo nome quase ninguém mais recorda, das crianças brincando em ruas que ainda não conheciam o trânsito apressado dos anos futuros.

Na Coleção Ruas e Pioneiros, ela se volta para uma cidade que começava a existir apenas na memória daqueles que a viveram. E memória é coisa delicada. Se ninguém pergunta, silencia. Se ninguém escreve, desaparece

Vieram os pioneiros. As famílias. As fotografias. As lembranças.

Na Coleção Ruas e Pioneiros, em parceria com diversos autores, ela se volta para uma cidade que começava a existir apenas na memória daqueles que a viveram. E memória é coisa delicada. Se ninguém pergunta, silencia. Se ninguém escreve, desaparece.

Talvez por isso Narcisa tenha desenvolvido essa persistente disposição de guardar, não no sentido de esconder, mas de revelar.

Sobrinha-neta de João D’Abreu, personagem ligado aos acontecimentos que antecederam e acompanharam a transferência da capital de Goiás, dedicou-se também à preservação de documentos e informações relacionados à sua trajetória. Ao lado da filha, Ana Carolina D’Abreu Carvalho Pires, entregou à Assembleia Legislativa de Goiás parte desse acervo. Há gestos que parecem pequenos até que o tempo mostre seu tamanho. Porque papel também morre. A tinta desaparece. Fotografias ficam amarelas. Nomes se perdem. O inexorável tempo. E a história, quando não encontra quem cuide dela, também envelhece.

Narcisa cuidou.

Mas não somente pelos arquivos.

A literatura lhe ofereceu outro lugar para guardar o tempo. Poeta, escritora, cronista, contista, ensaísta e pesquisadora, encontrou na palavra uma possibilidade que a arquitetura não lhe poderia oferecer. Em In Totum, publicado em 1990 e reeditado em 2026 em e-book, deixou que a poesia ocupasse territórios onde réguas, plantas e esquadros não chegariam.

Nas artes plásticas, encontrou a matéria. Foi aluna de Ana Maria Pacheco, dedicou-se à escultura, participou de exposições no Brasil e no exterior e esteve ligada ao Museu de Escultura ao Ar Livre da Praça Universitária

Afinal, também existem arquiteturas da alma. E essas não obedecem a escalas.

Nas artes plásticas, encontrou a matéria. Foi aluna de Ana Maria Pacheco, dedicou-se à escultura, participou de exposições no Brasil e no exterior e esteve ligada ao Museu de Escultura ao Ar Livre da Praça Universitária.

Pedra, metal, forma.

Outra maneira de conversar com o tempo.

Narcisa Cordeiro: arquiteta, urbanista e historiadora | Foto: Guilherme Alves

E houve a música. Compositora e soprano dramático, levou sua voz ao LP Narcisa e ao CD Oráculo. Revisitou com seu estilo clássicos como Bachianas Brasileiras, de Heitor Villa-Lobos, e Ave Maria, de Franz Schubert, acompanhada ao piano pela musicista Andréa Luísa Teixeira.

Talvez não haja contradição alguma nessa multiplicidade. Quem olha superficialmente poderá enxergar muitas Narcisas: a arquiteta, a urbanista, a ambientalista, a escritora, a historiadora, a pesquisadora, a poeta, a escultora, a cantora. Mas talvez exista apenas uma: a mulher que encontrou diferentes linguagens para expressar o mesmo sentimento de pertencimento.

À sua cidade. À natureza. À arte. À memória. A Goiás.

Sua presença em instituições culturais tornou-se consequência natural dessa caminhada. Na Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás — AFLAG, a Casa de Rosarita Fleury, ocupa a Cadeira nº 35, cuja patrona é Regina Lacerda, desde 11 de maio de 1994. No Instituto Histórico e Geográfico de Goiás — IHGG, ocupa a Cadeira nº 31, cuja patrona é Eurydice Natal e Silva.

Quando idealizou e realizou, em outubro de 2018, na sede da AFLAG, o Simpósio Goiânia, cidade bem nascida, reuniu cinco vertentes: Urbanismo, Arquitetura, Literatura, Música e Artes Plásticas.

Todas estas vertentes cabiam — e cabem — dentro de sua própria história.

E há ainda o Cerrado.

A formação em Botânica deu à ambientalista argumento pra compreender aquilo que a sensibilidade já lhe dizia: nenhuma cidade será verdadeiramente humana se crescer destruindo a natureza que lhe permite existir

Esse Cerrado tantas vezes confundido com vazio por aqueles que nunca aprenderam a observá-lo. Narcisa aprendeu. Conheceu suas árvores retorcidas, suas flores discretas, suas águas escondidas e sua extraordinária capacidade de sobreviver entre o fogo e a estiagem.

E o defendeu.

Sua formação em Botânica encontrou-se com o urbanismo e deu à ambientalista argumentos para compreender aquilo que a sensibilidade já lhe dizia: nenhuma cidade será verdadeiramente humana se crescer destruindo a natureza que lhe permite existir.

Uma árvore não é apenas uma árvore quando carrega décadas de história. Uma nascente não é apenas água quando dela depende a vida. E o Cerrado não é terreno à espera de ocupação.

É casa. É origem. É permanência.

Quando recebeu, em 2018, a Medalha do Mérito Legislativo Pedro Ludovico Teixeira, concedida pela Assembleia Legislativa de Goiás, Narcisa voltou sua palavra para a preservação do Cerrado e da biodiversidade brasileira. Talvez porque certas convicções nos acompanhem mesmo nos momentos em que deveríamos falar apenas de nós.

Maximiano da Matta Teixeira e Amália Hermano Foto Acervo da família 867
Maximiano da Matta Teixeira, desembargador, e Amália Hermano, ambientalista e escritora | Foto: Acervo da família

E foi por esses caminhos que sua história encontrou outra mulher: Amália Hermano Teixeira. Eram muitas as afinidades. Amália, como Narcisa, olhou para a natureza quando ainda eram poucos os que percebiam a urgência de protegê-la. Educadora, escritora, jornalista, advogada, pesquisadora e ambientalista, deixou uma trajetória que atravessou diferentes campos do conhecimento e da vida cultural goiana.

Em parceria com Bento Fleury e Maria Lewergger, desenvolve o projeto Esse Goyaz profundo, estudo sob diversos pontos de vista de Goiás desde seus primórdios, dos tempos da ocupação ocorrida há quase 300 anos

Ao idealizar, juntamente com o professor e pesquisador Bento Fleury, e participar da construção da obra Amália Hermano Teixeira — Ambientalista e Polivalente, publicada em agosto de 2026 em e-book e com o livro físico no prelo, Narcisa realiza um desses encontros. A pesquisadora encontra a pesquisada. A ambientalista encontra a ambientalista. A mulher que preserva memórias encontra outra mulher que merece ser lembrada.

Em parceria com o Professor Bento Fleury e a estudante de arquitetura Maria Paula Fleury Lewergger, desenvolve o projeto ‘Esse Goyaz profundo…”, já em seu décimo sétimo volume, um aprofundado estudo sob diversos pontos de vista de Goiás desde seus primórdios, dos tempos da ocupação ocorrida há quase trezentos anos, os povos que a duras penas ajudaram o estado a se consolidar, passando pelas artes, literatura, tradições, e até sobre os animais que também deram sua cota de imenso sacrifício.

E há nisso uma espécie de círculo que se completa.

Porque, no fim, talvez seja exatamente disso que trate grande parte da caminhada de Narcisa Cordeiro: não permitir que o tempo tenha sempre a última palavra.

O tempo derruba casas. Ela registra suas histórias.

O tempo leva pioneiros. Ela procura seus nomes.

O tempo amarela fotografias. Ela pergunta quem são aqueles rostos.

O tempo modifica a cidade. Ela retorna ao desenho original.

O tempo ameaça o Cerrado. Ela o defende.

O tempo cobre personagens com o esquecimento. Ela abre arquivos.

E escreve.

Há quem construa edifícios para permanecer. Há quem plante árvores. Há quem escreva livros. Narcisa, de algum modo, percorreu e percorre esses caminhos. A menina nascida quando Goiânia ainda era jovem atravessou as décadas vendo a cidade crescer ao redor de si. Viu desaparecerem paisagens que muitos julgavam eternas e nascerem outras que hoje parecem ter estado ali desde sempre.

Porém, como sabem aqueles que convivem longamente com a memória, o passado nunca desaparece completamente. Às vezes fica numa fotografia. Noutras, numa árvore antiga, em um documento esquecido, na fachada de uma casa, num verso, numa canção. Ou, na lembrança de alguém.

Porque talvez seja esse o mais belo modo de guardar o tempo: deixá-lo passar, sem permitir que leve consigo aquilo que merece permanecer.

Paulo Rolim, editor, escritor e jornalista, é colaborador do Jornal Opção. Este texto contou com uso de IA na revisão e confirmação de dados.

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Fonte: Jornal Opção

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