‘Não precisamos ir a Londres, Paris ou Washington’: Sul Global avalia produção própria de conhecimento em fórum na China
Por Mauro Ramos — Brasil de Fato
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A quarta edição do Fórum Acadêmico do Sul Global (Fasg) encerrou no domingo (18), em Xangai, maior cidade da China, com um balanço de cerca de mais de mil acadêmicos e intelectuais conectados desde seu início em 2023, segundo o secretário da organização, Jeff Xiong. Ao longo dos dois dias, cerca de 270 representantes de partidos políticos, movimentos populares e centros de pesquisa de cerca de 35 países debateram governança, modernização e a experiência e o desafio de governos populares no Sul Global.
Em entrevista ao Brasil de Fato, Xiong afirmou que a plataforma está cumprindo um propósito que antes parecia depender das capitais do Norte Global. A presença do vice-presidente de Gana, Jane Naana Opoku-Agyemang, e do secretário-geral do Partido Comunista da África do Sul (PCSA), Solly Mapaila, nesta edição foi, para ele, um sinal da legitimidade crescente do encontro.
“Podemos produzir conhecimento e construir vínculos entre partidos progressistas e forças do Sul Global nos nossos próprios termos. Não precisamos ir a Londres, Paris ou Washington”, expressou Lu Xinyu, presidenta do Fasg. O fórum mantém três grupos de pesquisa permanentes: Soberania Digital e Inteligência Artificial Soberana, Nova Teoria do Desenvolvimento do Sul Global e Geopolítica sob uma Perspectiva Marxista.
A cooperação Sul-Sul também vem se expandindo na área comunicacional. Um exemplo é a realização do documentário “Sementes do Amanhã”, uma parceria entre o Shanghai Media Group, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) e o Brasil de Fato.
Além disso, no encerramento do fórum, foi lançado oficialmente o Centro de Mídias do Sul Global, que reúne o Brasil de Fato, a Prensa Latina e a Pan African TV de Gana, primeira emissora da África Subsaariana com correspondente permanente na China. Tanto o BdF como as demais mídias possuem presença na China.
O Partido Comunista da China e o Partido Comunista Sul-Africano foram fundados no mesmo mês, em julho de 1921, um em Xangai, outro na Cidade do Cabo, destacou Lu Xinyu, presidenta do Fasg, no discurso de encerramento. Ela citou um texto de Lenin escrito naquele ano: “Onde quer que se encontre, qualquer que seja o destino que o espera, mesmo que se sinta estrangeiro, sem língua, sem amigos, longe de sua terra natal, o trabalhador sempre encontrará camaradas e amigos pela melodia familiar da Internacional”. Um vídeo contando a história de como o hino internacionalista chegou à China foi exibido na abertura do encontro.
Em Xangai, 105 anos depois, Solly Mapaila, secretário-geral do PCSA, trouxe ao fórum a história centenária do partido: a organização em minas e fábricas, os anos de clandestinidade e a luta ao lado do Congresso Nacional Africano (CNA).
Em novembro de 2025, o PCSA concorreu pela primeira vez de forma independente às eleições locais sul-africanas desde sua fundação, em 1921. No debate sobre o papel dos partidos, Mapaila ressaltou que a questão central, numa perspectiva marxista, não é apenas se os partidos participam da governança ou da modernização, mas “que interesses de classe representam, quem os financia, que forças sociais mobilizam e que tipo de forças produtivas buscam desenvolver”.
Ao abordar o tema do encontro “Partidos do Sul Global: Governança e Modernização”, a presidenta destacou a ideia de democracia popular como prática cotidiana na China. A essência da democracia está na construção de “instituições para a participação popular e na melhoria das condições de vida do povo”, disse. O processo exige negociação entre interesses distintos: entre trabalhadores e camponeses, jovens e velhos, cidade e campo. “Isso exige muito trabalho e muito tempo”, concluiu Lu Xinyu.
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Fonte: Brasil de Fato