Mudar para quem e para onde?
Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital
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Cientistas e pesquisador do Centro de Estudos Amazônia Sustentável da USP.
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As propostas do candidato da extrema-direita caminham na contramão das soluções necessárias para enfrentar os principais desafios do Brasil
O segundo turno das eleições coloca em debate os rumos do Brasil diante de desafios estruturais que exigem respostas urgentes: as profundas desigualdades socioeconômicas, o avanço do crime organizado em diferentes setores da sociedade e o agravamento das crises ambientais e climáticas. Nesse cenário, o candidato da extrema-direita apresenta o lema “Vamos mudar o Brasil”. Mas mudar em que direção? E, sobretudo, em benefício de quem?
As propostas do candidato da extrema-direita caminham na contramão das soluções necessárias para enfrentar esses e outros desafios. Essa orientação também encontra respaldo em setores da mídia, cujas posições convergem com interesses econômicos concentrados nas mãos de uma minoria. O cenário que se desenha é o de um país com menos proteção social, investimentos cada vez mais restritos em saúde e educação, relações de trabalho precarizadas e oportunidades limitadas de acesso à riqueza nacional. Nesse modelo, as necessidades da ampla maioria da população são relegadas a segundo plano, enquanto a concentração de renda e de patrimônio favorece uma parcela privilegiada da sociedade, incluindo as corporações da mídia.
E não podemos ignorar os impactos no enfrentamento das mudanças climáticas e na proteção ambiental. Recentemente, o Congresso aprovou mudanças que flexibilizam as exigências do licenciamento ambiental e reduzem os mecanismos de controle de atividades potencialmente poluidoras. Uma das mudanças mais preocupantes é a possibilidade de concessão de determinadas licenças com base apenas na autodeclaração dos empreendedores. Na prática, transfere-se ao interessado a demonstração da viabilidade ambiental de sua atividade, reduzindo o controle preventivo do Estado.
O crime organizado avança sobre diversas áreas da Amazônia, por meio do garimpo ilegal e da grilagem de terras, inclusive em territórios indígenas , representando grave ameaça ao ecossistema amazônico e a sua rica biodiversidade. O avanço do desmatamento ameaça o cumprimento dos compromissos internacionais assumidos pelo Brasil, enquanto as emissões de poluentes decorrentes das queimadas prejudicam a saúde de milhões de brasileiros e a integridade dos nossos ecossistemas.
O Brasil não deve reproduzir as políticas adotadas por governos de extrema-direita em outros países no enfrentamento da crise climática. Precisamos promover uma transição energética que aproveite o nosso enorme potencial de geração solar e eólica para produzir energia abundante, barata e sustentável. É fundamental, também, estabelecer um mapa do caminho para a redução progressiva da exploração e do uso de combustíveis fósseis. Esse caminho pode transformar o Brasil, no futuro próximo, em uma potência energética global. Precisamos, ainda, de políticas públicas fundamentadas na ciência para adaptar o País às novas condições climáticas e proteger a economia e as populações mais vulneráveis dos impactos de eventos extremos. Esses riscos tendem a se intensificar com o aumento das emissões de gases de efeito estufa, em um contexto de resistência de setores da indústria do petróleo aos esforços de governança climática global.
O futuro de nossos filhos e netos depende da capacidade do sistema econômico global de conter as emissões de gases de efeito estufa. Mesmo que todos os países cumpram os compromissos no Acordo de Paris, as projeções apontam para um aumento da temperatura de 2,8 graus Celsius. Esse nível de aquecimento poderá provocar graves impactos na economia e nas populações de diversos países, especialmente nos mais vulneráveis.
Há outros temas em jogo, entre eles a preservação do sistema democrático e a integridade das instituições, abaladas por acontecimentos recentes. A independência do Judiciário e do Legislativo e o respeito às suas atribuições são fundamentais para conter as ameaças autoritárias.
A provável redução drástica dos investimentos em ciência e educação também representa uma ameaça. A desvalorização do conhecimento científico, da autonomia das instituições de pesquisa e da formação crítica da população compromete a capacidade da sociedade de questionar discursos autoritários, apresentados como verdades incontestáveis. Neste momento crítico, a defesa da ciência, da educação e da democracia ganha relevância ainda maior.
Nesse contexto se evidencia a importância histórica das escolhas pela frente. Os desafios sociais, ambientais, econômicos e institucionais exigem uma reflexão cuidadosa sobre os rumos do País. Mudar o Brasil deve significar construir uma sociedade mais justa, democrática e sustentável. O domingo 25 está aí, vamos fazer a nossa parte. •
Publicado na edição n° 1435 de CartaCapital, em 21 de outubro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Mudar para quem e para onde?’
A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
Paulo Artaxo
Cientistas e pesquisador do Centro de Estudos Amazônia Sustentável da USP.
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Fonte: Carta Capital