Marcha da Indignação: um acerto que abre novo caminho à luta de classes

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Por Fernando ScolnikEsquerda Diário

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Dezenas de milhares de pessoas lotaram a Plaza de Mayo e houve importantes mobilizações em mais de 70 cidades de ponta a ponta do país. A indignação invadiu o cenário político contra um governo que aplica ajustes, mas também diante de burocracias que traem e de uma liderança “opositora” que pede para esperar um ano. O mérito de uma autoconvocação inédita por fora das direções sindicais que virou o jogo e agora se propõe como um grande passo para novos desafios: abrir uma perspectiva de comitês de coordenação e luta de classes no caminho da greve geral para derrotar Milei, seu plano e seus cúmplices.

Foi um sopro de ar fresco. Daqueles que são mais do que necessários. Foi uma manifestação de dezenas de milhares nas ruas. Em CABA (Cidade Autônoma de Buenos Aires), mas também em todo o país. Um grito que se fazia necessário diante de tanta direita de ajuste, repressão e entrega no governo, mas também diante de grande parte da liderança política e sindical “opositora” que só pede para aguentar e esperar, apesar de o governo parecer mais fraco e de se sentir no ar que é possível enfrentá-lo.

Foram dezenas de milhares os que opinaram diferente de todas essas burocracias neste sábado. E não é a primeira vez. Há muito pouco tempo, em 6 de agosto, a luta contra a Ley de Tierras (Lei de Terras) já tinha demonstrado que há vontade de lutar. Desta vez foi Myriam Bregman quem lançou a ideia de fazer a Marcha de la Bronca (Marcha da Indignação). Depois foram realizadas reuniões para uma autoconvocação. Presenciais, em CABA. Mas também virtuais, para estender a ideia a todo o país. A proposta foi crescendo e chegaram a ser mais de 350 organizações de trabalhadores, estudantes e expoentes da cultura, dos direitos humanos e da política os convocantes para a jornada de luta deste 19 de setembro. A ideia da marcha ganhou tanta força que nos últimos dias todos os meios de comunicação do país tiveram que falar dela. Os comitês por um partido da nova classe trabalhadora também desempenharam um papel fundamental, assumindo a convocatória, divulgando-a em cada canto e, finalmente, neste dia 19, formaram as colunas mais numerosas da Marcha de la Bronca.

Depois de longas semanas de preparação, neste sábado as ruas explodiram. Mas comecemos de mais atrás. Das raízes da indignação.

A cena tinha se viralizado nos últimos dias. Um lugar: Berazategui, na região metropolitana de Buenos Aires. Uma espera: a de mais de 1.500 pessoas em uma fila de vários quarteirões. Um objetivo: conseguir uma vaga de emprego em uma churrascaria da região, por salários de aproximadamente 800.000 pesos.

A imagem foi apenas o símbolo de uma Argentina que aprofunda sua crise econômica e social. Os números da semana foram frios ao confirmar isso. O Indec [Instituto Nacional de Estadística y Censos] informou que a economia caiu 0,6% no segundo trimestre de 2026. O desemprego subiu para 7,9%, mas muito mais importante ainda foi que os dados oficiais mostraram que o que cresce é a precarização: a informalidade no último ano atingiu 45%.

Há indignação porque o salário não dá. Porque se perdem postos de trabalho. Porque empresas fecham. Porque são cortadas as aposentadorias, as verbas para Acessibilidade/Pessoas com Deficiência, saúde ou educação. Porque cada vez mais gente comum está endividada para comer ou comprar remédios. Pelos ataques sistemáticos às mulheres e à diversidade.

Alheio a toda necessidade social, um Milei cada vez mais enfraquecido e impopular se propõe a persistir em seu rumo e assim o ratificou esta semana. Diante dos seus, quando os reuniu na Casa Rosada para confirmar o caminho perante ministros, deputados e senadores do La Libertad Avanza. Mas também para fora, enviando o Orçamento 2027, com números de fantasia e uma realidade de ajuste. No meio disso, tenta mudar a pauta querendo se apropriar da bandeira das Malvinas, embora a realidade do descontentamento imponha limites às manobras de ocasião, e a verdade do seu alinhamento e entrega a Donald Trump fique rapidamente explícita por trás do discurso.

No entanto, em seus cálculos, Milei conta com um elemento-chave: o mal-estar social é imenso, mas as burocracias da CGT e da CTA o ajudam com sua passividade absoluta. Como fizeram ao deixar passar a Reforma Trabalhista, os diferentes ajustes ou traindo cada luta para que se resolvesse por conta própria.

Mas não é só a burocracia sindical. É também grande parte da liderança opositora que não só demonstra moderação absoluta e deixa passar tudo, como já diz explicitamente que não resta outra opção a não ser aguentar. Neste mesmo sábado, isso ficou explícito com Axel Kicillof em seu ato de lançamento de campanha eleitoral: “É preciso aguentar, porque falta menos para acabar com este pesadelo”. Não só chama à resignação por mais um ano, mas também incorpora fascistas ao seu arranjo eleitoral, como Santiago Cúneo (que esta semana xingou Myriam Bregman e Nicolás del Caño), e manda seu braço direito Carli Bianco dar declarações de moderação total perante o grande poder econômico. Vem aí outro Frente de Todos 2.0, se conseguirem fechar acordo com o restante do peronismo, como a ala de CFK e Sergio Massa. Por unanimidade, o peronismo também vem de votar nos juízes para a impunidade de Milei, o lawfare e Lago Escondido. Essa história nós já vimos.

Mas, como dizíamos no início, foram dezenas de milhares os que opinaram diferente de toda essa liderança neste sábado. Não se deve aguentar. Há indignação e há vontade de lutar, como se viu na briga pela Ley de Tierras. Mas essa indignação precisa ser organizada, sair às ruas e lutar. Por isso pegou tanto a proposta de Myriam Bregman de fazer a Marcha de la Bronca, à qual se somaram centenas de organizações e personalidades.

Em todo esse caminho, também desempenharam um papel fundamental os Comitês por um partido da nova classe trabalhadora junto a Myriam Bregman, que se organizam há meses e já somam cerca de 200 em todo o país, reunindo milhares de pessoas que se encontram, debatem, lutam e constroem perspectiva para erguer uma nova alternativa histórica após anos de fracassos dos governos capitalistas de diferentes espectros políticos. Neste sábado, 19, os comitês, junto ao PTS, formaram as colunas mais numerosas na Marcha de la Bronca, tanto na Cidade de Buenos Aires quanto em todo o país. Algo novo está nascendo. O fato de Myriam Bregman ser, por tantos meses consecutivos, a figura política com a melhor imagem do país expressa a firmeza, a coerência, o fato de ter enfrentado Milei desde o primeiro minuto sem especular, de não ter lhe dado um único voto no Congresso Nacional, de estar nas ruas e de expressar a luta do movimento de mulheres contra um governo tão misógino. Com ela como bandeira, são milhares e milhares os que se organizam.

As dezenas de milhares de pessoas que lotaram a Plaza de Mayo e as que se mobilizaram em todo o país demonstraram que o mal-estar social e a vontade de lutar existem. Foi uma autoconvocação com uma força inédita que deixou completamente escancarada a traição das burocracias sindicais e a possibilidade de quebrar a passividade. Essa força enorme hoje tem novos desafios: não ficar como uma marcha isolada, mas garantir que, de agora em diante, cada luta esteja cercada por milhares para triunfar; colocar de pé comitês de coordenação em todas as regiões entre trabalhadores, estudantes, organizações de Direitos Humanos, sociais e de bairro, para construir a força não apenas para apoiar cada combate e recuperar as organizações das mãos das burocracias, mas também para trilhar o caminho da greve geral para derrotar Milei, seu plano e seus cúmplices. Essa foi uma das ideias centrais do documento lido diante de uma multidão na Plaza de Mayo.

Fonte: Esquerda Diário

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