Por João Victor Sampaio — Carta Capital

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Universitários de todo o País se unem contra a ameaça bolsonarista e comandam a onda vermelha

Depois de um primeiro turno apático e do susto causado pela vitória de Flávio Bolsonaro no domingo 4, a esquerda brasileira iniciou uma mobilização urgente e intensa em busca da virada de Lula puxada principalmente pela juventude e pelo movimento estudantil. Enquanto a campanha do presidente apostava nas redes sociais se aproximando de figuras jovens recém-eleitas, como Guilherme Cortez, do PSOL, e as petistas Ana Elisa e Luna ­Zarattini, os estudantes já tomavam as ruas. Na segunda-feira à noite, alunos da Universidade Federal Fluminense saíram do campus de Gragoatá e atravessaram Niterói com faixas, cartazes e palavras de ordem a favor do presidente. Na terça, foi a vez de a União Nacional dos Estudantes lançar a campanha “Estudantes com Lula”, em que convocava as entidades estudantis a se organizar e construir focos de mobilização pela reeleição dentro e fora das universidades. No mesmo dia, já circulava a confirmação de 40 atos em 14 estados e no Distrito Federal. Em nota, a instituição relembrou os esforços dos universitários no enfrentamento à ditadura empresarial-militar e ressaltou ainda que Flávio Bolsonaro “representa um campo político que, quando no poder, exterminou as perspectivas de futuro e mudança do povo brasileiro”. Em entrevista a CartaCapital, a presidenta da UNE, Bianca Borges, reforça a importância histórica da mobilização: “Quando lembramos que a nossa sede foi incendiada depois do golpe de 1964, que a entidade foi colocada na ilegalidade, que estudantes foram presos, torturados e assassinados, e que, mesmo assim, o movimento estudantil continuou se organizando, estamos falando sobre escolhas feitas por jovens que tinham praticamente a mesma idade dos estudantes que hoje estão dentro das universidades”.

O objetivo em comum uniu diferentes instituições públicas e privadas. Na quarta 7, estudantes já chamavam atenção de todo o País com atos na UFRGS, UFBA, UFPA, UTFPR de Curitiba, Unicentro e UFPR, entre outras instituições de ensino. Ainda na semana do posicionamento da UNE, as mobilizações se estenderam para o Rio de Janeiro, em caminhada da Candelária até o Colégio Pedro II, e Belo Horizonte, com um ato na Praça Afonso Arinos. O movimento teve programação prevista até terça-feira 13, o dia do “Ato da Virada”, evento que reuniu a esquerda no Largo da Batata, icônico local de manifestações da Zona Oeste de São Paulo.

As agressões e ameaças contra universitários se intensificaram após o primeiro turno

A repulsa dos estudantes por um plano de governo alinhado ao legado de Jair Bolsonaro, que abriu as portas para o desmonte e a descredibilização das universidades, não se limitou ao chamado da UNE. “De fato é uma coisa puxada pela UNE, mas também parte do trabalho de muitos coletivos de estudantes independentes. Os ideais estão se organizando de maneira espontânea”, explica Gabriel de Oliveira, acadêmico e coordenador do DCE na Universidade Federal de Pernambuco, que administra a página União dos Estudantes de Pernambuco. Para além das assembleias, Oliveira destaca a atividade nas redes que, através de mobilização orgânica, possibilitou furar o que o estudante chama de “reduto de convertidos” nas universidades públicas. O fato de a esquerda reconhecer a necessidade da disputa online explicita a liderança do campo opositor, que teve suas campanhas de maior força entre os candidatos com presença ampla nas plataformas. “Eu faria uma distinção importante: a presença muito organizada da extrema-direita nas redes não significa que exista uma juventude naturalmente ou definitivamente hegemonizada por esse campo”, constata a presidenta da UNE. “O que existe é uma disputa em aberto.”

Bianca Borges, presidente da UNE, lembra da resistência em 1964. “Escolhas feitas por jovens que tinham a mesma idade” dos alunos de hoje em dia

A força do levante levou o próprio Flávio Bolsonaro a agir. O candidato do PL entrou com uma ação na Justiça Eleitoral na quinta-feira 8 para tentar derrubar páginas críticas à sua candidatura alegando “derrame de desinformação nas redes”. A ação pede a suspensão de perfis, aplicação de multas e a cassação da chapa do presidente Lula. Entre os alvos do recurso estava a União dos Estudantes de Pernambuco. As investidas bolsonaristas, entretanto, não se resumem ao Judiciário. Oliveira conta que, com a realização da primeira assembleia de alinhamento político dos estudantes, vieram os ataques virtuais. Há registros de grupos pró-Flávio nas redes sociais cometendo injúria racial, xenofobia e prometendo bombardeios. Apesar de a origem do fogo estar sob investigação, os recentes incêndios nas instalações da faculdade coincidiram com as ameaças a esta e a outras instituições, como a Universidade Federal Fluminense. Entretanto, “os estudantes não se calaram e continuaram se organizando”, relata o universitário.

Os estudantes se organizam, sem tutela – Imagem: Redes Sociais/UNE

Alunos da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, convocaram uma assembleia em apoio a Lula na quinta 8, mas foram vetados pela reitoria, sob a alegação de questões de segurança. O ato, que atraiu ainda manifestantes da USP e da PUC-SP, foi levado então para a Rua Maria Antônia – endereço que entrou para a história em 1968 como palco do confronto entre estudantes da USP, que lutavam contra a ditadura, e alunos do Mackenzie, criadores do violento e miliciano Comando de Caça aos Comunistas. Dali, o movimento pró-Lula caminhou até a Praça Roosevelt, no que seria um evento pacífico não fossem as provocações dos estudantes de direita, que causaram tumulto e as poucas intervenções da PM. Enzo Maluf, aluno do Mackenzie e um dos representantes do perfil “Mackenzistas com Flávio”, ataca o movimento de esquerda pela “desordem”. “É uma perda de tempo. Se eles realmente são estudantes sérios, poderiam fazer uma manifestação na Rua Maria Antônia, desde que houvesse ordem, mas, não, eles se rebelaram”, disse a Carta Capital. Uma das respostas da extrema-direita ao levante estudantil pró-Lula, o perfil direitista já conta com 140 mil seguidores e convocou seu próprio ato na Maria Antônia para a quarta-feira 14 com apoio de Lucas Pavanato. “A direita estava muito calada e, após os levantamentos da página e do grupo do WhatsApp, os estudantes de direita se sentiram extremamente representados”, diz Maluf. Além do Mackenzie, faculdades como UFSC, PUC-RS e UFPel também tiveram reações associadas ao candidato do PL, a exemplo do perfil “Direita nas Universidades”, cuja criação antecede o período eleitoral e reivindica o reconhecimento de estudantes que divergem do viés de esquerda. Esbanjando a paleta verde-amarela e vídeos produzidos por IA, publicações recentes que demonstram a colaboração entre os diversos perfis constroem o ideário de tomada das universidades por uma esquerda revolucionária.

“Foi uma semana muito importante. Estamos até chamando de ´tsunami da esperança´”, diz Vinícius Soares, da ANPG

Foi na Avenida Paulista que o levante estudantil pôde testar o seu alcance. No domingo 11, uma manifestação com a presença de Lula tomou a via como poucas vezes na história: foram dez quarteirões e ruas paralelas totalmente tomados pela cor vermelha. Convocado pela Associação Nacional de Pós-Graduandos juntamente com a UNE, a Ubes e outras entidades de educação e ciência, o ato marchava em defesa da educação, da ciência e da democracia. Vinícius Soares, presidente da ANPG, comemora o poder de mobilização: “Foi uma semana muito importante. Nós estamos até chamando de ‘tsunami da esperança’”. O pesquisador projeta o desmonte das universidades públicas em um possível “governo Bolsonaro 2.0”, considerando o histórico de corte de verbas para a educação e perseguição a membros da comunidade científica durante o mandato de Jair. “Flávio tem alertado que eles vão fazer um ‘tesouraço’, inclusive com perspectiva de uma PEC de transição para cortar recursos já em 2026, nos meses de novembro e dezembro”, disse a CartaCapital. Para Soares, o grande alcance das manifestações está na principal distinção do levante deste ano em relação à militância progressista de pleitos passados. “O diferencial da campanha de 2026 é que a gente tem conseguido mobilizar um amplo espectro da juventude, não estamos atingindo apenas militantes de esquerda.” •

Publicado na edição n° 1435 de CartaCapital, em 21 de outubro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Levante estudantil’


João Victor Sampaio

Estudante de Jornalismo na Cásper Líbero. Estagiário de Redação de CartaCapital baseado em São Paulo, com foco em política, tecnologia e sociedade.


Kamille Soumaili

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Fonte: Carta Capital

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