Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital

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Uma década depois, as obras do Teleférico do Alemão são reiniciadas, mas a população desconfia

Incomuns em setembro, a chuva e a neblina que neste ano marcam o fim do inverno no Rio de Janeiro dão um ar de miragem ao Teleférico do Alemão quando observado a distância. O monstrengo, idealizado e construído durante o governo de Sérgio Cabral com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento, é um símbolo da leviandade política nacional. Parte do “sonho olímpico” então vivido pela cidade, a promessa de revolucionar a mobilidade para as dezenas de milhares de moradores do complexo de favelas em pouco tempo se esvaiu em problemas administrativos, financeiros e de segurança pública. Inaugurado em 2011, o Teleférico do Alemão funcionou por cinco anos e está parado há dez.

Parte de um ambicioso projeto que incluía a construção de creches, unidades de saúde, cinemas e até um museu, o teleférico foi erguido um ano após a ocupação do Complexo do Alemão para a instalação de uma Unidade de Polícia Pacificadora, “espetáculo” transmitido ao vivo para todo o Brasil. Ao custo de quase meio bilhão de reais, a obra, cuja estrutura pode ser avistada de diversos pontos da cidade, virou um retrato do abandono e motivo de tristeza e chacota para os cariocas. Agora, o governador interino, o desembargador Ricardo Couto, anuncia a retomada do ­Teleférico do Alemão, novamente com recursos do PAC, desta vez estimados em 251 milhões de reais. A chuva reduziu a movimentação dos 150 operários escalados para as obras iniciadas na terça 15. Três dias antes, chegaram ao Rio, vindas da França, as 78 toneladas de cabos de aço, com 7,2 quilômetros de extensão, que serão instaladas ao longo dos próximos dois meses. A deterioração dos cabos originais foi um dos motivos de o teleférico ter deixado de funcionar em 2016. “Os novos são mais resistentes, vão durar o dobro”, diz Pablo Villarim, secretário estadual de Obras Públicas. Uma segunda etapa da retomada passará pela “modernização” das 152 gôndolas que servem como cabines de passageiros. Antes consideradas apertadas e sufocantes pelos moradores, elas agora terão mais ventilação e espaço.

“A retomada permitirá o retorno de serviços sociais que funcionavam nas estações”, afirma Pablo Villarim, secretário de Obras

As infraestruturas das seis estações que compõem o percurso do teleférico (Bonsucesso, Adeus, Baiana, Alemão, Itararé e Fazendinha) já estão com suas reformas concluídas, diz o governo. Se o cronograma for cumprido, elas receberão, nas próximas semanas, elevadores, escadas rolantes e catracas, além de sistemas de som, bilhetagem e monitoramento por vídeo. “A retomada também permitirá o retorno de serviços sociais que funcionavam nas estações antes da interrupção do transporte”, diz Villarim. A expectativa é de que, após a reinauguração, cerca de 100 mil moradores e visitantes do Complexo do Alemão passem a utilizar o teleférico, mas ainda não há previsão para o término das obras e a volta do seu funcionamento.

Prometida pelo ex-governador Cláudio Castro, do PL, em sua campanha à ­reeleição, mas abandonada, a retomada só se tornou possível após uma negociação entre o governo em exercício e a empresa francesa Poma, fornecedora dos cabos, pela obtenção de um prazo de garantia mais longo, que passará a ser de dez anos. As movimentações iniciais da obra chamaram atenção dos moradores. Além das gigantescas bobinas com os cabos, foram levados para a parte alta do Alemão uma retroescavadeira e um guincho mecânico com capacidade para 130 toneladas.

“O Teleférico do Alemão nem pode ser classificado como política social porque foi criado apenas como uma imagem para um projeto político-eleitoral”, diz o sociólogo Ignacio Cano, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Ele lembra que, na época, Cabral, após uma visita a ­Medellín, deu início aos projetos dos teleféricos da Providência e do Alemão, similares aos erguidos na cidade colombiana. “Logo depois, o teleférico, que não tinha sido discutido com a comunidade, parou de funcionar”, lembra. E em todo esse tempo, diz Cano, as políticas sociais implementadas no complexo de favelas fracassaram em sua tentativa de diminuir o controle do crime organizado. “O Alemão continua sendo o quartel-general do Comando Vermelho, apesar das UPPs e daquela retomada cinematográfica em 2010.”

“O Alemão continua sendo o quartel-general do Comando Vemelho, apesar da retomada cinematográfica de 2010 e das UPPs”, observa sociólogo

Deputada estadual pelo PT, Elika ­Takimoto afirma que o fracasso do projeto do Teleférico do Alemão não pode ser separado do que aconteceu com a segurança pública naquele território. “O teleférico parado por uma década é uma das consequências visíveis de um processo maior de abandono das políticas públicas. Ao longo de anos, especialmente durante o governo Castro, faltou prioridade para uma presença permanente do Estado no Complexo do Alemão. E não estou falando apenas de polícia, mas de transporte, educação, saúde, cultura, saneamento, geração de oportunidades e políticas para a juventude”, destaca a parlamentar.

Ainda traumatizada pela mais recente carnificina – a Operação Contenção que, em outubro do ano passado, deixou um rastro de 121 mortos –, a população do Complexo do Alemão reage com algum ceticismo às promessas do Poder Público. “O teleférico era uma coisa tão prática para a gente. Se não for para reabrir, que pelo menos as estações abandonadas virem escolas ou creches. Tem tanta criança, tanto adolescente por aí”, lamenta a dona de casa Adriana Feliciano ao jornal Voz das Comunidades. Mas a retomada também traz esperança. Dona de um trailer de lanches, Maria da Guia Pereira lembra como o fechamento do aparelho afetou sua renda: “Na época, eu fazia almoço e servia aos trabalhadores e passageiros do teleférico. Quando fechou, ficou ruim mesmo para a gente”. Para ­Takimoto, ao deixar o teleférico abandonado, o governo estadual estava dizendo na prática que as 80 mil pessoas que hoje moram no complexo de favelas não são prioridade. “A retomada é importante, mas, para além de colocar novamente um equipamento de tal magnitude para funcionar, essa medida precisa fazer parte da reconstrução da presença do Estado no território.” Já Cano avalia que só o tempo dirá se a retomada trará efeitos positivos. “Infelizmente, não sabemos se o Teleférico do Alemão um dia terá de fato alguma utilidade social ou não.” Por enquanto, o gigante adormecido resta como uma miragem na neblina carioca. •

Publicado na edição n° 1435 de CartaCapital, em 21 de outubro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Engodo olímpico’


Maurício Thuswohl

Repórter de CartaCapital no Rio de Janeiro

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Fonte: Carta Capital

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