Por Luiz Gonzaga Belluzzo — Carta Capital

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O vírus da intolerância midiática se desenvolve rapidamente na estufa da autocomplacência

Os poderosos da Grande Mídia nativa não cobriram, mas encobriram, por todos os meios e modos, a manifestação pró-Lula na Avenida Paulista. Nas tevês, durante a programação noticiosa, o telespectador ficou à mercê do excesso de gesticulação de âncoras e quetais, contorcionismos que denunciavam o mal-estar com a negação dos fatos que ocupavam as ruas. Não raro, os diálogos entre apresentadores e repórteres se encerravam com ataques ao vernáculo: “brigado”.

Na mídia impressa – jornais e revistas – a cobertura foi sovina, senão hostil, aos manifestantes da Paulista. Não espanta: na edição de sexta-feira, a revista Veja editou matéria que acusava Lula de ter recebido grana do indefectível Daniel Vorcaro. A acusação apoiava-se em uma narrativa obtida no celular do ex-banqueiro. A Polícia Federal não apurou tais increpações no celular do indigitado Faria Limer.

Luis Nassif há tempos publicou o livro O Caso Veja. A obra revela suas preo­cupações com os rumos da mídia brasileira. A exposição é magnífica. Vou apresentar um excerto do livro que atesta a prática jornalística de Veja.

A propósito da imprensa e de suas liberdades, julguei oportuno reproduzir nesta coluna o relatório final da Comissão sobre a Liberdade de Imprensa, nomeada em 1947 pelo Congresso dos Estados Unidos. Considero o texto um exemplo de equilíbrio e acuidade no tratamento do tema “liberdade de imprensa”.

Diz o relatório: existe uma razão inversamente proporcional entre a vasta influência da imprensa na atualidade e os grupos sociais que podem utilizá-la para expressar suas opiniões. Enquanto a importância da imprensa para o povo aumentou enormemente com o seu desenvolvimento como meio de comunicação de massa, “diminuiu em grande escala a proporção de pessoas que podem expressar suas opiniões e ideias através da imprensa”.

O relatório procurou apontar “o que a sociedade tem direito de exigir de sua imprensa”. Definiu duas regras essenciais para o legítimo exercício da liberdade de informação e opinião: 1. “Todos os pontos de vista importantes e todos os interesses da sociedade devem estar representados nos organismos de comunicação de massa”; 2. “É necessário que a imprensa dê uma ideia dos grupos que constituem a sociedade. Dizer a verdade a respeito de qualquer grupo social – sem excluir suas debilidades e vícios – inclui também reconhecer os seus valores, suas aspirações, seu caráter humano”.

As recomendações exaradas no relatório da Comissão sobre a ­Liberdade de Imprensa refletem o espírito do tempo nos Estados Unidos e na Europa Ocidental: a aposta no aperfeiçoamento dos processos de controle democrático sobre o Estado e sobre o poder privado. O trauma das duas Guerras Mundiais e da Grande Depressão saturou o ambiente intelectual dos anos 40 do século XX da rejeição aos totalitarismos, seja o despotismo do mercado descontrolado, seja o dos chefes providenciais.

O sociólogo Karl Mannheim, um pensador representativo de sua época, escreveu em 1950, no livro Liberdade, Poder e Planejamento Democrático: … “Não devemos restringir o nosso conceito de poder ao poder político. Trataremos do poder econômico e administrativo assim como do poder de persuasão que se manifesta através da religião, da educação e dos meios de comunicação de massa, tais como a imprensa, o cinema e a radiodifusão”. Mannheim dizia temer menos os governos, que podemos controlar e substituir, e muito mais os poderes privados que exercem sua influência no “interior” das sociedades modernas. Não é preciso ter lido Michel Foucault para suspeitar de truculências que não dizem o seu nome e são impiedosamente exercidas nas “malhas do poder”, tecidas em silêncio no interior das sociedades.

A liberdade de opinião e informação transformada em infalibilidade dos meios de comunicação revela o suave endurecimento dos métodos de controle social e político

O vírus da intolerância midiática se desenvolve rapidamente na estufa da autocomplacência, sob a forma perigosa e letal do silêncio cúmplice especializado na perseguição aos “inimigos”, na desqualificação e intimidação da opinião divergente, na prática do serial ­character assassination, no descumprimento do direito de resposta.

A liberdade de opinião e de informação transformada em (quase) infalibilidade da mídia revela o suave endurecimento dos métodos de controle social e político nas sociedades contemporâneas.

Mas não é sábio exagerar no pessimismo: nos próximos anos, a luta política vai decidir se as tecnologias de comunicação da terceira revolução industrial, a internet e a convergência dos meios, vão nos conduzir ao totalitarismo consentido, à moda de George Orwell, ou ao aperfeiçoamento democrático da ágora informatizada capaz de corrigir as distorções dos poderes que se escondem sob as máscaras da liberdade.

Quem manda mesmo não aparece em cena. Essa função estratégica da grande mídia foi fortalecida no regime militar e não sofreu qualquer percalço depois da chamada redemocratização. Pior: olham o passado como juízes do tribunal da história. São eles que decidem quem tem o poder de julgar e quem deve se sentar nos bancos dos réus.

A liberdade de imprensa só se justifica enquanto realização da liberdade de expressão dos cidadãos livres e iguais, os legítimos titulares do sagrado e inviolável direito à opinião livre e desimpedida. •

Publicado na edição n° 1435 de CartaCapital, em 21 de outubro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A mídia sufoca a liberdade’


Luiz Gonzaga Belluzzo

Economista e professor, consultor editorial de CartaCapital.

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Fonte: Carta Capital

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