Leonardo Trevisan : “Trump não pode empurrar o Brasil para o confronto”
Por Dafne Ashton — Brasil 247
247 – O Brasil deve evitar uma escalada no confronto com os Estados Unidos e responder às pressões do governo de Donald Trump reforçando sua autonomia diplomática e suas relações com outros centros de poder. A avaliação é do professor e cientista político Leonardo Trevisan, que, em entrevista ao Boa Noite 247, analisou as manifestações recentes de Washington sobre o Brasil e o caminho que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode adotar na Assembleia Geral das Nações Unidas.
“Deixa a turma do Marco Rubio gritar o suficiente”, afirmou Trevisan ao defender que o governo brasileiro não transforme as declarações vindas de Washington em um confronto permanente. Para ele, a resposta deve combinar defesa da soberania com cautela diplomática, evitando alimentar uma escalada que possa comprometer as relações entre os dois países.
A análise ocorre às vésperas da participação de Lula na Assembleia Geral da ONU, em Nova York. Segundo informações divulgadas pelo Brasil 247, a expectativa é que o presidente trate de soberania, multilateralismo e interferência estrangeira em seu pronunciamento, além de temas como conflitos internacionais, mudanças climáticas e direitos humanos.
Trevisan relacionou a pressão norte-americana à atuação de setores do governo Trump, em particular do secretário de Estado, Marco Rubio. Na avaliação do professor, determinadas manifestações de Washington sobre o Brasil devem ser compreendidas mais como resultado de uma disputa política dentro da administração norte-americana do que como indicação de uma ação concreta contra o país.
Ao comentar uma manifestação dos Estados Unidos envolvendo o combate ao crime organizado em diferentes países, Trevisan afirmou que a referência ao Brasil aparece, em sua leitura, sem uma definição precisa das medidas que poderiam ser tomadas. “É muito mais uma visão específica dentro do Departamento de Estado do que uma realidade efetiva de uma possível invasão”, disse.
O professor evitou, porém, descartar completamente a possibilidade de novas medidas norte-americanas. Para ele, não é possível garantir quais decisões Washington poderá adotar, sobretudo em um período marcado pela disputa eleitoral brasileira. Sua avaliação é que uma escalada teria consequências para a relação bilateral caso Lula conquiste um novo mandato.
É nesse ponto que Trevisan identifica a aproximação entre Brasil e China como um elemento da estratégia diplomática brasileira. Ele chamou atenção para a viagem do assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, Celso Amorim, a Pequim e para seu encontro com o chanceler chinês, Wang Yi. Segundo o professor, o aprofundamento dessa relação transmite aos Estados Unidos a mensagem de que o Brasil dispõe de alternativas para suas relações econômicas e internacionais.
“Se vocês ficarem tratando a gente muito mal, nós temos outro freguês, nós temos com quem nos aproximar”, resumiu Trevisan ao explicar o significado político que atribui ao movimento.
Na avaliação do cientista político, essa possibilidade também funciona como fator de contenção sobre Washington porque uma parcela do empresariado norte-americano não teria interesse em assistir a uma aproximação ainda maior entre Brasil e China. Dessa forma, a diversificação das relações internacionais ampliaria a margem de negociação brasileira sem exigir o rompimento com os Estados Unidos.
Esse raciocínio, segundo Trevisan, pode aparecer no discurso de Lula na ONU. Em vez de uma resposta baseada no confronto direto, o presidente poderia reafirmar que o país possui compromissos internacionais e alternativas econômicas e diplomáticas.
“Nós temos alternativas. Não adianta vocês, de alguma forma, pressionarem, porque nós temos compromissos com o multilateralismo, nós temos compromissos com a ONU, nós temos compromissos principalmente com a liberdade comercial”, afirmou.
A defesa do multilateralismo também permite ao Brasil apresentar a questão da soberania como um princípio de sua política externa, e não apenas como uma resposta circunstancial ao governo Trump. Em discurso anterior na Assembleia Geral, Lula já havia associado soberania ao direito dos Estados de legislar, julgar conflitos e fazer cumprir suas normas dentro do próprio território.
Ao mesmo tempo, Brasília procura preservar canais de negociação com Washington. Brasil e Estados Unidos retomaram formalmente o diálogo comercial no fim de agosto, após conversas entre Lula e Trump, segundo nota conjunta dos ministérios das Relações Exteriores e do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
Trevisan considera que essa combinação entre diálogo e diversificação de parceiros deve orientar a resposta brasileira. “Para o Brasil não convém que a gente se apresente numa área de confronto, principalmente com um governo tão imprevisível quanto o de Trump”, afirmou.
Para o professor, manifestações mais duras de integrantes da administração norte-americana também devem ser analisadas levando em conta a política interna dos Estados Unidos. Em sua avaliação, discursos de confronto cumprem uma função diante da base eleitoral de Trump, razão pela qual uma reação brasileira destinada a responder a cada declaração poderia contribuir para ampliar sua repercussão.
Trevisan também considera possível que as pressões aumentem durante a reta final da eleição brasileira. Ele mencionou episódios recentes em outros países latino-americanos para sustentar que movimentos externos em períodos eleitorais não constituem uma novidade na região. Ainda assim, sua recomendação é que o Brasil mantenha a linha adotada até agora: defesa da soberania sem converter cada declaração de Washington em uma crise bilateral.
O próprio Lula afirmou nesta semana ter pedido diretamente a Trump que não interfira nas eleições brasileiras e que não questione o sistema de votação do país.
Para Trevisan, portanto, a resposta às pressões não passa por reproduzir o tom dos setores mais confrontantes do governo norte-americano. O instrumento brasileiro estaria na capacidade de manter relações com Washington enquanto amplia suas opções comerciais e diplomáticas e reafirma o princípio de que decisões internas pertencem ao país.
“Deixa eles latirem”, concluiu o professor.
Fonte: Brasil 247