José Luis Oreiro destrincha plano de Flávio Bolsonaro: terra arrasada contra os mais pobres e entrega de patrimônio público

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Por Redação Brasil 247 — Brasil 247

247 – O projeto econômico que a candidatura de Flávio Bolsonaro tenta ocultar do debate público no segundo turno representa a retomada e o aprofundamento do choque ultraliberal desenhado no fim do governo de Jair Bolsonaro. A avaliação é do professor titular de Economia da Universidade de Brasília (UnB), José Luís Oreiro, em entrevista concedida ao jornalista Joaquim de Carvalho na TV 247.

Membro da equipe de transição do Ministério do Planejamento no final de 2022, Oreiro revelou ter visto em relatórios oficiais deixados pela equipe de Paulo Guedes a cartilha exata que hoje orienta os conselheiros econômicos de Flávio Bolsonaro, como Daniela Marques e o ex-ministro Adolfo Sachsida: o desmonte das despesas obrigatórias do Estado, a entrega de empresas estratégicas e a asfixia do poder de compra das camadas mais vulneráveis.

A conta que não fecha: quem pagará os R$ 200 bilhões prometidos ao mercado?

O economista chamou a atenção para o que classificou como uma “mentira matemática deliberada”. Flávio Bolsonaro tem acenado aos empresários com um corte de gastos na ordem de R$ 200 bilhões (cerca de 1,5% do PIB) ao mesmo tempo em que promete redução generalizada de tributos:

“Se ele promete para o mercado que vai cortar R$ 200 bilhões, diz para os empresários que vai reduzir impostos e mente para o povo dizendo que não vai mexer em gastos sociais, de onde vem esse dinheiro? Como bem questionou Celso Rocha de Barros na revista Piauí: para quem o Bolsonaro está mentindo? Não tem mágica: se ele cortar essa cifra reduzindo imposto, o ajuste só pode vir no lombo do trabalhador e do pensionista.”

Oreiro explicou que o cerne desse projeto se baseia na doutrina dos “três Ds” herdada de Paulo Guedes: desindexação, desvinculação e desobrigação.

Na prática, isso significa:

  1. Fim do reajuste do salário mínimo com ganho real: Congelar o poder de compra da base salarial.
  2. Desvinculação das aposentadorias e do BPC: Separar o reajuste dos benefícios previdenciários e do Benefício de Prestação Continuada do salário mínimo. Sem garantia constitucional de reajuste pela inflação, as aposentadorias sofreriam corrosão imediata — nos mesmos moldes do congelamento imposto aos servidores federais na gestão passada, que acumulou perdas de quase 25% em quatro anos.
  3. Fim dos pisos de Saúde e Educação: Eliminar a obrigatoriedade constitucional de investimentos mínimos nessas duas áreas essenciais.

Segundo o professor, a aplicação dessas medidas recolocaria milhões de idosos e pensionistas — hoje amparados pelo mínimo e por programas como o Farmácia Popular — abaixo da linha da miséria, reproduzindo no Brasil o colapso social vivido no Chile pós-ditadura ou a explosão da pobreza urbana provocada pelas medidas de choque de Javier Milei na Argentina.

Venda da Petrobras: “Burrice financeira ou interesses inconfessáveis”

Ao comentar a defesa pública feita por aliados da campanha bolsonarista sobre a privatização imediata da Petrobras, Oreiro rebateu os argumentos com dados contábeis elementares:

  • Incoerência financeira: A Petrobras opera com um retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) superior a 20%, pagando volumes bilionários de dividendos ao seu maior acionista, a União. Já o custo médio da dívida pública brasileira (sua taxa de juros implícita) gira em torno de 12% ao ano.
  • Lógica empresarial elementar: “Vender um ativo estatal rentável que rende 20% para abater uma dívida que custa 12% é de uma burrice financeira monumental. Qualquer gestor empresarial sabe que, se você se financia a 12% e aplica em algo que rende 20%, o correto é investir mais nesse ativo, não se desfazer dele”, cravou.

Para o economista, por trás da justificativa fiscal residem apenas o fundamentalismo ideológico e o interesse do setor financeiro: “Bancos de investimento faturam centenas de milhões de reais em comissões para estruturar essas privatizações, enquanto operadores e políticos são remunerados com consultorias e palestras pelo ‘serviço prestado ao deus mercado’”.

A mesma crítica foi estendida à retórica de privatização dos Correios e à infame proposta de flexibilização de praias e terrenos de marinha, que ele classificou como a transformação do Estado em um “grande balcão de negócios imobiliário e corporativo”, sem qualquer relação técnica com o desenvolvimento de cadeias turísticas de massa.

O verdadeiro ralo fiscal: os juros e a meta de inflação irrealista

Questionado sobre qual deveria ser o caminho econômico para um novo mandato do presidente Lula, Oreiro foi enfático ao afirmar que a raiz do desequilíbrio das contas públicas nacionais não está nas políticas sociais nem no resultado primário, mas na política monetária do Banco Central.

O economista lembrou que, para um déficit fiscal projetado em torno de R$ 1,2 trilhão, o déficit primário responde por cerca de R$ 100 bilhões, enquanto mais de R$ 1,1 trilhão é integralmente drenado pelo pagamento do serviço da dívida pública aos rentistas:

  • Taxa de juros descolada da realidade: Com os títulos do Tesouro dos EUA em 4,5% a 5% e o prêmio de risco-país (CDS/EMBI+) oscilando historicamente entre 200 e 300 pontos-base, a taxa Selic justa no Brasil deveria oscilar entre 8% e 10% — e não permanecer estacionada em patamares estranguladores de dois dígitos.
  • Mudança no Conselho Monetário Nacional (CMN): Oreiro defendeu que o governo altere a meta oficial de inflação dos inalcançáveis 3% para patamares realistas (como 4,5%), o que de imediato abriria espaço técnico para um corte de até 300 pontos na Selic — gerando uma economia direta de R$ 200 bilhões anuais em pagamento de juros.

Por que a Faria Lima apoia Flávio Bolsonaro?

Para o professor da UnB, o alinhamento de parte hegemônica do mercado financeiro e de colunistas da mídia corporativa com a cartilha da extrema direita decorre de uma estratégia deliberada de poder e especulação:

“O controle da narrativa econômica permite a eles forçar a política pública em uma única direção previsível. Quando você dita a narrativa e sabe exatamente o que vai acontecer com as taxas de juros e os preços dos ativos, você monta posições bilionárias sem correr riscos. Eles não são observadores neutros: ganham dinheiro em cima do estrangulamento do orçamento público.”

Oreiro concluiu destacando que a eleição de Lula é o único caminho para assegurar a preservação de direitos elementares, a recuperação do poder aquisitivo do salário e a retomada dos investimentos em infraestrutura e soberania nacional.

A íntegra da entrevista com o professor José Luís Oreiro está disponível no canal da TV 247: Assista no YouTube.

Fonte: Brasil 247

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