Fim da escala 6×1 pode elevar produtividade e melhorar qualidade de vida, apontam estudos
Por Aquiles Lins — Brasil 247
247 – A redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, com a substituição da escala 6×1 pelo modelo 5×2, pode melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores e contribuir para o aumento da produtividade das empresas. Estudos nacionais e internacionais indicam que jornadas menores não provocam necessariamente perdas econômicas e podem favorecer o desempenho profissional.
Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, publicada nesta sexta-feira (16), pesquisas da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) apresentam evidências favoráveis à mudança, prevista na Emenda Constitucional 141, promulgada nesta sexta-feira (16), que estabelece a jornada de 40 horas semanais, com dois dias de descanso e sem redução salarial.
Um levantamento da OIT identificou que sete em cada dez países que reduziram a carga horária ou adotaram jornadas flexíveis registraram aumento de produtividade. Na Inglaterra, uma experiência envolvendo 70 empresas que testaram a semana de quatro dias, com 36 horas de trabalho, mostrou que 49% tiveram ganhos de produtividade e 46% mantiveram o desempenho anterior.
Unicamp aponta condições econômicas para redução da jornada
Pesquisadores do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit), da Unicamp, também consideram economicamente viável a adoção da escala 5×2 no Brasil. O estudo, elaborado por Isadora Scheide Muller e Cássio da Silva Calvete, destaca que a produtividade do trabalho cresceu 12% entre 2012 e 2024, período em que a economia brasileira acumulou expansão de 25%.
Para os especialistas, esses resultados oferecem condições para que parte dos ganhos econômicos seja convertida em mais tempo livre, sem comprometer significativamente a atividade produtiva.
“O aumento da produtividade gera um excedente de valor por hora trabalhada que pode ser distribuído aos trabalhadores na forma de mais tempo livre. No Brasil, a produtividade do trabalho cresceu 12% entre 2012 e 2024, valor que se soma a expressivos ganhos acumulados desde 1988 impulsionados pelas inovações das 3ª e 4ª Revoluções Industriais, como automação, robótica e inteligência artificial”, afirma o documento.
Os pesquisadores também destacam que o custo horário do trabalho no Brasil é inferior ao de outros países. Em 2020, o valor brasileiro era de US$ 6,31 por hora, enquanto no Chile chegava a US$ 13,65 em 2022. Essa diferença é apontada como um dos fatores que podem facilitar a adaptação das empresas à nova jornada.
Pesquisa mostra apoio de 92% dos trabalhadores
A mudança também encontra amplo respaldo entre os profissionais. Levantamento realizado pela fintech Meutudo, em março, com 6 mil entrevistados, mostrou que 92% das pessoas que trabalham ou já trabalharam na escala 6×1 acreditam que sua extinção melhorará a qualidade de vida.
Entre os trabalhadores submetidos à jornada, 51% apontaram a falta de tempo para descansar como principal dificuldade. Outros 22% mencionaram problemas para conciliar trabalho e vida pessoal, enquanto o mesmo percentual destacou o cansaço físico ou mental.
Os efeitos da jornada prolongada aparecem nos relatos de profissionais ouvidos pela Folha. Reginaldo Lopes, de 45 anos, trabalha de segunda-feira a sábado e enfrenta quatro horas diárias de deslocamento. Com a mudança, espera acompanhar mais de perto a rotina do filho.
A ex-trabalhadora do comércio Adriana Alves, de 55 anos, que passou aproximadamente três décadas na escala 6×1, relatou os impactos da jornada sobre sua vida familiar.
“Sofri muito com a escala 6×1 e sei como é difícil. Quando tive minha segunda gravidez, voltei de licença-maternidade para trabalhar em um shopping de domingo a domingo. Eu não vi meu filho crescer. Eu mal folgava uma vez por mês”, afirmou.
Empresas também esperam ganhos de produtividade
A expectativa de melhora no desempenho profissional é compartilhada por empregadores. Marcelo Pereira da Silva, de 53 anos, proprietário de uma farmácia, considera suficiente o prazo de 60 dias para adaptação à nova jornada e acredita que funcionários mais descansados poderão produzir mais.
A gerente de uma lanchonete Letícia Amaral, de 26 anos, também avalia que a redução da carga horária poderá aumentar a disposição das equipes. Segundo ela, a empresa já se comprometeu a reorganizar os horários sem diminuir os salários.
Embora parte dos trabalhadores manifeste preocupação com possíveis impactos sobre comissões e rendimentos variáveis, os estudos da OIT e da Unicamp indicam que a redução da jornada pode ser acompanhada de ganhos de eficiência. Para os pesquisadores, o crescimento da produtividade acumulado nas últimas décadas oferece condições para que os benefícios do desenvolvimento econômico sejam compartilhados com os trabalhadores na forma de mais tempo livre.
Fonte: Brasil 247