‘Interculturalidade precisa ser um diálogo entre os sistemas de conhecimento’: primeiro Grande Debate do 10º CSHS aborda democracia, territórios e soberania dos povos
Por Ana Paula Cavalcanti — Combate Racismo Ambiental
Na Abrasco
Democracia, defesa dos territórios e soberania dos povos estiveram no centro do primeiro Grande Debate do 10º Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde (10º CSHS), realizado nesta quinta-feira (17), às 16h50, no Auditório Central Eulalio Chaves, na Universidade Federal do Amazonas (UFAM), em Manaus (AM). Com o tema “Democracia e salvaguarda dos territórios no Brasil: desafios em tempos de crises globais e ataques à soberania dos povos”, a atividade reuniu diferentes perspectivas sobre os conflitos e desafios que atravessam os territórios brasileiros e suas relações com a democracia, a saúde e os modos de vida das populações.
Coordenado pela presidente da Comissão Científica do 10º CSHS, Marta Verdi, o Grande Debate contou com a participação de Sonia Fleury (CEE/Fiocruz), Jozileia Kaingang (UFSC) e do presidente do Congresso, Henrique Saldanha, como debatedores. A atividade também reservou um momento para homenagear as sanitaristas Inara Nascimento, Maria Inês Barbosa, Sandra Caponi e Maria Lúcia Magalhães Bosi, em reconhecimento às suas trajetórias e contribuições para o campo da Saúde Coletiva e das Ciências Sociais e Humanas em Saúde no Brasil.
A professora Marta Verdi iniciou a conversa ressaltando que o debate sobre democracia requer uma perspectiva ampliada. “Falar de democracia, neste momento histórico, exige, portanto, que a gente amplie nossos olhares de forma radical. Democracia não pode ser compreendida apenas como um regime político, o funcionamento das instituições ou o exercício do voto”, declarou.
Na sequência, Sonia Fleury fez suas considerações. De início, a professora trouxe uma explanação sobre o atual contexto político no Brasil e no mundo, considerando o enfraquecimento das organizações multilaterais, o crescimento do neoliberalismo e as ameaças à soberania brasileira. A pesquisadora destacou, ainda, que um dos caminhos para salvaguardar a democracia consiste justamente na construção de consensos e de uma agenda comum.
“A perspectiva de um Estado dialógico, capaz de ouvir a população, os saberes da população e entender como as pessoas enfrentam seu cotidiano. Buscar valores comuns – chamo isso de Estado pedagógico –, numa referência a Paulo Freire e Gramsci. É uma luta pela hegemonia”, ressaltou.
Em seguida, foi a vez da professora Jozileia Kaingang fazer sua apresentação. A pesquisadora celebrou a realização do primeiro congresso da Abrasco na Região Norte e trouxe diversas contribuições para ampliar o debate sobre democracia e saúde. Para Kaingang, no debate sobre saúde e direitos dos povos indígenas, o território é um conceito fundamental. A pesquisadora também destacou a necessidade de construir pontes entre os diferentes saberes a partir da interculturalidade.
“Pesquisa com povos indígenas e não sobre povos indígenas. Queremos ser sujeitos pesquisadores e pesquisar com vocês. […] Interculturalidade não pode ser apenas uma tradução dos nossos saberes para as categorias da biomedicina; ela precisa ser um diálogo entre os sistemas de conhecimento em condição de igualdade, na produção de ciências”, explicou.
Henrique Saldanha abordou os desafios contemporâneos para a defesa da democracia diante de um cenário global de avanço do autoritarismo e de enfraquecimento da confiança nas instituições democráticas. Ao trazer a discussão para o contexto brasileiro, o presidente do Congresso destacou que compreender e fortalecer a democracia exige considerar as profundas desigualdades sociais e raciais que marcam o país e enfrentar o que definiu como “tarefas inconclusas”. Nesse sentido, relacionou a defesa democrática à garantia de direitos, à demarcação de territórios e às políticas de ações afirmativas.
“O Estado brasileiro é marcado por desigualdades sociais e raciais muito fortes. Para pensar a democracia aqui, é preciso entender que temos tarefas inconclusas. Defender a democracia no Brasil é seguir defendendo a demarcação de territórios e políticas de ações afirmativas, porque, sim, a fotografia do poder importa.”
Com atividades até sábado (19), o 10º CSHS já reuniu mais de 1.700 pessoas na UFAM.
Assista à íntegra do Grande Debate:
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Fonte: Combate Racismo Ambiental