Grupo cofundado por JD Vance planejou atuar no Brasil com mídia, jovens e ação legislativa
Por Luis Mauro Filho — Brasil 247
247 – A Rockbridge Network planejou estruturar uma operação no Brasil com atuação em mídia, formação de jovens e atividade legislativa, segundo documentos obtidos pela Folha de S.Paulo. A rede conservadora foi cofundada por JD Vance, atual vice-presidente dos Estados Unidos, e pelo empresário Chris Buskirk. Vance ocupa a Vice-Presidência americana desde janeiro de 2025.
A apuração também identificou contatos de representantes do grupo com empresários e políticos brasileiros. Joesley Batista, da J&F, e André Esteves, do BTG, estiveram entre os empresários que tiveram contato com integrantes da rede, enquanto Flávio Bolsonaro (PL) e Romeu Zema (Novo), candidatos à Presidência, também conheceram membros da organização. Os quatro não comentaram o assunto ao jornal. As candidaturas de Bolsonaro e Zema estão registradas e foram validadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
A Rockbridge, porém, afirma que a iniciativa brasileira não avançou. Em nota reproduzida pela Folha, a organização disse que chegou a criar uma entidade jurídica diante do interesse apresentado por brasileiros, mas sustentou que o projeto acabou rejeitado, não recebeu recursos e jamais entrou em funcionamento.
Os documentos aos quais a reportagem teve acesso detalhavam inclusive modalidades para ingresso na estrutura. Uma categoria denominada Keystone previa contribuição anual de US$ 500 mil, enquanto a Visionary estabelecia US$ 1 milhão. Os valores poderiam ser transferidos em dólar, criptomoedas, ações ou por estruturas corporativas e trusts, segundo o material. O destinatário indicado era a Rockbridge Brazil LLC, empresa criada nos Estados Unidos.
A categoria de maior valor previa participação em um conselho estratégico, além de acesso a reuniões fechadas e encontros com doadores e políticos internacionais. Outro documento apresentava a eventual operação brasileira como uma estrutura destinada a financiar iniciativas ligadas à infraestrutura política e social do país.
O desenho descrito no material dividia a atuação em três eixos. Na área de mídia, a proposta era apoiar e organizar veículos conservadores. Na formação de jovens, previa financiamento a movimentos em ambientes acadêmicos. Na frente legislativa, a intenção descrita era fornecer dados e pesquisas a parlamentares de direita. A definição das iniciativas seria atribuída a grupos temáticos formados por cidadãos e empresas.
Outro documento, chamado “Conselho de Tecnologia — O Atalho para a Prosperidade e Soberania Nacional”, tratava de um eventual alinhamento de empresários brasileiros aos Estados Unidos na disputa tecnológica com a China. Datado de abril, o material tinha como destinatário Flávio Bolsonaro, então pré-candidato à Presidência.
O plano estimava que a iniciativa poderia produzir impacto econômico superior a US$ 100 bilhões em dez anos, considerando investimentos e ganhos de produtividade, e projetava mais de 500 mil empregos e avanços em 12 setores ligados, entre outras áreas, a tecnologia, energia e mineração. Os números constavam da proposta e não significam investimentos efetivamente contratados ou realizados.
O conselho sugerido teria 23 integrantes, dos quais 19 seriam estrangeiros. Os quatro brasileiros mencionados eram Talles Gomes, da G4 Educação; Mario Araripe, fundador da Casa dos Ventos; David Peixoto, fundador da Pax AI; e Pedro Sang, apresentado no documento como CEO da Rockbridge Brasil.
A Pax AI afirmou que Peixoto não recebeu convite para integrar o conselho, nunca participou de iniciativa vinculada à Rockbridge Network Brasil e não autorizou a associação de seu nome ao projeto. Sang também negou ter ocupado papel formal na organização e disse que se interessou inicialmente pela possibilidade de aproximar investidores e empresários de tecnologia. Segundo ele, “A iniciativa, no entanto, está suspensa desde maio”. Talles Gomes declarou que o conselho de tecnologia “foi apenas uma proposta que ficou no papel: nunca foi constituído, nem se reuniu.”
A Rockbridge rejeitou a interpretação de que planejava participar da política brasileira. “A iniciativa não prosseguiu, e a empresa nunca recebeu recursos, entrou em operação ou foi utilizada para qualquer atividade empresarial”, afirmou a organização. A assessoria também declarou que “nunca foi cogitada a participação em política” e sustentou que a proposta discutida era a formação de um fórum empresarial.
A entidade afirmou ainda que brasileiros produziram documentos e fizeram declarações sobre relações com a Rockbridge sem conhecimento ou autorização da organização. André Marinho, apontado pela nota como responsável por uma apresentação independente, disse à Folha que o projeto não avançou, mas negou ter elaborado os documentos que fixavam metas de atuação e condições para adesão.
“Reitero que este material jamais foi enviado nem apresentado por mim à campanha do Flávio Bolsonaro, a autoridades ou organizações americanas nem foi objeto de qualquer reunião ou tratativa”, afirmou Marinho. Flávio Bolsonaro também declarou que não integra a Rockbridge e que não pretende se associar à organização.
A atuação do grupo passou ao centro da disputa eleitoral depois que o candidato à Presidência Renan Santos (Missão) afirmou que integrantes ligados à Rockbridge estariam apoiando a campanha de Flávio Bolsonaro e relacionou Talles Gomes e Pedro Sang a interesses sobre terras raras brasileiras. Gomes e Sang negam as acusações. A candidatura de Renan foi validada pelo TSE em setembro.
“A Rockbridge é uma iniciativa eleitoral norte-americana com o objetivo bem claro de eleger pessoas alinhadas ideologicamente com eles e fazer negócios. O interesse deles aqui vai passar por dinheiro e por uso de tecnologia na campanha —é o que eles fazem em todos os lugares”, disse Renan à Folha. A declaração representa a avaliação do candidato e é contestada pelos envolvidos.
Talles Gomes apresentou no dia 11 uma notícia-crime contra Renan por calúnia, difamação e injúria eleitoral. “Nunca houve, por meu intermédio ou com meu conhecimento, qualquer recurso estrangeiro destinado a campanha eleitoral no Brasil, direta ou indiretamente”, afirmou.
A controvérsia também chegou ao Supremo Tribunal Federal. O deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) pediu apuração sobre eventual entrada direta ou indireta de recursos estrangeiros na campanha de Flávio Bolsonaro. Na quarta-feira (23), o PT protocolou outro pedido no STF para que seja investigada a hipótese de financiamento ilegal. Os pedidos tratam de suspeitas a serem apuradas e, conforme o material disponível, não constituem comprovação de repasse de recursos estrangeiros.
Fonte: Brasil 247