Flávio Serafini: “Estamos em meio a um tsunami fascista”

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Por Dafne Ashton — Brasil 247

247 – O deputado estadual Flávio Serafini (PSOL-RJ) afirmou que o resultado das eleições expôs uma força do bolsonarismo no Rio de Janeiro maior do que a esquerda havia conseguido dimensionar durante a campanha. Reeleito para a Assembleia Legislativa, ele definiu o cenário aberto pelas urnas como um “tsunami fascista” e sustentou que a prioridade do campo democrático no segundo turno deve ser a eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Em entrevista ao Bom Dia 247, da TV 247, Serafini disse ter recebido sua própria reeleição com sentimentos contraditórios diante do quadro nacional e fluminense. “Fiquei feliz com a reeleição. Ao mesmo tempo, muito preocupado, angustiado com o que aconteceu no Brasil e também aqui no Rio de Janeiro. A sensação é que a gente está no meio de um tsunami conservador, um tsunami fascista”, afirmou.

Para o parlamentar, um dos principais sinais desse movimento foi o desempenho de Douglas Ruas na disputa pelo governo do Rio. Serafini afirmou que já esperava um crescimento do candidato bolsonarista, mas considerava que as denúncias e investigações envolvendo integrantes do atual grupo político que governa o estado limitariam sua capacidade de avançar sobre outros setores da direita.

Essa barreira, segundo ele, não se confirmou nas urnas. “O bolsonarismo aqui no Rio de Janeiro é maior ainda do que a gente imaginou que fosse. Ao redor de 40%, ele se aproxima aí de 50% do eleitorado”, disse. Para Serafini, o resultado indica que o bolsonarismo conseguiu manter sua base e, ao mesmo tempo, dirigir politicamente parcelas mais amplas do eleitorado conservador.

Na avaliação do deputado, essa capacidade de mobilização ocorre mesmo diante de denúncias envolvendo lideranças do campo bolsonarista. Ele considera que parte desse eleitorado passou a organizar sua decisão principalmente pela rejeição a Lula e ao PT, reduzindo o peso de outros elementos na escolha eleitoral. “Ele quer derrotar o Lula, ele quer derrotar o PT”, resumiu Serafini ao analisar o comportamento desse segmento.

Serafini também relacionou o resultado eleitoral às limitações do atual governo Lula. Na avaliação dele, a reconstrução de políticas públicas e a retomada da estabilidade depois do governo Bolsonaro não produziram transformações econômicas suficientes para consolidar uma maioria política comparável à alcançada em outros períodos dos governos petistas.

“O que o governo conseguiu entregar não foi suficiente, a princípio, para a gente consolidar uma maioria, como foi em 2022”, afirmou. O deputado citou a política de valorização do salário mínimo e a retomada do Bolsa Família como exemplos de medidas que recuperaram instrumentos de governos anteriores, mas que, segundo sua análise, não foram suficientes para alterar de maneira mais profunda as condições materiais de parcelas da população.

Para Serafini, esse problema não pode ser compreendido apenas pela dinâmica brasileira. Ele relacionou o avanço da extrema direita à deterioração das condições de vida de setores da classe trabalhadora em diferentes países e citou o crescimento de forças desse campo nos Estados Unidos e na Europa como parte de um processo internacional.

No Rio, porém, o deputado identifica componentes específicos que ampliam a gravidade do cenário. Um deles é o controle territorial exercido por grupos armados. Durante a entrevista, foram mencionadas denúncias de pressão sobre eleitores em áreas da capital. Serafini afirmou não ser possível, neste momento, calcular o impacto dessas ocorrências sobre o resultado eleitoral, mas disse que a democracia fluminense é condicionada por estruturas que impedem campanhas de circular livremente em determinados territórios.

“A democracia no estado do Rio de Janeiro hoje é condicionada por uma lógica de controle territorial que é brutal”, afirmou. Segundo ele, existem regiões onde campanhas não conseguem entrar devido à presença de milícias ou do tráfico de drogas, situação que interfere de forma recorrente na dinâmica eleitoral do estado.

Serafini afirmou ainda que o problema precisa ser traduzido para o debate nacional de maneira que eleitores de outros estados compreendam o funcionamento dessas estruturas. Para o deputado, tratar apenas de “milícias” pode não transmitir a dimensão do fenômeno a quem não convive com essa realidade. Ele defendeu que a campanha apresente de maneira direta as relações políticas que considera existentes entre integrantes do bolsonarismo e grupos de extermínio.

Na análise do parlamentar, estruturas de controle territorial também podem produzir consentimento político por meio da coerção. “Ditaduras muitas vezes conseguem produzir maiorias porque produzem um consentimento através da força”, afirmou, argumentando que, embora o Rio não viva uma situação de supressão formal do direito ao voto, existem territórios nos quais as condições para o livre debate político são limitadas.

Diante desse cenário, Serafini considera que o segundo turno precisa marcar uma mudança na estratégia do campo progressista. Para ele, a campanha não pode se limitar à defesa das realizações do governo e deve confrontar politicamente o bolsonarismo.

“A grande correção de rota que a gente tem que fazer agora é ir para cima do bolsonarismo”, afirmou. O objetivo, segundo ele, deve ser mostrar ao eleitorado nacional o que representa a experiência política acumulada no Rio de Janeiro e impedir que relações consideradas naturalizadas no estado sejam reproduzidas em escala nacional.

Nesse quadro, Serafini colocou a eleição presidencial acima das demais disputas. O deputado avaliou que o avanço da direita no Senado aumenta o peso da Presidência da República para a manutenção do equilíbrio institucional e para a composição futura do Supremo Tribunal Federal.

“A nossa tarefa histórica de agora no Rio de Janeiro e no Brasil tem nome e sobrenome: é Luiz Inácio Lula da Silva, a representação da democracia”, afirmou. Mais adiante, reforçou: “A questão central é a vitória do Lula”.

Para Serafini, o resultado do primeiro turno mostrou que Lula alcançou uma votação próxima da indicada pelas pesquisas, enquanto Flávio Bolsonaro apresentou desempenho superior ao esperado. É essa diferença, segundo ele, que obriga a esquerda a rever sua leitura sobre a capacidade de mobilização da extrema direita.

A disputa do segundo turno, portanto, não seria apenas pela transferência dos votos dados aos demais candidatos. Na avaliação do deputado, será necessário disputar parte do eleitorado que aderiu ao bolsonarismo no primeiro turno e transformar a eleição em um confronto político sobre os projetos em disputa no país.

“Temos que ter capacidade nesse segundo turno de incidir nesse debate”, afirmou Serafini. Para ele, depois de uma eleição que revelou uma capacidade de coesão da direita maior do que a esperada, a tarefa imediata do campo democrático é impedir que o que chamou de “tsunami fascista” resulte na conquista da Presidência da República.

Fonte: Brasil 247

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