Firmas não reconhecidas
Por Allan Ravagnani — Carta Capital
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Credores apontam parentes de Michel Roriz como donos de fachada de empresa ligada a hospitais públicos
Roriz é sobrenome de peso na política do Centro-Oeste, ligado à família que já comandou o Distrito Federal e que segue presente em mandatos e cargos pela região. Michel Roriz Clemente, farmacêutico, carrega esse nome desde a primeira candidatura, em 2010, e disputou quatro eleições sem nunca vencer um cargo majoritário, deputado estadual em 2010 e 2012, deputado federal em 2022 e vice-prefeito em Anápolis, em 2024. Chegou a presidir o partido Cidadania em Goiás e a ocupar a direção de uma pasta na Secretaria de Saúde de Anápolis. É um nome que abre porta em audiência pública, em reunião de partido, em corredor de hospital. É também um nome que, segundo uma ação em curso na Justiça de São Paulo, nunca aparece nos papéis das empresas que vendem milhões em material hospitalar a instituições públicas, apesar de ser dele o rosto a negociar com clientes.
A Vale dos Pireneus Comércio de Produtos e Serviços Hospitalares foi executada por uma dívida de 5,7 milhões de reais decorrente de contrato de cessão de direitos creditórios firmado em fevereiro de 2025. Pelo acordo, a empresa cedia a fundos de investimento, de forma antecipada, o direito de receber duplicatas emitidas contra hospitais, como o Albert Einstein, por meio da unidade Hugo em Goiânia, o Imed e a Fundação Universitária Evangélica de Anápolis, obtendo o dinheiro à vista e assumindo o compromisso de cobrir eventuais calotes desses hospitais. Quando parte das duplicatas deixou de ser paga, os fundos cobraram da própria Vale dos Pireneus e de seu avalista pessoal, o médico Arthur Lanna Appelt, que também assinou o contrato como garantidor solidário. Diante do não pagamento, pediram a execução, obtiveram o bloqueio das contas da empresa e, a partir daí, encontraram algo que não esperavam.
Michel Roriz negociou com hospitais públicos em nome de empresa que tem seu ex-cunhado como sócio – Imagem: Redes Sociais
O único sócio da Vale dos Pireneus, no papel, não é Roriz. É Rui Reis Alves Júnior, seu ex-cunhado, que nunca deixou o emprego de supervisor de logística de uma transportadora de Uberlândia, onde diz trabalhar desde 2015, segundo depoimentos que ele próprio prestou em ao menos três reclamações trabalhistas distintas, movidas contra a transportadora em Pernambuco e na Bahia entre 2018 e 2023. Em uma delas, arrolado como testemunha da própria empregadora, afirmou exercer a função de fiscal e ter sido, antes, motorista carreteiro. É esse mesmo nome, o de um funcionário assalariado de transportadora, que assina desde 2022 os contratos de uma companhia que movimenta cifras milionárias e negocia diretamente com hospitais públicos.
A dívida em si já não tramita de forma tranquila. Parte dela foi cedida ao fundo Fidussia, mas uma liminar em ação distinta, movida por outro fundo, suspendeu deliberações internas do Fidussia e as transferências de ativos decorrentes delas, levando a defesa da Vale dos Pireneus a questionar se os credores detêm de fato o crédito executado. A juíza manteve apenas o Fidussia no polo ativo e aguarda o desfecho dessa disputa paralela, sem que isso tenha revertido o bloqueio patrimonial.
Imagem: Universidade de Chicago
Um advogado dos credores descreveu à reportagem uma dinâmica que se repetiria toda vez que uma dessas operações fosse cobrada, sempre com Roriz por trás dela. Segundo ele, a companhia nasce em nome de um parente ou pessoa de confiança, sem qualquer vínculo público com o político, ganha faturamento expressivo e, por isso, passa a ter acesso a crédito no mercado. É nesse momento, afirma o advogado, que a empresa contrai dívidas maiores do que consegue sustentar. Endividada, deixa de pagar, os contratos mais rentáveis migram para uma segunda empresa, recém-criada, geralmente em nome de outro parente, e a primeira permanece apenas para responder pelas dívidas que já não interessam a ninguém. Foi o que teria ocorrido em dezembro de 2023, quando surgiu a Sou Gestão Empresarial e Consultoria (Sougemp) ,registrada não mais no nome do ex-cunhado, mas no nome da irmã de Roriz, Aline Roriz Clemente, pedagoga de formação, que até pouco tempo constava como funcionária, com carteira assinada, da própria Vale dos Pireneus, ganhando salário mensal de 3 mil reais.
Levantamento cadastral mostra que 9 das 12 atividades secundárias da Sougemp coincidem com as da antecessora, entre elas o comércio atacadista de instrumentos e materiais hospitalares. O endereço da nova empresa, em Anápolis, é o mesmo declarado por Michel Roriz como sua residência ao TSE, o único ponto em que seu nome e o das empresas se cruzam num documento público.
A empresa contrai dívidas maiores do que consegue sustentar, então migra os contratos para uma segunda empresa
Documentos do processo mostram ainda que ao menos quatro trabalhadores listados como freelancers na folha da Vale dos Pireneus aparecem em holerites individuais como funcionários registrados da Sougemp, na mesma competência de janeiro de 2026. Há também um contrato de terceirização de mão de obra entre as duas empresas e uma sequência de movimentações que os credores consideram, no mínimo, coincidentes. Em 28 de janeiro daquele ano, a Vale dos Pireneus transferiu 11.488,45 reais à Sougemp. Em 9 de fevereiro, no mesmo dia que a Justiça manteve o bloqueio das contas da empresa executada, a Sougemp emitiu uma nota fiscal de 65.991,75 reais contra a Vale dos Pireneus, quase dez vezes o valor fixo de 6,8 mil reais previsto em contrato para o mesmo tipo de serviço.
A defesa da empresa apresentou ao mesmo processo, no mesmo dia, uma explicação distinta para essas notas fiscais. Segundo petição assinada pela advogada Priscila Rosa Vieira Roriz, esposa de Michel Roriz e responsável pela defesa da Vale dos Pireneus, os valores pagos à Sougemp correspondem a serviços regulares de terceirização e o bloqueio comprometeria salários já vencidos e o fornecimento de insumos à cadeia hospitalar. A juíza da 37ª Vara Cível de São Paulo, Adriana Cardoso dos Reis, negou o pedido de liberação dos valores, por entender que a empresa não comprovou que a constrição inviabilizasse sua atividade. Um recurso obteve apenas efeito suspensivo parcial e o bloqueio segue mantido.
Imagem: Redes Sociais
O próprio advogado dos credores reconhece os limites de sua tese diante de eventual crime. Não há, no Brasil, tipificação penal específica para quem transfere patrimônio entre empresas para escapar de dívidas, afirma. Sobre a venda de produtos a hospitais públicos em condições vantajosas por conta da proximidade de Roriz com a saúde de Anápolis, diz suspeitar, mas admite não ter dados que comprovem a hipótese. Roriz não figura, até o momento, como parte no processo de execução movido pelos fundos credores em São Paulo, tampouco é mencionado nos autos desse feito como sócio, administrador ou responsável por qualquer das duas empresas. A tese de que ele seria o beneficiário de fato da estrutura consta de um incidente de desconsideração de personalidade jurídica preparado pelos advogados dos credores, ainda não localizado com número de distribuição própria.
Não há no Brasil tipificação penal específica para quem transfere patrimônio entre empresas para escapar de dívidas, diz advogado
Procurado, Michel Roriz negou qualquer relação com a administração ou os negócios das duas empresas, negou ser sócio, proprietário ou devedor de valor a elas ligado e disse não ser parte do processo em São Paulo. Sobre a Sougemp, afirmou que a empresa pertence à irmã, Aline Roriz Clemente, “empresária formada na área”, e negou tê-la usado como sócia de fachada. Sobre a coincidência entre o endereço da empresa e o domicílio que declarou ao TSE, respondeu que já teve vários endereços e que isso não comprova participação societária de ninguém. Chamou as suspeitas dos credores de ilação sem provas. Rui Reis Alves Júnior disse não ter nada a acrescentar e remeteu as perguntas ao advogado da Vale dos Pireneus, Tiago Miranda, que não retornou. Aline Roriz Clemente não foi localizada.
O nome Roriz segue circulando pela política goiana, em palanque, em posse de cargo. Nos papéis das duas empresas que venderam milhões em produtos a hospitais públicos do estado, esse mesmo nome nunca precisou aparecer e ele nega que precisasse. Talvez seja essa, afinal, a explicação mais simples para um esquema tão elaborado, quanto mais um nome pesa na política, menos ele precisa assinar. •
Publicado na edição n° 1431 de CartaCapital, em 23 de setembro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Firmas não reconhecidas’
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Fonte: Carta Capital