Anatomia de um colapso
Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital
Menu
Já é assinante?
Acesse sua conta e leia agora mesmo
Assine e contribua com a reconstrução democrática do Brasil
Assine e contribua com a reconstrução democrática do Brasil
Melhor oferta!
assine e leia
A partir de documentos inéditos, o livro 1929 mostra como a crença da elite de Wall Street em sua própria excepcionalidade causou a Grande Depressão norte-americana
Assim como em tantas crises financeiras ao longo dos séculos, a ganância e a falta de bom senso estão por trás do crash da Bolsa de Nova York em 1929. O evento, um divisor de águas na história do século XX, remodelou o capitalismo e teve consequências em todo o mundo.
Passados quase cem anos do episódio, de causas já conhecidas, o livro 1929, do jornalista Andrew Ross Sorkin, tira seu frescor da forma como o autor investiga as engrenagens do colapso e o comportamento da elite financeira e política diante da derrocada iminente.
Sorkin é editor da coluna de negócios do The New York Times e autor de Too Big to Fail (Grande Demais para Falhar), livro sobre a crise financeira de 2008.
Em 1929, ele não só reconta o colapso: revela como o sistema estava condenado muito antes da queda das ações, sustentado por alavancagem excessiva, manipulação de mercado e uma cultura de impunidade entre os homens que comandavam Wall Street.
Entre 24 e 29 de outubro de 1929, uma bolha especulativa criada por crédito excessivo nos anos anteriores estourou, provocando a venda de milhões de ações em um curto espaço de tempo e a queda histórica do índice Dow Jones. Em apenas dois dias, o índice caiu 23%. Nos três anos seguintes, perderia 90% do valor, levando milhares de empresas e bancos à falência, gerando milhões de desempregados. O período ficou conhecido como a Grande Depressão.
Para Sorkin, o crash não foi apenas um acidente econômico, e sim um momento em que a realidade expôs um sistema dominado por banqueiros e especuladores que acreditavam poder controlar o mercado, manipular preços, esconder riscos e lucrar sem limites.
Pacto. Em outubro de 1929, uma bolha especulativa estourou, levando empresas e bancos à falência. O livro mostra que muitos sabiam das ameaças em curso – Imagem: Biblioteca do Congresso
Em uma escrita envolvente, o jornalista detalha a combinação explosiva entre euforia especulativa, manipulação dos donos de Wall Street, crédito fácil demais e falha das instituições em agir. Tudo isso foi determinante para a perda de confiança e o fim da ilusão de ganhos sem limites.
Para construir sua teoria, Sorkin reuniu farta documentação inédita: diários, correspondências pessoais e memorandos internos do Federal Reserve (Fed), o Banco Central norte-americano.
Em um desses memorandos a que Sorkin teve acesso em primeira mão, datado do início de 1929, por exemplo, o Banco Central mostra claramente que reconhecia a formação de uma bolha especulativa e recomenda a contenção do crédito para a compra de ações e a alta dos juros.
O documento elaborado pela distrital de Nova York do Fed revelava preocupação com o crescimento insustentável do crédito destinado à compra de ações e o comportamento dos investidores guiados por “confiança exagerada” e “expectativas irreais de valorização”, sem fundamentação econômica. Mas o temor de Washington de que uma ação mais agressiva do Banco Central fosse vista como intervenção barrou qualquer medida.
Em um documento de meados de março, até mesmo Charles Mitchell, presidente do National City Bank, um dos grandes propagadores da expansão do crédito especulativo, mostra sua preocupação com a inação do Fed.
Andrew Ross Sorkin expõe a cultura da impunidade e esquadrinha um sistema financeiro e político no qual conflitos de interesse são tolerados e normalizados
O então presidente do Fed de Nova York, George Harrison, procura, porém, acalmá-lo. Apesar de o memorando produzido pelo próprio Fed ter concluído que, se o crédito especulativo continuasse crescendo, o sistema financeiro ficaria vulnerável a uma “correção severa”, ele reafirma que Mitchell pode seguir ampliando os empréstimos. Para Sorkin, isso mostra que o Fed sabia o que estava para acontecer.
Mitchell é uma das figuras centrais da crise. A partir de cartas pessoais e documentos corporativos, Sorkin mostra como Mitchell incentivou agressivamente os empréstimos que permitiam aos investidores comprar ações com margens mínimas de garantia, criando uma estrutura de risco que dependia inteiramente da continuidade da euforia.
Já Thomas Lamont, sócio sênior da J.P. Morgan, surge como o diplomata das finanças, tentando equilibrar interesses públicos e privados enquanto, em seus papéis pessoais – a que Sorkin teve acesso privilegiado –, expressava preocupação crescente com a especulação e frustração com a hesitação do governo em agir.
Outros documentos inéditos revelam que Richard Whitney, presidente da Bolsa de Nova York, era a encarnação da corrupção institucional. Ele usava fundos da própria Bolsa como garantia para empréstimos pessoais e coordenava esquemas de manipulação de preços em conluio com outros operadores.
O caso mais emblemático é, porém, o de Albert Wiggin, presidente do Chase National Bank. Sorkin detalha, com base em registros fiscais e documentos corporativos, como Wiggin criou uma empresa fantasma no Canadá para vender ações do próprio Chase sem garantia, lucrando com a queda dos papéis do banco que dirigia e, assim, evitando impostos.
1929. Andrew Ross Sorkin. Tradução: Berilo Vargas, Pedro Soares e Laura Motta. Companhia das Letras (504 págs., 99,90 reais)
Esse episódio, tratado como símbolo da moral da elite financeira, expõe um sistema em que conflitos de interesse eram não apenas tolerados, mas normalizados.
Uma das habilidades de Sorkin é, em meio a tantas revelações, usá-las não só como fontes de informação, mas como forma de esquadrinhar o comportamento psicológico da elite.
A euforia racionalizada, a crença na própria excepcionalidade e a negação dos riscos faziam parte da rotina dos banqueiros e especuladores, que estavam convencidos de que podiam controlar o mercado.
Sorkin entende que a confiança excessiva na própria capacidade de manipular preços e moldar expectativas criou uma bolha que, sob qualquer análise que levasse em conta fundamentos econômicos, não tinha sustentação.
A elite realmente acreditava que o público era ingênuo, que os ciclos podiam ser domados e que a nova era de prosperidade era permanente. E que, ao contrário de crises anteriores, daquela vez seria diferente. Não foi. •
Publicado na edição n° 1431 de CartaCapital, em 23 de setembro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Anatomia de um colapso’
Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.
A ameaça bolsonarista não foi derrotada, apenas recuou. No Congresso, forças conservadoras seguem ditando o ritmo. Lá fora, o avanço da extrema-direita e os conflitos em Gaza, no Irã e na Ucrânia agravam a instabilidade global.
Se você valoriza o jornalismo crítico, independente e comprometido com a democracia, este é o momento de agir.
Assine ou contribua com o quanto puder.
Desenvolvido por OKN Technology Agency
Fonte: Carta Capital