Falta de estrutura leva a morte de uma criança de 11 anos no pátio de uma escola estadual, a precarização mata!
Por Diego Nunes — Esquerda Diário

Uma criança de 11 anos morreu após a trave de uma goleira, solta no pátio de uma escola, cair sobre a sua cabeça, em Caxias do Sul (RS). A precarização mata. Essa foi uma fatalidade, reflexo da falta de investimento na educação pública. Se as escolas estivessem impecáveis, com as goleiras bem presas, prédios bem cuidados e limpos, quadras e telhados sem estruturas comprometidas, etc, esse tipo de acidente com morte poderia ter sido evitado. O estado é responsável!
Não podemos continuar trabalhando como se nada tivesse acontecido, como se nada estivesse acontecendo. O estado todo devia estar de luto num momento desses. Pára tudo! E vamos olhar para as escolas, para garantir ambientes seguros, com funcionários suficientes para cuidar das nossas crianças. Morreu uma criança, poderia ser filho de qualquer um. Como olhar para cada aluno e aluna pensando que poderia ter sido com ele? Para além desse risco, as condições de muitos prédios públicos que abrigam escolas também revelam as condições adoecedoras às quais professores, funcionários e estudantes estão submetidos.
Eu sou professor na rede estadual do RS desde 2012, trabalhei já numas 5 escolas diferentes e, atualmente, conheço mais de um colega que está internado por tentativa de tirar a própria vida. Trata-se de uma verdadeira epidemia de saúde mental na educação. E não só entre professores. No ano passado perdi um aluno para essa epidemia que é a depressão, meu aluno faltou à aula e recebemos a notícia que ele havia se matado na noite anterior.
Uma colega, sofrendo de câncer, para não perder o Ipe-saúde, tinha que comparecer de 15 em 15 dias na escola sob tratamento pesado de químio e radioterapia. Doía ver ela naquelas condições tendo que comparcer na escola. Em 2015 o governo Sartori tirou o direito dos professores contratados de ficarem doentes por mais de 15 dias. A ameaça era de desligamento. No fim, a colega não resistiu e acabou falecendo. Vi e vejo ainda, cada vez mais, relatos de colegas de trabalho sob tratamento psiquiátrico e relatando sofrimento psíquico. As políticas de cortes de direitos e de salários, durante os governos Sartori e Leite, são uma parte importante desse sofrimento, houveram por conta disso casos de exoneração e pior, suicídios.
Dados oficiais do Ministério da Previdência Social apontam um aumento dos afastentos de servidores da educação no RS por questões de saúde mental. O estado é o terceiro que mais adoece os profissionais da educação, ficando atrás apenas de São Paulo e Minas Gerais. “O Rio Grande do Sul registrou 46.738 afastamentos do trabalho por transtornos mentais e comportamentais em 2025. Casos de depressão, ansiedade e transtorno bipolar estão entre as principais doenças. O número cresce anualmente, sendo o maior já registrado nos últimos cinco anos”, de acordo com matéria publicada no Diário Gaúcho.
A sobrecarga de trabalho, a naturalização de se levar trabalho para casa, para além da carga horária de hora atividade, a exigência de mil burocracias e planilhas, as salas superlotadas em muitas escolas, os contratos de trabalho instáveis e o assédio moral sofrido em muitas escolas, sem contar as condições precárias de muitos dos prédios escolares e das condições socioeconômicas dos alunos, que sofrem em muitos locais com uma epidemia de violência, estão entre as causas do adoecimento na educação. Que condições de ensinar e de aprender temos nessas circunstâncias?
É preciso tomar nas próprias mãos a educação pública e chamar as famílias e as comunidades para o diálogo, dentro do espaço escolar. É preciso organizar em cada espaço de ensino/aprendizagem um debate democrático sobre a educação que queremos para nossos alunos e filhos, eleger nossos representantes em cada local, revogáveis, para construir uma grande luta nas ruas e ocupando nossas escolas. Exigindo mais recursos para a educação, garantia de espaços seguros e serviços de saúde mental para alunos e professores da rede pública. O governo, seja qual for, dirá que não há dinheiro, então precisamos apontar que tire dos grandes sonegadores gaúchos, confiscando seus bens, e acabe com todos os programas de isenções fiscais para bilionários, bem como programas como Fundopem, que lança dinheiro público para a geração de emprego, mas não gera quase nada. Que se cancele o pagamento da fraudulenta dívida com a União e se acabe com o Regime de Recuperação Fiscal. Somente com a luta podemos conquistar isso, e exigir que esses recursos sejam concedidos para a educação pública, administrada democraticamente pelas comunidades.
Nos solidarizamos com muito pesar com todos os familiares, colegas e professores de Fabian Alexander Zerpa Bermudez, de 11 anos, que faleceu nesta quarta-feira no Instituto Cristóvão de Mendoza em Caxias do Sul.
Fonte: Esquerda Diário