Fake news dá lucro
Por Carlos Drummond — Carta Capital
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O campo progressista tenta cavar espaço em um ecossistema dominado pela estrutura da extrema-direita
O grande esforço do governo, do PT e aliados para virar o jogo das eleições presidenciais no segundo turno resultou em avanços significativos. Na sexta-feira 9, Lula superou o adversário em engajamento nas redes sociais pela primeira vez no mês. “Flávio Bolsonaro chegou ao primeiro turno com apoiadores muito ativos e organizados nas redes sociais, uma base que segue mobilizada e que lhe garantia uma vantagem clara no ambiente digital. Mesmo assim, o equilíbrio de forças mudou em pouquíssimo tempo. Em apenas três dias, Lula conseguiu ultrapassar o adversário e ainda alcançou um desempenho próximo do dobro do maior resultado que Flávio havia registrado durante toda a campanha”, sublinha a antropóloga Carol Luck, coordenadora do Projeto Brief.
As publicações do presidente somaram 10 milhões de interações, o dobro das de Flávio Bolsonaro, e um vídeo de convocação dos eleitores para irem às ruas atingiu 26,9 milhões de visualizações. O chamado foi fundamental na geração de 156 ações de mobilização em defesa de um quarto mandato, em 76 cidades, segundo levantamento do Comitê Popular de Luta. Essas conquistas ocorreram em situação extremamente adversa, com a derrubada de contas progressistas nas redes sociais por ataques cibernéticos, suspensão sem justificativa de contas e canais pró-Lula pela big tech Meta e parcialidade escancarada do TSE em decisões favoráveis ao candidato do PL.
Ao ampliar a campanha nas redes sociais, o lulismo entrou em sintonia com os jovens e isso mudou a cara da eleição. “A grande novidade deste segundo turno é que a juventude brasileira saiu às ruas para defender o Brasil do fascismo, da destruição das suas políticas públicas e do futuro do País, para defender Lula. Esse é o brado das manifestações na Avenida Paulista, em São Paulo, e no Brasil todo”, resume o deputado Paulo Teixeira, do PT.
A oposição mantém forte domínio no X e no TikTok, mas a esquerda conseguiu equilibrar o jogo no Instagram. A direita continua com muita força nas redes, reconhecem as plataformas progressistas. Parte do seu poder tem a ver com o crescimento do negócio digital bolsonarista e seu peso nos desfechos eleitorais, mostra o desempenho dos seus maiores veículos digitais.
O Grupo Jovem Pan, após o tombo de 2023, devido a campanhas de desmonetização e a perda de repasses federais, começou forte recuperação e fechou 2025 com faturamento estimado em 145 milhões de reais. Em 2026, projeta expansão do faturamento em 72%, para 250 milhões.
O Brasil Paralelo, com um modelo de negócios focado principalmente na venda de assinaturas, ultrapassou 2 milhões de clientes e obteve uma receita acima de 200 milhões de reais. A produtora de conteúdo digital projeta um faturamento acumulado de 1 bilhão até 2026.
A Revista Oeste tem faturamento estimado entre 45 milhões de reais e 65 milhões por ano, segundo cálculos a partir do seu modelo de negócios. A publicação anunciou no ano passado ter alcançado um total de 100 mil assinantes.
O Datafolha indicou que 61% a 63% dos eleitores bolsonaristas usam as redes sociais como principal fonte de informação política, ante 47% dos lulistas. A geração Z, de 16 a 24 anos, tornou-se a faixa etária que mais se identifica com a direita, com 52% desse segmento impulsionado diretamente pelo sistema de conteúdo digital.
A dinâmica extremista nas redes alimenta um pool de comunicação política digital descentralizado, com faturamento de centenas de milhões de reais
Segundo o relatório Quem Paga a Banda, do Projeto Brief, que investiga também o financiamento de campanhas, narrativas e redes de influência a partir dos dados da Biblioteca de Anúncios da Meta, o Brasil Paralelo aparece como maior anunciante, com 1,6 milhão de reais aplicados em 1.320 publicações. Isto é quatro vezes mais do que o governo do estado de São Paulo gastou no mesmo período.
O mesmo relatório aponta entre os principais anunciantes de meios de comunicação políticos na Meta a Revista Oeste, com 923 mil reais aplicados, e o ex-ministro da Economia Paulo Guedes, que destinou 624 mil reais a 54 anúncios, com valor médio de 11,5 mil por anúncio. O influenciador Victor Doné, com 16.087 anúncios disparados em seis meses, alcançou o maior volume registrado, somando 469 mil reais para pagamento de publicidade na big tech. Doné se destaca pelo uso de mensagens conspiratórias e místicas, como a venda do chamado “Código de Deus”, em que associa prosperidade a segredos espirituais acessíveis apenas a poucos privilegiados, ressalta o relatório.
Para a cientista política Camila Rocha, pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, parte da vantagem da direita nas redes está relacionada ao surgimento de produtores que atuam simultaneamente como ativistas e criadores de conteúdo digital. A sua dinâmica gera um ecossistema de comunicação política digital descentralizado, com faturamento de centenas de milhões de reais e impacto direto na formação de opinião de um quarto da população conectada do País.
Esse amálgama virtual, político e econômico, funciona, na prática, como um partido digital bolsonarista, define o cientista político Marcos Nobre, professor de filosofia política da Unicamp e diretor do Cebrap. Um aparelho político que chegou a obter 301 milhões de visualizações de um único vídeo bolsonarista em apenas uma semana, gerando 2,5 milhões de novos seguidores. A sua vantagem competitiva, acrescenta o professor, se deve a uma engrenagem contínua de financiamento operando inteiramente fora do calendário e da fiscalização da Justiça Eleitoral.
Apesar da força do bolsonarismo, a mobilização pró-Lula após o primeiro turno abalou as convicções daqueles que estavam certos de que a vitória de Flávio estava garantida. A radicalização dos ataques ao lulismo e a manipulação sem disfarce de instituições como o TSE em favor do candidato oposicionista denotam medo de virada, ampliado após a divulgação de pesquisas eleitorais que apontam um encurtamento da distância entre os dois candidatos, ou uma ultrapassagem. O medo mudou de lado, ou, ao menos, não está restrito aos derrotados no primeiro turno. Agora Lula testará mais uma vez a sua convicção de que eleição se ganha nas ruas – e nas redes. •
Publicado na edição n° 1435 de CartaCapital, em 21 de outubro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Fake News dá lucro’
Carlos Drummond
Editor de Economia da edição impressa de CartaCapital
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Fonte: Carta Capital