Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital

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Os romances brasileiros de horror, que usam a realidade atual e as violências do passado como matéria-prima, ganham leitores e mercado

Em maio de 2020, o escritor e editor gaúcho Daniel Gruber estava, como boa parte do mundo, fechado em casa, e, além de ter acabado de concluir seu doutorado, tinha um filho pequeno e estava sem emprego. Fez então o que sabia fazer: escrever.

Durante o isolamento social, ele publicou na internet o romance de terror A Floresta. O sucesso foi tanto que ele acabou fundando uma editora, O Grifo, para lançar o livro em versão física. E a empresa nunca mais parou.

“Minhas primeiras obras são ligadas a uma literatura mais realista, mas meu começo como leitor foi com romances góticos, e voltei a isso”, diz. “Ao mudar para a literatura de gênero, sabia que podia perder leitores. Mas a verdade é que também ganhei muitos outros. Não me vejo escrevendo outra coisa.”

Sua editora, especializada em literatura de horror, tanto lança novos autores quanto resgata clássicos nacionais e estrangeiros. “Quando comecei, havia muito preconceito, mas hoje o gênero está quebrando barreiras, especialmente de mercado”, conta Gruber.

Depois de A Floresta, cujos direitos foram vendidos para o cinema, Gruber publicou A Noite do Cordeiro, que se passa no período da Inquisição, no Brasil, e inventa um encontro entre um jesuíta e uma curandeira angolana escravizada.

Criadores e criaturas. Ana Paula Maia, Mylena Queiroz, Verena Cavalcante, Daniel Gruber e Bruno Ribeiro são alguns dos responsáveis pelo boom no gênero no Brasil – Imagem: Dayana Soares e Redes Sociais

Outro nome a despontar no gênero, nos anos recentes, é Verena Cavalcante, que estreou no romance com Como Nascem os Fantasmas, passado em uma pequena cidade do interior paulista. O livro foi publicado pela Suma, braço da Companhia das Letras especializado em terror, ficção científica e fantasia.

“O mercado está olhando para a gente”, diz ela. “Acho que há uma série de elementos que propiciaram a ascensão do gênero. Vivemos tempos de desesperança, e as redes sociais contribuem para que seja mais fácil divulgar e conhecer novos escritores.”

Ismael Chaves, editor na O Grifo, conta que o crescimento não é só de leitores, mas de criadores. A casa recebe cada vez mais originais para análise. “Nos últimos anos, houve um boom no gênero na América Latina, e as pessoas perceberam que também se faz terror no Brasil.” E sempre se fez.

O jornalista e roteirista de quadrinhos Romeu Martins organizou a antologia Medo Imortal (2019), lançada pela DarkSide Books, outra editora especializada em literatura de gênero. A coletânea resgata contos de escritores da primeira geração da Academia Brasileira de Letras, fundada em 1897. Entre eles estão Machado de Assis, Aluísio Azevedo e João do Rio. O livro também faz justiça a Julia Lopes de Almeida.

A escritora, nascida em 1862 no Rio de Janeiro, foi uma das idealizadoras da ABL, mas nunca chegou a ocupar uma cadeira porque a instituição não aceitava mulheres. É dela um dos contos mais assustadores da coletânea, Os Porcos (1903).

O romance mais conhecido de Julia, A Falência (1901), ficou esquecido por muitos anos, mas ganhou nova vida graças ao trabalho de pesquisadores e novas edições. Em 2020, o livro virou leitura obrigatória do vestibular da Unicamp.

“É importante resgatar a história do terror brasileiro e mostrar que o gênero sempre existiu por aqui, mas foi esnobado”, diz Martins, lembrando do pioneiro Noite na Taverna (1855).

Para a filósofa Juliana Fausto, o fortalecimento do horror se insere no contexto da ascensão da extrema-direita. “O terror tem a capacidade de materializar traumas históricos”, afirma ela

No primeiro semestre deste ano, Medo Imortal ganhou uma versão em podcast. Em cada episódio, Martins e a cineasta e roteirista Mariana Thomé leem um conto e conversam com especialistas. “Temos uma tradição muito rica de terror e fantasia no nosso folclore, mas, durante muito tempo, esse imaginário só era visto pelo olhar infantil”, diz Mariana.

Para a filósofa, artista e pesquisadora da imagem da Universidade Federal do Paraná Juliana Fausto, o fortalecimento do gênero se insere no contexto da ascensão das extremas-direitas pelo mundo.

“O momento é de reação dos subalternos”, diz ela. “O terror tem a ­capacidade de materializar traumas históricos. A narrativa é algo que a gente faz com o mundo, e o gênero pode mostrar fantasmas, monstros, demônios, enfim, o medo coletivo.”

O pesquisador e curador Fernando Brito lembra, inclusive, que o gênero nasceu com o gótico, na Inglaterra do século XVIII, num contexto de turbulência. “O terror deu conta da instabilidade de um mundo que não se encaixava mais na racionalidade”, explica. No Brasil de hoje, não por acaso, muitos dos livros trazem elementos de violência e remetem à ditadura e ao passado colonial.

É o caso de O Dono e o Mal (Alfaguara), de Bruno Ribeiro, lançado neste ano. A trama se passa na fictícia Brejo do Livramento, na Paraíba, e é protagonizada por duas famílias de classes sociais e visão de mundo distintas. A certa altura, um dos personagens vai a uma granja de propriedade de Emílio Garrastazu Médici e testemunha horrores. A entidade imortal que assombra o vilarejo é O Inglês.

“O Brasil é uma grande casa mal-assombrada”, resume Ribeiro. “O mal que nos assombra é ancestral e o personagem é como as forças colonizadoras, entrando nas nossas vidas sem pedir licença. O horror vai a lugares que o realismo não alcança. É uma vassoura que chega nos cantinhos.”

A ditadura se faz presente também em Como Nascem os Fantasmas, inspirado na infância de Verena, e em Animais Tropicais (Companhia das Letras), de Javier A. Contreras.

Imagem: Redes Sociais

A avó de Verena era médium e seu avô policial militar aposentado, mas em casa ninguém falava em ditadura. “Um dia, a professora descobriu que eu era neta de militar e pediu que fizéssemos um trabalho sobre a ditadura. Ela falou isso olhando nos meus olhos.” A cena está no livro – que é cheio de fantasmagorias.

Já Contreras, filho de chilenos, conta a história de dois jornalistas que vão investigar o desaparecimento de um colega numa comunidade aparentemente utópica, chamada Terra Luminosa. O lugar é inspirado na comuna chilena Colônia Dignidade, fundada por um ex-militar nazista e usada como lugar de tortura durante o regime de Pinochet.

“O terror acaba surgindo a partir da experiência humana”, diz o autor, filho de um homem que foi preso pela ditadura chilena e emigrou para o Brasil, onde o escritor nasceu. “A violência aconteceu na minha vida antes mesmo de eu existir”, reflete. “Por isso, acaba me interessando muito a temática da subjugação do ser humano diante do Estado.”

Mas nem só da investigação do passado vive o terror nacional. Em Sangue de Cabra (Patuá), Mylena Queiroz atua­liza elementos típicos do gênero para contar histórias ligadas ao cotidiano do País. “Nunca me imaginei fazendo literatura de terror, mas percebo que o gênero me permite ir a lugares diferentes e interessantes, podendo abordar questões que são mais recentes, como a discussão sobre feminicídio”, afirma.

A premiada Ana Paula Maia lançou há pouco O Tenebroso Brilho do Sol (Companhia das Letras), que combina tragédias reais (remetendo aos desastres das mineradoras no Brasil) e crenças populares e superstições. O Brasil, como indica o boom no gênero, oferece material histórico e social quase infinito para a sua produção. •

Publicado na edição n° 1435 de CartaCapital, em 21 de outubro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O medo que nos habita’


Alysson Oliveira

Alysson Oliveira é jornalista, mestre e doutor em Letras pela FFLCH-USP, onde realiza também pesquisa de pós-doutorado. Escreve sobre livros para a CartaCapital.

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Fonte: Carta Capital

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