Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital

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DIRETO DA REDAÇÃO: Flávio Bolsonaro negou, mas viajou em avião de Vorcaro

Professor de Economia da FGV-SP, foi economista, gestor de fundos e CEO em instituições do mercado financeiro. É autor, entre outros, de Brasil, uma Economia que Não Aprende

O que tem complicado a vida do Banco Central não é a conjuntura interna, mas a imprevisibilidade do cenário internacional

As decisões de política monetária das últimas semanas vieram sem surpresas. O Banco Central brasileiro cortou a Selic para 13,75%, como se esperava, e o Federal Reserve elevou os juros norte-americanos para 4%, também dentro do previsto. O que mudou o jogo não foi a decisão dos BCs, foi o petróleo. O barril acima de 100 dólares não tem resolução à vista, e vale entender por quê.

A crise logística no Oriente Médio se agravou com os ataques no ­Estreito de Bab el-Mandeb, na entrada do Mar Vermelho, que dá acesso ao Canal de Suez, e depois se estendeu ao oleoduto saudita que atravessa o país de uma ponta à outra justamente para contornar aquele gargalo. A rota marítima e a alternativa terrestre estão sob pressão ao mesmo tempo, a pior combinação possível. Não é choque de demanda, que se dissipa quando a atividade desacelera, mas problema de oferta e logística, cuja solução depende de geopolítica, não de juros.

O efeito chega rápido à bomba: o galão de gasolina nos Estados Unidos voltou aos 4 dólares. O reflexo já aparece nos índices nos EUA. Os preços ao produtor (PPI) de agosto rodam próximos a 5%, com a inflação ao consumidor em torno de 3,5%. É o tipo de composição que preocupa qualquer Banco Central, pois a pressão está a montante e ainda vai se propagar. O Fed subiu os juros e deve subir mais: o mercado precifica ao menos mais uma alta de 0,25 ponto neste ano e, possivelmente, haverá novas subidas ao longo do próximo.

Isso complica a vida do BC brasileiro, não porque o quadro doméstico tenha piorado. Ele até melhorou. A inflação corre a 4,22% no ano, deve fechar próximo disso e ficar entre 4,2% e 4,3% em 2027, com projeção de 3,2% no horizonte relevante da meta, o primeiro trimestre de 2028. Olhando só para dentro, há espaço para mais um corte em novembro. O problema é que entramos numa zona mais frágil. Enquanto o juro estava absurdamente elevado, havia folga para errar: o diferencial contra o juro ­norte-­americano sustentava o real quase sozinho.

À medida que a Selic cai, o juro dos EUA sobe e o petróleo segue caro, essa folga encolhe e a conta tende a bater no câmbio. É por ali que o choque externo volta para a inflação brasileira, não pela gasolina diretamente. E não dá para montar cenário hoje sobre a taxa de câmbio sem saber quem ganha a eleição, porque os desdobramentos são binários.

Uma vitória de Flávio Bolsonaro, com agenda mais à direita, viria acompanhada de um corte de gastos sociais da ordem de 200 bilhões a 300 bilhões de ­reais por ano. O efeito imediato seria possivelmente um rali do real, como se viu na Colômbia e no Chile em situações parecidas, com a moeda caindo abaixo de 5 dólares. Isso ajudaria muito o Banco Central a controlar a inflação e tiraria pressão de demanda agregada por transferências de renda. Garantia de crescimento, porém, não existe. Basta lembrar do período Temer-Bolsonaro, quando o Brasil cresceu 1,5% na média sob contração fiscal, mesmo com Roberto Campos Neto levando a Selic a 2% durante a Covid. Nas últimas duas décadas, o Brasil só cresceu com expansão fiscal. Pode ser que desta vez seja diferente, difícil prever.

Com Lula reeleito, teremos, provavelmente, mais do mesmo. Já vimos o aumento de 20 bilhões de reais no programa Bolsa Família. Há impulso de demanda, e o PIB cresce, porque todo o crescimento recente veio por essa via. O problema é que a estratégia está esgotada. Com o investimento parado em 16,5% do PIB, não se amplia a capacidade instalada, e sem nova capacidade a transferência de renda encontra oferta rígida e vira inflação. Isso obriga o Banco Central a manter o juro alto. Se o plano não mudar, o BC deve parar de cortar juros em 2027 e também teremos dificuldade para crescer porque os juros seguirão em nível proibitivo.

Nesse cenário, o câmbio, provavelmente, se desvaloriza com possíveis efeitos na inflação. Os dois cenários compartilham limitações. Um entrega câmbio melhor e inflação menor sem garantir crescimento. O outro entrega algum crescimento e cobra em câmbio mais desvalorizado e inflação. O dilema colocado hoje no Brasil é esse e a saída é conhecida: mudar de um modelo puxado por consumo para um modelo liderado por investimento.

Precisamos elevar a taxa de investimento para a faixa de 20% a 25% do PIB e aumentar a produtividade do trabalho no Brasil. Não há outro caminho para crescimento sustentado e aumento real de salário. E os cidadãos estão irritados por essa razão: a média salarial brasileira é de 3.750 reais, e nenhum arranjo de estímulo de demanda agregada com transferências de renda muda esse número de forma duradoura. •

Publicado na edição n° 1432 de CartaCapital, em 30 de setembro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Entre o petróleo e as urnas’

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.


Paulo Gala

Professor de Economia da FGV-SP, foi economista, gestor de fundos e CEO em instituições do mercado financeiro. É autor, entre outros, de Brasil, uma Economia que Não Aprende

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Fonte: Carta Capital

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