Em memória de Patricio Guzmán: “Escovar a história em contrapelo”

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Por Felipe Guarnieri — Esquerda Diário

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No último dia 15/09, aos 85 anos, faleceu o aclamado cineasta chileno Patricio Guzmán, vítima de uma parada cardiorrespiratória. Guzmán foi um dos maiores documentaristas da América Latina e morava há anos em Paris, após décadas de exílio político, durante o regime militar de Pinochet. Com mais de 50 anos de carreira, dedicou sua vida a um cinema de resistência, baseado na defesa da memória coletiva e contra o apagamento sistemático da história chilena.

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Patricio Guzmán Lozano nasceu em Santiago, no Chile, em 11/08/1941. A paixão pelo cinema nasceu ainda na juventude, como não havia escolas de cinema oficiais na época, mudou-se para Espanha e, na cidade de Madri, formou-se na Escola Oficial de Arte Cinematográfica no ano de 1970.

Um ano depois, retorna ao Chile, dentro de um contexto de grande efervescência política, para assumir a direção de documentários da produtora estatal Chile Films. Passou a registrar cotidianamente os principais eventos transcorridos durante o governo de Salvador Allende e, apesar de nunca estabelecer uma militância partidária, era alinhado ao Unidad Popular(UP) do primeiro presidente socialista eleito democraticamente.

Enquanto a UP, liderada pelos comunistas (PC) e socialistas (PS), nutria a ilusão de que era possível uma via pacífica para o Socialismo, por baixo, a classe operária chilena, temendo a reação imperialista, radicalizava-se. As greves, manifestações e protestos, constituíram um verdadeiro set de filmagem para Guzmán. Em 1971, gravou seu primeiro longa “El Primer Año”, registrando as mobilizações da classe trabalhadora chilena, uma espécie de laboratório para aquela que viria a ser, anos mais tarde, sua obra-prima.

  • O golpe, o resgate e a batalha

A série de filmes que compõem o documentário “A Batalha do Chile”(1975/1979) revelam os momentos de polarização política e social, que antecederam a queda de Allende. O golpe militar de 11/09/1973, comandado por Augusto Pinochet e sustentado pelos EUA, levou Guzmán à prisão. Por algumas semanas, o cineasta foi mantido no Estádio Nacional do Chile, junto com milhares de outros opositores, boa parte deles torturados e executados pelo novo regime. E, nesse momento, surge a importância de Chris Marker.

Ainda em 1972, Guzmán, sabendo do interesse do documentarista francês pela América Latina, recorreu a ele e solicitou recursos técnicos, como rolos de filmes de 16mm, devido a falta de material proveniente do embargo econômico vigente no país. Desde então, iniciou-se, além de uma parceria, uma forte amizade, determinante não somente para viabilizar o projeto da “Batalha”, como garantir a própria vida do diretor chileno. Marker foi o responsável por articular uma campanha de solidariedade com familiares, sindicatos de cineastas na Europa, intelectuais e contatos diplomáticos, que resultou na intervenção das embaixadas sueca e francesa e possibilitou a libertação física de Guzmán.

No entanto, a missão ainda não estava completa. Guzmán ainda precisava sair do país e, sobretudo, levar consigo todo o material do filme que somavam mais de 20 horas de filmagem. Enquanto, Marker cuidou da operação logística, amigos e familiares garantiram a preservação das películas. Pamela Urzúa, esposa grávida do diretor na época, dividiu os rolos de filme em caixas, escondendo cada uma delas em locais diferentes (para que caso uma fosse confiscada pelo exército, as demais ainda existissem). Os tios e um amigo próximo da família, posteriormente, conseguiram levá-las a Embaixada da Suécia e todo o material entrou na bagagem transportada pela imunidade diplomática até Estocolmo e de lá seguiu para Paris.

Apesar das trocas por correspondência, Guzmán encontrou presencialmente Marker apenas em 1973, quando já no exílio foi recebido por ele na Europa. Marker ainda custeou a revelação dos negativos e conseguiu um local seguro para a montagem do filme no Instituto Cubano del Arte e Indústria Cinematográficos (ICAIC), na cidade de Havana, onde Guzmán morou até concluir a produção da minissérie documental em 1979. Naturalmente, em diálogo direto com Marker, que ficou em Paris.

Guzmán não deixou de mostrar como os trabalhadores chilenos que ergueram os cordões industriais- organismos de auto-organização operária responsáveis pela distribuição de alimentos e funcionamento do país- foram deixados à própria sorte por suas direções. No caso, a burocracia sindical controlada pelo stalinismo.

Não existiria, portanto, “A Insurreição da Burguesia”(1975), “O golpe de Estado”(1976) e “O Poder Popular”(1979), sem o êxito completo desse resgate. Evidentemente, todo esse registro da memória chilena seria queimado se capturado pela ditadura pinochetista. Mesmo porque, aquilo que foi projetado pelas lentes de Guzmán revelaram ao mundo inteiro a violência institucional, política e social dos militares chilenos, marcado pela triste e indignante cena de assassinato do cinegrafista Leonardo Henrichsen, que filma a própria morte ao tomar um tiro de um soldado.

Mais do que filmar a repressão durante o Golpe de 1973, que resultou na morte de Allende e na tomada do poder da Junta Militar de Pinochet, os registros feitos por Guzmán se transformaram, praticamente, numa análise documental da crise política no Chile daquele período. Ao longo dos três filmes, acompanhamos a relação conflituosa entre as classes sociais, o governo e os sindicatos. Guzmán não deixou de mostrar como os trabalhadores chilenos, que ergueram os cordões industriais- organismos de auto-organização operária responsáveis pela distribuição de alimentos e funcionamento do país- foram deixados à própria sorte por suas direções. No caso, a burocracia sindical controlada pelo stalinismo.

  • Principais influências e a Trilogia Geográfica

Patricio Guzmán foi um filho da revolução documentarista dos anos 1960. Quando, as câmeras portáteis de 16mm e os gravadores de som sincrônico, libertaram os documentários dos estúdios. Sua obra reuniu a ação realista do Cinema Verité francês, o engajamento do Neorrealismo Italiano e a territorialidade combativa do Terceiro Cinema da América Latina, resultando numa síntese autoral, que transitou entre uma fase histórica-política e geográfica-poética.

No meio dessa trajetória, ainda em 2001, produziu ”O Caso Pinochet”, documentário sobre a prisão do ditador em 1998 e os esforços jurídicos e sociais para levá-lo ao tribunal, revelando as cicatrizes não curadas da sociedade chilena. Contudo, foram os filmes da chamada Trilogia Geográfica, que consolidaram essa nova fase do diretor. Nela, Guzmán, adota um estilo mais poético, realizando uma alegoria entre as belezas naturais do Chile com os traumas políticos herdados da ditadura militar. Um trabalho fascinante e muito profundo, que vai, respectivamente, do Deserto do Atacama, passa pela costa chilena e chega até as Cordilheiras dos Andes.

Em “Nostalgia da Luz”(2010), ele explora a relação do trabalho de astrônomos com as mulheres chilenas em busca dos restos mortais dos seus parentes desaparecidos durante o regime militar. Já em “O Botão de Pérola”(2015), utiliza a vastidão do oceano como metáfora para vincular o extermínio dos povos patagônicos e os corpos de presos políticos jogados no mar pelo exército. E, por fim, em “A Cordilheira dos Sonhos”(2019), representa a muralha natural como uma barreira física e psicológica que isola o Chile das fraturas neoliberais promovidas por Pinochet. O último filme de Guzmán foi “O Meu País Imaginário”(2022), uma espécie de fechamento desse ciclo poético, onde o diretor ao documentar as manifestações massivas de 2019 se depara com a mesma vontade de transformação política das novas gerações, com a que havia testemunhado em 1973.

  • Uma vida dedicada à memória

Podemos definir que a ilibada carreira de Patricio Guzmán foi um ato militante na preservação da memória histórica do Chile. Um paradoxo, afinal por vários anos seus filmes não foram exibidos e sofreram boicotes de todo o tipo, pela direita conservadora e nas grades de programação das redes televisivas, sendo mais valorizados e reconhecidos no exterior.

O diretor também foi bastante questionado na sua segunda fase poética, por críticos como o jornalista Ascanio Cavallo, ligado a centro-esquerda chilena (a extinta Concertación), que o acusavam de um olhar “eurocêntrico do Chile moderno”, romantizado e lírico para atender as expectativas de festivais como Cannes e Berlim. Como se fosse um debate do exílio, ou seja, de quem, supostamente, teria mais autoridade para contar a história da ditadura chilena, os que partiram ou os que ficaram? Com o falecimento de Guzmán, o próprio Cavallo teve que reconhecer a importância do cineasta, declarando que com a sua morte “extingue-se a geração do chamado novo cine chileno”.

Ainda que seja completamente válido o debate estético sobre o diretor, o mesmo não é em relação às condições que impuseram seu trabalho ter que ser realizado fora do Chile. Da mesma maneira, não há como separar a forma do conteúdo. Muitas das críticas recebidas pelo cineasta, inclusive por setores da “esquerda”, estavam preocupadas com a estabilidade capitalista da transição democrática chilena nos anos 1990/2000. Enquanto, por outro lado, Guzmán insistiu até o final de sua vida na tese de Benjamin, em “escovar a história a contrapelo”, refutando a narrativa triunfalista do esquecimento dos vencedores para assumir a perspectiva corajosa da memória dos vencidos.

Referências:

Jornal O Globo: Dados biográficos sobre o nascimento em 1941, a criação da trilogia A Batalha do Chile e o exílio do cineasta. Disponível em O Globo Cultura.

TV Cultura (UOL): Registro em vídeo e texto sobre a carreira do cineasta, os prêmios recebidos (como em Cannes e Berlim) e o impacto do documentarismo político. Disponível em Jornalismo TV Cultura.

Portal Contemporâneo da América Latina (USP): Informações de arquivo sobre a formação cinematográfica de Guzmán na Espanha e seus primeiros curtas-metragens e produções no início dos anos 1970. Disponível no Acervo USP.

Tele13 Radio – Información y análisis de Chile y el Mundo en Vivo https://share.google/wybZETlvjGyP9LHXC

Teses sobre o conceito de História (1940)- Walter Benjamin

Fonte: Esquerda Diário

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