Em editorial, Global Times afirma que Xi deverá apresentar iniciativas para elevar a qualidade da cooperação entre os integrantes do Brics
Por José Reinaldo — Brasil 247
247 – A visão da China para o Brics será apresentada pelo presidente Xi Jinping durante a 18ª Cúpula do grupo, realizada neste sábado (12) e domingo (13), em Nova Delhi, na Índia.
O encontro ocorre no momento em que o mecanismo completa 20 anos, amplia sua presença internacional e atrai novos países do Sul Global.
Em editorial, o jornal chinês Global Times afirma que Xi deverá apresentar iniciativas para elevar a qualidade da cooperação entre os integrantes do Brics. Segundo a publicação, o presidente chinês também terá discussões aprofundadas com outros líderes sobre a conjuntura internacional, o futuro do mecanismo e a ampliação de projetos conjuntos.
Xi participa da cúpula a convite do primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi. A expectativa é que o discurso do líder chinês indique as prioridades de Pequim para a próxima etapa do grupo, sobretudo nas áreas de desenvolvimento sustentável, inteligência artificial, economia digital, agricultura e redução da pobreza.
O encontro também antecede a presidência chinesa do Brics, prevista para 2027. Ao assumir o comando rotativo, Pequim pretende defender maior coordenação entre as estratégias de desenvolvimento dos países integrantes e promover iniciativas chinesas relacionadas a desenvolvimento, segurança, civilização e governança global.
Expansão fortalece presença do Sul Global
Criado inicialmente por Brasil, Rússia, Índia e China, o agrupamento ganhou posteriormente a adesão da África do Sul e, nos últimos anos, incorporou novos integrantes e parceiros. A ampliação aumentou o peso econômico e político do Brics, que reúne países com grandes mercados consumidores, capacidade industrial e reservas relevantes de recursos naturais.
Apesar das diferenças culturais, políticas e econômicas entre seus membros, o grupo mantém como pontos comuns a defesa de maior autonomia estratégica, o fortalecimento dos países em desenvolvimento e a reforma das instituições de governança internacional.
Para o Global Times, a longevidade do mecanismo está ligada à defesa da abertura, da inclusão e da cooperação com benefícios compartilhados. O jornal sustenta que essas características ajudaram o Brics a resistir a pressões externas e a se consolidar como uma das principais plataformas de articulação do Sul Global.
“A chave reside em seu compromisso com a abertura e a inclusão, em seu objetivo de cooperação ganha-ganha e em sua busca por equidade e justiça”, afirma o editorial.
A publicação avalia ainda que o avanço do unilateralismo, do protecionismo e das disputas geopolíticas aumenta a importância do bloco. Na visão do jornal, a instabilidade internacional abre espaço para que o Brics amplie sua atuação na defesa do multilateralismo e de uma ordem internacional menos concentrada nas potências ocidentais.
China busca consolidar papel central
A China ocupa uma posição decisiva na trajetória do Brics. Desde 2013, Xi Jinping apresentou propostas destinadas a ampliar a abrangência do mecanismo, entre elas o modelo “Brics Plus”, criado para aproximar o grupo de outras economias emergentes e países em desenvolvimento.
Pequim também apoiou a instalação, em Xangai, do Novo Banco de Desenvolvimento, instituição criada pelos integrantes do Brics para financiar projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável. O banco se tornou um dos principais instrumentos concretos da cooperação entre os membros.
Outra frente impulsionada pela China foi a expansão do grupo. A ampliação modificou a dimensão política do Brics e fortaleceu sua pretensão de atuar como representante das demandas de países que reivindicam maior participação nas decisões globais.
Em uma cúpula virtual realizada em setembro de 2025, Xi apresentou três prioridades para o mecanismo: a defesa do multilateralismo, a preservação de uma ordem econômica e comercial aberta e o fortalecimento da solidariedade entre os integrantes.
Segundo o líder chinês, os países devem “defender o multilateralismo para proteger a equidade e a justiça internacionais”, “defender a abertura e a cooperação ganha-ganha para salvaguardar a ordem econômica e comercial internacional” e “defender a solidariedade e a cooperação para fomentar a sinergia para o desenvolvimento comum”.
Novos países buscam aproximação
O interesse de outras nações em participar do Brics ou de suas instituições é apontado como um sinal da crescente projeção do mecanismo. A Malásia, atualmente país parceiro, já manifestou a intenção de se tornar membro pleno. Iraque e Madagascar também demonstraram interesse em aderir ao grupo ou obter o status de parceiro.
O movimento alcança ainda o Novo Banco de Desenvolvimento. Em junho, o Uzbequistão tornou-se oficialmente membro da instituição, enquanto o Irã anunciou que pretende ingressar no banco.
O Global Times interpreta essa procura como reflexo da reivindicação dos países do Sul Global por condições mais equilibradas de desenvolvimento e por maior influência na definição das regras internacionais. Essa aproximação, segundo o editorial, também amplia o desafio de assegurar eficiência e resultados concretos depois da expansão do bloco.
Durante sua presidência, em 2027, a China deverá buscar avanços em projetos voltados à inovação tecnológica, à transição sustentável e à integração econômica. Pequim também pretende associar a agenda do Brics à Iniciativa Cinturão e Rota e ampliar as oportunidades comerciais oferecidas pelo mercado chinês.
“À medida que o mundo se torna mais turbulento, torna-se ainda mais importante defender a bandeira da paz, do desenvolvimento, da cooperação e de resultados vantajosos para todos, refinar a essência do Brics e demonstrar sua força”, diz o editorial.
A cúpula de Nova Delhi deverá, assim, marcar simultaneamente o balanço das duas primeiras décadas do mecanismo e o início de uma nova etapa. O desafio será transformar a expansão política e territorial do Brics em coordenação efetiva, projetos práticos e maior capacidade de influência nas decisões internacionais.
Fonte: Brasil 247