Declaração final da cúpula de Nova Déli demonstra habilidade das diplomacias do Brasil e da Índia

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Por Leonardo AttuchBrasil 247

Por Leonardo Attuch, de Nova Déli — A Declaração de Nova Déli, construída depois de negociações que avançaram pela madrugada deste sábado, representa uma vitória diplomática importante para o BRICS e, em particular, para dois de seus membros fundadores: Brasil e Índia.

Não se deve subestimar a dificuldade de produzir um documento consensual num agrupamento que hoje reúne 11 países, com interesses econômicos, alianças internacionais e percepções de segurança muitas vezes bastante distintas. O principal obstáculo estava relacionado à guerra no Oriente Médio e às divergências entre Irã e Emirados Árabes Unidos. Meses antes, essas mesmas diferenças haviam impedido que uma reunião de chanceleres do BRICS chegasse a uma declaração conjunta.

O fato de o consenso ter sido finalmente alcançado demonstra que o BRICS amadureceu. E mostra também a importância de países capazes de dialogar simultaneamente com diferentes polos de poder.

É justamente aí que Brasil e Índia desempenham um papel especial.

Os dois países são grandes democracias do Sul Global, mantêm relações estratégicas com China e Rússia e, ao mesmo tempo, preservam canais sólidos de diálogo com Estados Unidos e Europa. Nenhum dos dois deseja transformar o BRICS numa aliança militar, tampouco numa espécie de OTAN invertida ou num bloco organizado contra o Ocidente.

Brasil e Índia trabalham por uma ordem multipolar, mas não por uma nova divisão do planeta em campos inimigos.

Essa concepção ficou evidente na solução encontrada para um dos pontos mais sensíveis da Declaração de Nova Déli. Em vez de transformar o documento numa sucessão de acusações contra países específicos, os negociadores buscaram uma linguagem baseada em princípios: defesa da soberania, da integridade territorial, do multilateralismo e da solução diplomática dos conflitos.

É uma solução tipicamente associada às melhores tradições diplomáticas de Brasil e Índia: preservar princípios sem fechar portas ao diálogo.

Do lado brasileiro, merece destaque o trabalho do embaixador Maurício Lyrio, sherpa do Brasil no BRICS. Os sherpas realizam justamente o trabalho menos visível e muitas vezes mais decisivo das grandes cúpulas internacionais: negociam textos, aproximam posições e constroem as fórmulas que depois chegam à mesa dos líderes.

Lyrio acumulou experiência fundamental nesse processo. Foi sherpa brasileiro no G20 durante a presidência do Brasil e desempenhou papel central também na presidência brasileira do BRICS em 2025. Agora, em Nova Déli, integra novamente a engrenagem diplomática brasileira responsável por buscar consensos num agrupamento que se tornou muito mais complexo depois de sua expansão.

Não é casual que Brasil e Índia tenham desenvolvido grande capacidade nessa área. Ambos defendem aquilo que a diplomacia indiana costuma chamar de autonomia estratégica: a possibilidade de cooperar com diferentes centros de poder sem subordinação automática a nenhum deles.

Essa ideia também está profundamente presente na política externa brasileira.

O Brasil dialoga com Washington sem romper com Pequim. Mantém relações com Moscou sem abandonar seus vínculos históricos com a Europa. Conversa com o Irã e com os países árabes do Golfo. A Índia realiza movimento semelhante, preservando relações estratégicas com Rússia, Estados Unidos, Europa, Israel, Irã e mundo árabe.

Num mundo cada vez mais marcado pela polarização, essa capacidade de conversar com todos deixou de ser ambiguidade para se transformar num ativo estratégico.

A Declaração de Nova Déli demonstra isso.

Também há uma mensagem importante sobre a própria natureza do BRICS. O agrupamento não precisa pensar de maneira idêntica para funcionar. Sua força pode estar justamente na capacidade de construir consensos mínimos entre países muito diferentes.

O BRICS ampliado reúne hoje algumas das maiores economias, populações, reservas energéticas e civilizações do planeta. Naturalmente haverá divergências. Esperar uniformidade de posições seria desconhecer a própria natureza do grupo.

O verdadeiro teste é outro: saber se essas diferenças podem ser administradas sem destruir a cooperação.

Nova Déli mostra que podem.

Ao alcançar um consenso justamente quando havia dúvidas sobre a possibilidade de uma declaração final, o BRICS demonstra capacidade de acomodação e maturidade institucional. A Índia, como anfitriã e presidente do agrupamento, merece reconhecimento pelo intenso esforço de mediação conduzido até as primeiras horas deste sábado.

O Brasil também deve ser reconhecido. Sua diplomacia, representada na cúpula pelo chanceler Mauro Vieira e no processo negociador pelo sherpa Maurício Lyrio, pertence à tradição que procura construir pontes em vez de aprofundar trincheiras.

Brasil e Índia talvez sejam, entre os grandes países do BRICS, aqueles que melhor podem desempenhar essa função.

São gigantes do Sul Global que não desejam trocar uma hegemonia por outra. Defendem reformas das instituições internacionais, maior representação dos países emergentes e uma distribuição mais equilibrada do poder mundial, mas preservam a ideia de convivência entre diferentes sistemas políticos e civilizações.

Esse talvez seja o significado mais profundo da Declaração de Nova Déli.

Num momento em que guerras, sanções, tarifas e rivalidades entre grandes potências voltam a fragmentar o sistema internacional, Brasil e Índia demonstram que existe outra possibilidade: autonomia sem isolamento, multipolaridade sem novos blocos militares e soberania sem abandono do diálogo.

Se o BRICS conseguir preservar esse espírito, poderá oferecer ao século XXI algo muito mais importante do que uma nova aliança de poder.

Poderá oferecer um método para administrar um mundo inevitavelmente multipolar.

Fonte: Brasil 247

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