Elmano cobra renovação da esquerda e defende novas lideranças para o PT

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Por Otávio Rosso — Brasil 247

247 – O governador do Ceará, Elmano de Freitas (PT), defendeu uma renovação das lideranças da esquerda brasileira e afirmou que o partido precisa ampliar sua presença junto à população para enfrentar a polarização política e recuperar espaço em regiões onde perdeu força eleitoral. Reeleito no primeiro turno, o petista também reconheceu falhas na campanha presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e cobrou maior atenção às propostas voltadas ao cotidiano dos brasileiros.

Em entrevista à Folha de São Paulo, concedida na quinta-feira (15), Elmano avaliou os desafios do PT após o primeiro turno das eleições de 2026, marcado pela vantagem de Flávio Bolsonaro (PL) sobre Lula na disputa presidencial. O governador destacou a necessidade de preparar novas lideranças nacionais e afirmou que a construção de uma candidatura competitiva depende de contato direto com a população, e não apenas de decisões internas da legenda.

“Nós temos várias lideranças novas, muito valorosas e capazes. Eu vejo no Camilo Santana uma grande liderança. Vejo no Haddad, no Alexandre Padilha, no Rui Costa. Mas nós temos lideranças regionais”, declarou.

Para Elmano, os dirigentes petistas precisam seguir o exemplo de Lula, que construiu sua trajetória política percorrendo diferentes regiões brasileiras e estabelecendo vínculos com movimentos sociais e trabalhadores.

“Nós hoje temos a necessidade de que as nossas lideranças regionais se disponham a fazer o que o presidente Lula fez a vida inteira, viajar o Brasil. Para ser liderança do país, tem que andar o país. Liderança nacional não se decide em reunião de diretório nem em gabinete. Se decide na relação dessa liderança com o povo. E só se sabe disso quando a pessoa vai para a rua, andar o país, conhecer as realidades.”

O governador também reconheceu que a esquerda enfrenta dificuldades para acompanhar transformações sociais e econômicas que alteraram suas antigas bases de sustentação, especialmente no Sul e no Sudeste.

“Há uma mudança muito significativa de como o PT surgiu nessas regiões, como era a sociedade organizada desse período. Essa sociedade se transformou radicalmente e nós do PT e da esquerda não conseguimos acompanhar essa mudança. Há uma necessidade de reconfiguração da nossa forma de organizar politicamente nessas regiões”, avaliou.

Elmano reconhece erros na campanha de Lula

Ao analisar o desempenho de Lula no primeiro turno, Elmano afirmou que a campanha presidencial dedicou atenção excessiva às realizações anteriores do governo e deixou em segundo plano as propostas para um eventual novo mandato.

Segundo ele, o eleitorado demonstrou maior interesse em conhecer medidas concretas para melhorar suas condições de vida do que em revisitar programas já implementados.

“Eu acho que a campanha teve um erro, que foi focar muito no que era a história do Lula e o que ele tinha feito antes, e focar menos no que ele pretendia fazer”, afirmou.

O governador mencionou o programa Pé-de-Meia como exemplo de uma iniciativa que poderia ter sido apresentada de maneira mais abrangente, incluindo as propostas para estudantes universitários.

Elmano também considerou que a defesa da soberania nacional e outros temas políticos ocuparam espaço excessivo na comunicação eleitoral, enquanto propostas de impacto direto sobre a população receberam menos destaque.

“Acho que era razoável que no primeiro turno já tivesse ficado mais claro quem é Flávio Bolsonaro para o eleitorado brasileiro. E o tema da soberania e outros poderiam ter tido um peso menor. Acho que a população quer muito mais saber o que é que o presidente vai fazer para melhorar a sua vida. Então, acho que a campanha do segundo turno está muito mais equilibrada.”

Apesar da vantagem de Flávio Bolsonaro no primeiro turno, o governador demonstrou confiança na possibilidade de recuperação de Lula na etapa decisiva da eleição.

“Nós temos uma situação de empate técnico com a perspectiva de Lula ultrapassar. Fiquei evidentemente surpreso com Flávio ter terminado à frente”, declarou.

Elmano acredita que o Nordeste poderá ampliar a diferença de votos favorável ao presidente, contribuindo para uma eventual virada nacional.

Abstenção e disputas estaduais prejudicaram votação no Nordeste

O governador atribuiu parte da redução da votação de Lula no Nordeste, em comparação com 2022, à intensidade das disputas estaduais e à percepção de setores da militância de que a eleição presidencial seria vencida sem grandes dificuldades.

Segundo ele, as campanhas para os governos da Bahia, do Ceará e de Pernambuco exigiram mobilização significativa das estruturas partidárias, reduzindo a dedicação à disputa nacional.

“Em três estados do Nordeste que são os maiores, Bahia, Ceará e Pernambuco, tivemos eleições muito acirradas pelo governo do estado. Então, nós estávamos muito envolvidos na eleição das nossas bancadas. É meio natural que a militância tenha priorizado e pedido votos para nós ganharmos as eleições de nível estadual”, explicou.

Elmano também apontou a abstenção como um fator relevante e afirmou acreditar que parte expressiva dos eleitores que não compareceram às urnas teria preferência por Lula.

“Muita gente não foi votar, a abstenção foi elevada. Tenho convicção de que a ampla maioria de gente que não foi votar é eleitor de Lula. Daí que nosso esforço é muito grande para que o eleitorado nordestino vá votar no segundo turno.”

Questionado sobre a possibilidade de dirigentes nordestinos assumirem maior protagonismo na campanha presidencial, o governador rejeitou a ideia de concentrar a condução política em uma região específica.

Para ele, a vitória de Lula depende de resultados competitivos também nos principais colégios eleitorais do Sudeste.

“Nós só ganharemos a eleição com um bom resultado em São Paulo, em Minas, no Rio. Não existe presidente do país com votação boa apenas no Nordeste”, afirmou.

Governador critica avanço da extrema direita

Na avaliação de Elmano, o desempenho eleitoral do PL e de outras forças conservadoras revela uma divisão política que deverá continuar influenciando o país nos próximos anos.

O petista considera que a renovação partidária precisa estar associada à capacidade dos governos de esquerda de apresentar resultados concretos para a população.

“Nós temos um trabalho na esquerda muito importante a fazer de renovação de quadros e de fazer um governo ainda mais intenso de melhoria da vida do povo. E acho que é isso que de fato vai poder permitir a gente superar essa polarização existente.”

Elmano também afirmou que os setores moderados da direita perderam influência diante do fortalecimento de grupos identificados com o bolsonarismo.

“A direita tem um problema no país porque está sendo hegemonizada pela extrema direita. A direita tem um setor ponderado, compromissado com a democracia, com a Constituição, mas esse setor se transformou em uma ala minoritária.”

Sobre a possibilidade de governar o Ceará durante uma eventual presidência de Flávio Bolsonaro, Elmano demonstrou preocupação com os efeitos de uma mudança de orientação no governo federal sobre investimentos e serviços públicos.

“Na minha cabeça, é absolutamente um pesadelo. Porque eu sei o que significa Transnordestina parada, ter um tratamento do câncer com 90% de corte do orçamento, instituto federal do Ceará sem dinheiro para terminar o ano, universidade sem poder pagar a conta de água.”

Elmano acusa extrema direita de oportunismo na votação sobre escala 6×1

Outro ponto abordado na entrevista foi a aprovação, no Senado, da proposta de emenda à Constituição que prevê o fim da escala de trabalho 6×1.

Elmano questionou a posição de parlamentares da extrema direita que apoiaram a medida, apesar de defenderem posteriormente mudanças que poderiam flexibilizar as regras trabalhistas.

Para o governador, a proximidade das eleições influenciou o comportamento de setores políticos historicamente resistentes à redução da jornada de trabalho.

“Essa é aquela situação que o povo brasileiro diz nas ruas ‘ah, se tivesse eleição todo ano, como era bom’, porque até a extrema direita vota favorável ao fim da escala 6×1. Mesmo anunciando que, se ganhar, ela desfaz o que votou.”

O petista classificou a postura desses parlamentares como contraditória.

“É tão descarada que vota a favor dizendo que, se ganhar, vai desfazer aprovando a flexibilização total da jornada de trabalho.”

Petista diverge de Camilo Santana sobre maioridade penal

Na área da segurança pública, Elmano manifestou oposição à redução da maioridade penal, mesmo diante da movimentação de seu aliado político Camilo Santana (PT) para apresentar uma emenda sobre o assunto durante a tramitação da PEC da Segurança Pública.

O governador argumentou que a mudança agravaria os problemas do sistema penitenciário e prejudicaria as possibilidades de recuperação de adolescentes envolvidos em atividades criminosas.

“Eu sou contra a redução da maioridade penal. Acho que isso vai apenas criar mais problemas ao sistema prisional brasileiro e nos dificultar a recuperar jovens que têm uma possibilidade de não entrar para o mundo do crime”, afirmou.

Ao ser confrontado com a iniciativa de Camilo, Elmano reafirmou sua posição e destacou que divergências sobre políticas públicas podem existir entre aliados.

“Eu sou contrário e tenho o direito de pensar diferente sobre determinados temas.”

O governador também defendeu uma atuação nacional coordenada contra as organizações criminosas, argumentando que os estados não possuem condições de enfrentar isoladamente a violência.

Ele elogiou a atuação de Lula na aprovação da legislação de combate às facções e na apresentação da PEC da Segurança Pública.

“Acho que o presidente Lula acertou em apoiar e ajudar a aprovar a lei antifacção, que considero das mais importantes no enfrentamento do crime organizado. O presidente acerta quando faz a PEC da segurança pública e, infelizmente, há setores contrários à aprovação.”

Elmano reconheceu, porém, que a esquerda precisa aprimorar sua abordagem sobre segurança pública, combinando políticas preventivas com ações de enfrentamento ao crime.

“Nós da esquerda elaboramos por muitos anos políticas de prevenção à violência, e menos políticas de enfrentamento. A direita tem um discurso muito forte de enfrentamento e pouca experiência em prevenção. Nós precisamos reunir essas experiências e fazer uma grande política nacional de segurança pública.”

Ciro Gomes contesta reeleição no Ceará

Na disputa estadual, Elmano foi reeleito governador do Ceará no primeiro turno, realizado em 4 de outubro, com 53,19% dos votos, contra 46,22% do ex-governador Ciro Gomes (PSDB).

Após a derrota, a coligação de Ciro ingressou na Justiça Eleitoral com um pedido de cassação da chapa vencedora e de realização de novas eleições. A ação aponta suposto abuso de poder midiático relacionado à veiculação de propaganda eleitoral nos dias anteriores à votação.

Elmano rejeitou as acusações e afirmou que a iniciativa demonstra resistência do adversário em aceitar o resultado das urnas.

“Primeiro, eu respondo que demonstra uma dificuldade enorme do candidato Ciro Gomes reconhecer que perdeu. Uma dificuldade enorme de perder, de aceitar a vontade soberana do povo, e precisa encontrar alguma desculpa para não ter que dizer ‘perdi’.”

O governador também contestou os fundamentos da ação, argumentando que as inserções questionadas envolveriam decisões da própria Justiça Eleitoral.

“A ação em si é absolutamente esdrúxula, porque não é sequer contra a minha candidatura, mas contra o Poder Judiciário”, declarou.

Segundo Elmano, a diferença de quase sete pontos percentuais entre os candidatos enfraquece o argumento de que a propaganda questionada teria sido determinante para o resultado.

“O resultado eleitoral é muito expressivo, é uma diferença de quase sete pontos. Falar que isso tem efeito suficiente para o resultado é apenas dificuldade de reconhecer que ele ativamente perdeu voto.”

Impeachment de ministros do STF deve respeitar provas, afirma governador

Elmano também comentou o debate sobre possíveis processos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), tema presente no discurso político de Flávio Bolsonaro.

O governador reconheceu que a Constituição prevê esse mecanismo, mas ressaltou que sua aplicação precisa estar fundamentada em fatos e provas, e não em divergências políticas ou insatisfação com decisões judiciais.

“Há sempre a possibilidade de acontecer impeachment de qualquer autoridade. Isso está posto e efetivamente tem sido realizado a partir dos fatos e das provas, e não porque não gosto de um ministro ou porque o ministro decide de tal maneira que me desagrada.”

Aos 56 anos, Elmano de Freitas é filiado ao PT desde 1989. Natural de Baturité, no Ceará, formou-se em direito pela Universidade Federal do Ceará e atuou como advogado do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Antes de chegar ao governo estadual em 2022, foi eleito deputado estadual em 2014 e reeleito em 2018. Sua trajetória política está ligada ao campo petista cearense, que também reúne lideranças como Camilo Santana, apontado pelo governador como um dos nomes capazes de contribuir para a renovação nacional do partido.

Fonte: Brasil 247

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