Eleições presidenciais 2026: o que está em jogo para quem vive com HIV e aids?
Por Articulação Nacional de Luta Contra a Aids (Anaids) — Brasil de Fato
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A Articulação Nacional de Luta Contra a Aids (Anaids), que reúne 17 fóruns estaduais, redes e coletivos nacionais de pessoas que vivem com o vírus da imunodeficiência humana (HIV) e a síndrome da imunodeficiência adquirida (aids), manifesta sua posição diante do segundo turno das eleições presidenciais. Nosso posicionamento se ancora na luta coletiva pelo reconhecimento da saúde enquanto direito, na construção de políticas baseadas em evidências e na participação social, um dos pilares da resposta brasileira à epidemia.
Reunidos em Cuiabá para organizar o 23º Encontro Nacional de Organizações Não Governamentais/Aids (Enong), discutimos o significado político desta eleição, seus desdobramentos para o futuro do país e os impactos nas políticas de HIV e aids. A disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) exige do movimento de luta contra a aids uma posição que considere trajetórias, decisões de governo e compromissos com a democracia, o Sistema Único de Saúde (SUS) e os direitos humanos.
Os programas de governo, as abordagens e os compromissos com o enfrentamento da epidemia não são equivalentes. São projetos políticos que se distinguem nas relações com os direitos, a ciência e a participação social. Tampouco podemos permitir que o silêncio sobre o HIV e a aids nos programas e no debate eleitoral torne invisíveis as pessoas que vivem e convivem com a epidemia.
Reconhecemos, no atual governo Lula, esforços de reconstrução das políticas públicas e de retomada do diálogo com a sociedade civil. Reconhecer essa direção implica também exigir que ela se traduza em respostas mais consistentes, financiamento adequado e impactos efetivos nos territórios. A continuidade de um governo precisa estar comprometida com a superação das insuficiências que persistem na prevenção, na assistência e no enfrentamento das desigualdades.
Nossa autonomia política permanece inegociável. Seguiremos cobrando o governo, denunciando violações e exigindo avanços. O compromisso do movimento social é com a população e com os direitos conquistados, independentemente de quem ocupe a Presidência.
A candidatura de Flávio Bolsonaro desperta profunda preocupação pelo legado político ao qual está vinculada. O movimento de luta contra a aids não pode esquecer que, no governo de Jair Bolsonaro, foram extintos os espaços de interlocução com os movimentos sociais, assim como o Departamento de HIV e Aids, referencial técnico, político e programático da resposta nacional à epidemia. Além disso, em 5 de fevereiro de 2020, o então presidente Jair Bolsonaro afirmou que uma pessoa com HIV “é uma despesa para todos aqui no Brasil”. Essa declaração partiu de quem ocupava a Presidência da República e reforçou o estigma que nosso movimento enfrenta há décadas, desqualificando cidadãs e cidadãos que têm direito à saúde, à dignidade e à proteção do Estado. O acesso ao tratamento é uma conquista coletiva, e nenhuma pessoa precisa justificar sua existência pelo custo de seu cuidado.
Ainda, a candidatura de Flávio Bolsonaro também carrega uma relação política direta com o governo de seu pai, do qual foi um dos principais defensores no Congresso. No seu programa de governo, composto por 76 páginas, identifica-se a ausência de propostas sobre HIV/aids, direitos humanos e enfrentamento ao estigma, o que traz preocupação quanto ao que seu próprio programa incorpora, rejeita ou deixa sem definição. Diante desse histórico, a candidatura de Flávio Bolsonaro gera inúmeras inseguranças e temores quanto ao futuro das políticas de saúde neste país.
Não basta às candidaturas afirmar, de maneira genérica, que defendem a saúde. É necessário dizer quais políticas serão sustentadas, como serão financiadas, quem participará das decisões e quais compromissos assumem para impedir retrocessos. A ausência de propostas explícitas para o HIV e a aids exige respostas públicas.
A política de aids deve ser uma política de Estado. Isso significa assegurar continuidade, sustentabilidade, orçamento, capacidade técnica e participação social para além dos calendários eleitorais. A resposta brasileira foi construída pela articulação entre sociedade civil, academia e gestão pública. Preservar esses pilares exige reconhecer o movimento social como sujeito político. Também é preciso enfrentar a determinação social da saúde. A pobreza, o racismo, a desigualdade de gênero, a LGBTfobia, a insegurança alimentar e as barreiras de acesso aos serviços atravessam a vida das pessoas e precisam orientar as respostas do Estado. Uma política que desconsidere essas condições será insuficiente para enfrentar o HIV, a aids, a tuberculose, as hepatites virais e outras infecções sexualmente transmissíveis.
O 23º Enong acontecerá após as eleições e terá a responsabilidade de transformar essa análise em uma agenda coletiva de atuação. Precisaremos fortalecer a sustentabilidade técnica, política e financeira do movimento, defender os direitos ameaçados e formular propostas para a próxima década. Nosso horizonte deve incluir tanto a proteção das conquistas quanto a capacidade de alcançar o que ainda nos é negado.
Neste segundo turno, convocamos a sociedade a considerar o que cada projeto político representa para o direito de viver com saúde, dignidade e liberdade. Para as pessoas vivendo com HIV e aids, decisões sobre orçamento, medicamentos, prevenção e proteção social atravessam a vida cotidiana e definem possibilidades de futuro.
Nenhum direito a menos. Mais de um milhão de vidas não podem ser tratadas como descartáveis. Nenhum retrocesso no SUS e na resposta ao HIV e à aids.
A história da luta contra a aids nos impõe essa responsabilidade: defender a democracia, sustentar o SUS e fazer valer os direitos humanos em cada decisão do Estado. Assim, reafirmando o nosso compromisso em defesa da democracia, dos direitos humanos e da saúde pública, universal, integral e equânime, apoiamos a candidatura de Lula!
Cuiabá, outubro de 2026
Articulação Nacional de Luta Contra a Aids — Anaids
Rede Nacional de Mulheres Travestis e Transexuais e Homens Trans Vivendo e Convivendo com HIV/AIDS (RNTTHP)
Coletivo Feminista Gabriela Leite
Rede Comunidades Saudáveis
*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.
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Fonte: Brasil de Fato