‘Diário de Anne Frank’ vira polêmica no Brasil; conheça a obra

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Por Guilherme LevoratoBrasil 247

247 – O Diário de Anne Frank, uma das obras mais célebres da literatura mundial e testemunho fundamental sobre o Holocausto, voltou a figurar no centro de discussões no Brasil após uma declaração polêmica gravada durante a 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, relata a BBC News Brasil.

Em vídeo publicado na rede social TikTok pelo perfil @JovemLiaa, uma visitante abordada no evento citou o diário como sua pior leitura e justificou a escolha com a palavra “vitimista”. A fala gerou uma onda de reações e provocou notas oficiais de repúdio por parte de entidades de preservação da memória histórica.

O Museu do Holocausto e a Federação Israelita divulgaram posicionamentos ressaltando a necessidade imperiosa de compreender o texto dentro de seu contexto: os relatos de uma adolescente judia que viveu escondida durante a perseguição nazista na Holanda. As instituições destacaram ainda que narrar o próprio sofrimento sob terror estatal não define uma pessoa apenas pela condição de vítima, reforçando o valor histórico inestimável do relato escrito durante um dos períodos mais violentos do século 20.

Quem foi Anne Frank e a fuga do nazismo

Annelies Marie Frank nasceu em Frankfurt, Alemanha, em 12 de junho de 1929, filha de Otto e Edith Frank, e irmã menor de Margot. Com a ascensão do Partido Nazista e a chegada de Adolf Hitler ao poder em 1933, a família judia deixou a Alemanha e se mudou para Amsterdã, na Holanda, onde Anne frequentou a escola, aprendeu o idioma local e fez novos amigos.

A segurança no país, porém, durou pouco. Em 10 de maio de 1940, a Alemanha invadiu a Holanda, iniciando uma série de medidas antissemitas que restringiam a vida dos judeus e intensificavam a perseguição. Otto Frank tentou emigrar com a família para os Estados Unidos, mas não conseguiu concluir o processo antes do fechamento dos consulados americanos nos territórios ocupados. Em julho de 1942, após Margot receber uma convocação para se apresentar a um campo de trabalhos forçados, a família decidiu se esconder. Anne tinha 13 anos.

A rotina no “Anexo Secreto”

O esconderijo ficava nos fundos do prédio onde funcionavam os negócios de Otto Frank, na rua Prinsengracht, número 263, em Amsterdã. A entrada era camuflada por uma estante móvel construída especialmente para ocultar o acesso. O espaço de aproximadamente 120 metros quadrados, chamado por Anne de “anexo secreto”, abrigou oito pessoas: os quatro integrantes da família Frank, Hermann e Auguste van Pels com o filho Peter, e o dentista Fritz Pfeffer.

A manutenção da clandestinidade exigia rigor absoluto. Durante o expediente do armazém no térreo, os moradores deviam evitar qualquer ruído que pudesse revelar sua presença: era proibido usar água corrente, dar descarga ou conversar normalmente, além de ser necessário conter risadas, tosses e espirros. Anne passava as manhãs estudando e lendo; à tarde, costumava ligar o rádio para acompanhar notícias, incluindo as transmissões da emissora britânica BBC. A sobrevivência dependia do auxílio de quatro funcionários de confiança de Otto — Miep Gies, Johannes Kleiman, Victor Kugler e Bep Voskuijl —, que levavam comida, roupas e outros suprimentos.

A origem das anotações e a figura de Kitty

Anne ganhou o caderno com capa de pano xadrez ao completar 13 anos, em 12 de junho de 1942, e decidiu transformá-lo em diário. Na primeira anotação, registrou a expectativa de poder confiar no caderno como nunca havia conseguido confiar em ninguém.

Os registros iam além da guerra, abordando brigas entre os moradores, a relação com os pais e a irmã, amizades, mudanças em seu corpo, sexualidade, sentimentos por Peter, literatura, natureza e seus sonhos para o futuro, que incluíam se tornar escritora ou jornalista. Em uma das passagens mais conhecidas, descreveu o confinamento comparando-se a um pássaro com as asas cortadas que se atira contra as grades de uma gaiola.

A destinatária dos escritos, Kitty, não era uma amiga real, mas uma personagem da série infantojuvenil Joop ter Heul, escrita pelo autor holandês Setske de Haan sob o pseudônimo Cissy van Marxveldt. Inicialmente, Anne direcionava seus textos a diferentes personagens da série, passando depois a escrever concentradamente para Kitty.

A decisão de reescrever parte de seus textos pensando em uma futura publicação ocorreu após ouvir no rádio o ministro da Educação do governo holandês no exílio, Gerrit Bolkestein, defender a preservação de diários, cartas e documentos da guerra. Em 29 de março de 1944, Anne registrou a ideia de transformar a experiência no esconderijo em um livro sobre o “anexo secreto”.

As versões do manuscrito e o processo de edição

O texto conhecido mundialmente é resultado de um processo de escrita, reescrita e edição dividido em quatro versões principais:

  • Versão A: O manuscrito original produzido por Anne a partir de junho de 1942.
  • Versão B: A reescrita iniciada pela própria Anne em 1944, visando transformar os registros em livro.
  • Versão C: Organizada por Otto Frank para a primeira publicação em 1947, na qual ele retirou ou resumiu trechos que considerava desnecessários, incluindo reflexões sobre a sexualidade de Anne e críticas à mãe, Edith.
  • Versão D: Preparada pela escritora e tradutora alemã Mirjam Pressler e publicada em 1995. Conhecida como “edição definitiva”, recuperou trechos omitidos por Otto e ampliou a obra para mais de 700 páginas.

Prisão, morte e publicação póstuma

A última anotação do diário foi feita em 1º de agosto de 1944. Em 4 de agosto, a polícia secreta nazista (Gestapo) invadiu o esconderijo e prendeu os oito moradores. Até hoje, a razão exata pela qual o local foi descoberto permanece em debate histórico.

Os escritos de Anne ficaram para trás e foram recolhidos e preservados por Miep Gies e Bep Voskuijl. Único sobrevivente entre os moradores do anexo, Otto Frank retornou a Amsterdã após o fim do conflito e, ao confirmar a morte da esposa e das filhas, recebeu os manuscritos das mãos de Miep.

Ao vencer a dor inicial e ler os cadernos, Otto descobriu facetas da filha que desconhecia, revelando uma jovem inteligente e em processo de amadurecimento. Convencido por amigos do meio editorial a publicar o material, autorizou o lançamento sob o título Het Achterhuis (O Anexo Secreto) em 25 de junho de 1947, com tiragem inicial de 3 mil exemplares na Holanda. Nos Estados Unidos, a obra foi lançada em 1952 como Anne Frank: The Diary of a Young Girl (Anne Frank: O Diário de uma Garota), após ser recusada por 15 editoras americanas.

Após a prisão, os ocupantes do anexo foram levados para o complexo de Auschwitz-Birkenau. Anne e Margot foram posteriormente transferidas para o campo de concentração de Bergen-Belsen, na Alemanha, onde contraíram tifo em decorrência das péssimas condições sanitárias e morreram em fevereiro de 1945, com poucos dias de diferença. Anne tinha 15 anos. A libertação do campo pelas tropas britânicas ocorreu poucas semanas depois, em abril de 1945. Os corpos das irmãs foram enterrados em uma vala comum. Uma das últimas pessoas a ver Anne com vida foi Nanette Blitz Konig, ex-colega do Liceu Judaico de Amsterdã que sobreviveu ao Holocausto e mais tarde se mudou para São Paulo.

Autenticidade, censura e alcance global

Apesar de tentativas de descredibilizar a obra promovidas por grupos negacionistas do Holocausto — que levantaram teorias falsas de que os textos teriam sido escritos por Otto Frank, Miep Gies ou pelo dramaturgo Meyer Levin —, peritos em caligrafia contratados pelo Instituto para Documentação de Guerra confirmaram categoricamente a autenticidade dos manuscritos.

A obra também foi alvo de tentativas de censura: em 1983, uma escola no Alabama (EUA) tentou bani-la sob a alegação de ser “depressiva”, e, em 2018, uma escola em Vitória (Espírito Santo) suspendeu temporariamente a leitura após trechos serem classificados como “pornográficos”.

Traduzido para mais de 70 idiomas, O Diário de Anne Frank soma mais de 35 milhões de exemplares vendidos no mundo — cerca de 400 mil no Brasil. O texto recebeu adaptações para o teatro (vencedor do Prêmio Pulitzer em 1956), cinema, quadrinhos e realidade virtual. Em 1960, o antigo esconderijo transformou-se na Casa de Anne Frank, museu em Amsterdã que recebe cerca de 1,2 milhão de visitantes por ano e mantém exposto o diário original, concretizando o desejo registrado pela jovem de “continuar vivendo depois da minha morte”.

Fonte: Brasil 247

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