De Nova Venécia para o Emmy Internacional: conheça Donna Oliveira, roteirista por trás de grandes produções

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A Gazeta

Conheça Donna Oliveira, roteirista por trás de grandes produções

Conheça Donna Oliveira, roteirista por trás de grandes produções
Acervo pessoal

A menina que cresceu em Nova Venécia, estudou a vida inteira em escolas públicas e só foi conhecer uma cidade com cinema aos 19 anos, hoje escreve histórias para algumas das principais plataformas de entretenimento do país. Roteirista há 13 anos, Donna Oliveira construiu uma trajetória no audiovisual brasileiro que inclui produções como Sintonia, Sutura e Habeas Corpus, além de O Prazer é Meu, série documental indicada ao Emmy Internacional em 2025. 

Mas, antes de chegar às grandes produções, o caminho passou pelo Espírito Santo, e pela descoberta de que seu lugar não era exatamente onde imaginava.  “Eu não sou uma pessoa que nasceu sabendo o que queria fazer. Eu nasci sabendo o que eu não queria fazer. Eu sabia que eu queria escrever”, conta Donna, em entrevista ao HZ.

Nascida em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, ela se mudou ainda criança para Nova Venécia, onde cresceu e estudou em escolas públicas. Mais tarde, foi para Vitória cursar Jornalismo. A mudança para São Paulo veio depois, para fazer uma pós-graduação em Jornalismo Literário, experiência que ajudou a transformar seu interesse pela escrita em uma carreira dedicada à criação de personagens e narrativas.

Hoje, embora viva profissionalmente em ou tro estado, Donna mantém a identificação com o lugar onde cresceu. “Eu fui criada e estudei no Espírito Santo, me considero capixaba. Quando me perguntam, eu falo que eu sou capixaba, meu sotaque é capixaba”, afirma.

Donna é filha de pastor e cresceu na igreja

Donna é filha de pastor e cresceu na igreja
Acervo pessoal
Da escola pública à sala de roteiristas

A aproximação com o audiovisual aconteceu aos poucos. Durante a pós-graduação em Jornalismo Literário, Donna percebeu que gostava especialmente da construção de personagens e dos recursos narrativos usados para contar histórias reais. A partir daí, começou a se interessar pela ficção.

A oportunidade de entrar no mercado de roteiros surgiu de maneira inesperada. Enquanto morava em uma república em São Paulo, ela fez amizade com roteiristas de uma produtora instalada na mesma rua. Eles pediram para ler o que escrevia e passaram a compartilhar os próprios roteiros com ela. Foi assim que começou a conhecer, na prática, o trabalho de desenvolvimento de séries.

É uma coisa de sorte um pouco, né? De estar no lugar certo, na hora certa, literalmente estar na rua certa

Donna, porém, sabe que chegar àquele espaço não foi simples. Vinda de uma família de classe média baixa, sem contatos profissionais na capital paulista, ela precisou construir sua trajetória em um setor que ela considera fechado e marcado por barreiras de acesso.

“Eu me sinto muito sortuda de ter conseguido ser uma pessoa de outro estado, não ter nenhuma raiz em São Paulo, não ter nenhum contato em São Paulo, nem nada assim, e, com o meu trabalho, ter conseguido ir galgando aos poucos essa posição, esse lugar no audiovisual”, diz.

O curta Reteté, escrito e dirigido por Donna Oliveira, foi selecionado para a Première Brasil do Festival do Rio de 2026

O curta Reteté, escrito e dirigido por Donna Oliveira, foi selecionado para a Première Brasil do Festival do Rio de 2026
Acervo pessoal

A roteirista destaca que a presença de profissionais com diferentes origens sociais ajuda a ampliar as histórias contadas nas telas. Para ela, é importante que pessoas que cresceram longe dos grandes centros de produção também consigam se reconhecer nas narrativas do entretenimento brasileiro.

“Eu gosto que minha família possa ver o que eu escrevo, que as pessoas que vêm de onde eu venho possam ver o que eu escrevo e se interessar por aquilo”, afirma.

Trabalhos em grandes plataformas e indicação ao Emmy

Ao longo de 13 anos de carreira, Donna participou de produções de diferentes gêneros e formatos. Entre elas estão as temporadas 3 e 4 de Sintonia, série da Netflix que acompanha jovens da periferia de São Paulo, e Sutura, thriller médico do Prime Video que chegou a ser selecionado para o Berlinale Series Market e ficou entre os finalistas do Prêmio ABRA de Roteiro de 2025.

Também integrou as equipes de Santo Forte, 171: Negócio de Família, A Garota da Moto e Escola de Gênios. Na não ficção, foi roteirista-chefe de O Prazer é Meu, produção do Globoplay sobre o prazer feminino que recebeu indicação ao Emmy Internacional de 2025, na categoria Documentário. A lista de trabalhos inclui ainda A Mensageira, websérie que escreveu, dirigiu e produziu e que recebeu o prêmio de Melhor Ideia Original no Rio Webfest de 2022. 

A indicação ao Emmy teve um significado especial. Para Donna, ver uma produção centrada nas experiências de mulheres brasileiras alcançar uma premiação internacional foi também uma forma de reconhecer a importância de contar histórias que nem sempre recebem o mesmo espaço na indústria audiovisual.

É uma série que fala sobre o prazer feminino e que traz temas muito complexos de uma forma pop, palatável e engraçada, porém muito profunda e informativa

Ela destaca ainda a participação de uma equipe formada por mulheres brasileiras e considera simbólico que uma obra sobre sexualidade e experiências femininas tenha chegado a uma disputa internacional ao lado de produções com outras temáticas.

Cena de "O Prazer é Meu", produção do Globoplay

Cena de “O Prazer é Meu”, produção do Globoplay
Reprodução Globoplay

“Eu senti ali que toda a minha rebeldia, toda a minha busca por ser uma pessoa emancipada, uma pessoa que tem algo a dizer, uma pessoa que se coloca, uma pessoa que tem coragem, foi uma coroação disso”, afirma.

As próprias origens como matéria-prima

A trajetória de Donna também é atravessada pela relação com a família e com o universo religioso em que cresceu. Filha de pastor, ela foi criada em uma família evangélica, mas deixou a igreja ainda na adolescência. Essa experiência se tornou uma referência importante para a construção de personagens e para a abordagem de temas como fé, conservadorismo, relações familiares e liberdade feminina.

“Eu virei uma certa referência nesse lugar de retratar esse meio, porque eu vim de dentro dele”, conta.

A intenção, explica, não é retratar essas comunidades de maneira caricata, mas explorar suas contradições e apresentar personagens com diferentes camadas. Essa perspectiva aparece em Santo Forte e em outros projetos de sua carreira, além de estar presente em Reteté, curta-metragem capixaba que ela escreveu e dirigiu.

A produção nasceu de experiências pessoais e se passa em uma comunidade religiosa neopentecostal. A história acompanha uma mãe e uma filha em um ambiente conservador, abordando os conflitos entre as regras da comunidade, a liberdade infantil e a autonomia das mulheres.

Cena do curta "Reteté"

Cena do curta “Reteté”
Reprodução filme

“Eu nasci numa igreja como é retratada no filme”, conta Donna, que explica que o curta também nasceu do desejo de contar histórias de pessoas que não se sentem pertencentes ao ambiente em que cresceram.

Para ela, a obra propõe uma conversa com diferentes públicos, inclusive com pessoas que compartilham os valores conservadores retratados no filme. A intenção é estimular reflexões, sem reduzir os personagens a julgamentos simplistas.

O Espírito Santo continua presente nas telas

Mesmo com a carreira construída em São Paulo, Donna procura levar o Espírito Santo para suas produções sempre que possível. Em Rauls, série da Netflix que integra seus trabalhos mais recentes, uma personagem chamada Patrícia tem origem em Nova Venécia. Embora as cenas tenham sido filmadas no interior paulista, a cidade capixaba faz parte da história da personagem.

A roteirista também comemora a possibilidade de produzir cinema no estado. Reteté foi realizado com apoio de um edital da Secretaria da Cultura do Espírito Santo (Secult), teve filmagens com atores de Vitória e foi selecionado para a Première Brasil do Festival do Rio de 2026.

Donna vê o projeto como uma oportunidade de fortalecer a produção local e ampliar a circulação de histórias capixabas. O objetivo, segundo ela, é levar o curta a outros festivais e contribuir para que o cinema produzido no estado alcance novos públicos.

“Eu fiquei muito feliz de poder fazer isso, filmar com atores de Vitória, fomentar o audiovisual de Vitória”, afirma.

A roteirista também lembra que, quando era criança em Nova Venécia, a cidade não tinha cinema em funcionamento. O contato com esse universo só aconteceu mais tarde, quando se mudou para Vitória. Hoje, participar de produções exibidas em grandes plataformas e festivais internacionais representa uma mudança significativa em sua relação com o próprio audiovisual.

Então, sempre que eu posso, eu trago o Espírito Santo comigo nas minhas obras

Histórias que ampliam a representação

Bastidores das gravações da série "Habeas Corpus"

Bastidores das gravações da série “Habeas Corpus”
Acervo pessoal

Em seus projetos, Donna transita entre o drama jurídico, o thriller, a comédia e a não ficção. Um dos trabalhos mais recentes é Habeas Corpus, série da Netflix da qual é cocriadora e roteirista, inspirada no trabalho do Innocence Project Brasil. A produção aborda possíveis erros judiciais e os dilemas envolvidos na busca por justiça. 

Mais do que se prender a um gênero, porém, a roteirista procura desenvolver histórias que dialoguem com públicos diferentes e tragam perspectivas pouco exploradas. Para ela, as experiências pessoais não precisam limitar o alcance de uma narrativa; podem, ao contrário, abrir caminhos para que outras pessoas conheçam realidades que desconheciam.

A menina que cresceu no interior capixaba e descobriu o cinema apenas no fim da adolescência encontrou na escrita uma maneira de conectar mundos. Entre grandes produções de streaming e um curta realizado no Espírito Santo, Donna segue construindo uma carreira que leva para as telas personagens, conflitos e vivências que também fazem parte de sua própria história.

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Fonte: A Gazeta

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