Conheça os alvos da Operação Unha e Carne 8
Por Leonardo Lucena — Brasil 247
247 – O ex-prefeito de Belford Roxo Márcio Canella (União Brasil), eleito deputado estadual com a segunda maior votação do Rio de Janeiro nas eleições de 2026, e o delegado Marcus Amim, ex-secretário estadual de Polícia Civil, foram presos nesta quinta-feira (15) durante a oitava fase da Operação Unha e Carne, da Polícia Federal (PF). Investigadores atribuíram ao político a articulação institucional de um suposto esquema de lavagem de dinheiro que utilizava uma rede de postos de combustíveis e movimentou R$ 7,6 bilhões entre 2020 e 2026. Os relatos foram divulgados no G1.
Márcio Correia de Oliveira, conhecido como Márcio Canella, construiu sua trajetória política em Belford Roxo, município da Baixada Fluminense que administrou antes de conquistar uma cadeira na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Nas eleições de 2026, obteve a segunda maior votação para deputado estadual no estado.
De acordo com a Polícia Federal, o ex-prefeito exercia uma função de articulação entre integrantes do poder público e responsáveis pela rede de postos investigada. A apuração sustenta que ele participava da construção de relações políticas capazes de favorecer os interesses econômicos do grupo.
Entre os episódios examinados está a participação atribuída a Canella na indicação de Marcus Amim para a presidência do Departamento de Trânsito do Estado do Rio de Janeiro (Detran-RJ). Posteriormente, Amim assumiu o comando da Secretaria de Polícia Civil.
Os investigadores também identificaram movimentações financeiras relacionadas ao ex-prefeito. Segundo a apuração, Canella recebeu aproximadamente R$ 2,59 milhões em créditos da Brumar Empreendimentos, além de mais de R$ 139 mil em dinheiro vivo. A PF afirma que não conseguiu esclarecer a origem desses recursos.
A investigação resultou no indiciamento de Canella pelos crimes de organização criminosa armada e lavagem de dinheiro. O indiciamento representa uma conclusão da investigação policial sobre os indícios de participação nos delitos, mas não equivale a uma condenação judicial.
Por meio de seus advogados, Rafael Alves de Oliveira e Sheila Lustoza, o político manifestou confiança no esclarecimento das acusações. “Confio em Deus e na Justiça e tenho certeza de que tudo será esclarecido”, declarou Canella.
Ex-secretário da Polícia Civil também está entre os presos
Marcus Vinicius Amim Fernandes, delegado que presidiu o Detran-RJ e posteriormente comandou a Secretaria de Polícia Civil, também aparece entre os principais investigados.
A PF suspeita que Amim utilizava sua posição na administração estadual para oferecer proteção institucional às atividades do grupo. Os investigadores também o identificam como possível sócio oculto do posto Gasmix Alcântara, ao lado dos irmãos Christiano e Giovanni Gaspar Fernandes.
Outro ponto da apuração envolve a Mamim Consultoria, empresa ligada ao delegado. Segundo a PF, a companhia recebeu R$ 1,821 milhão da ADM Oil por meio de um contrato de consultoria que os investigadores consideram fictício.
O advogado Thiago Minagé, responsável pela defesa de Amim, informou que aguardava acesso ao cliente e ao conteúdo integral da decisão judicial antes de apresentar esclarecimentos.
Inspetores são apontados como operadores da rede de combustíveis
A investigação atribui ao inspetor da Polícia Civil Pablo Jukiá Felix Ferreira, conhecido como Pablo Russo, um papel na administração dos estabelecimentos comerciais.
Segundo a PF, ele atuava diretamente em mais de 20 postos e exercia controle sobre aproximadamente 43 unidades da bandeira BR. Embora os registros empresariais indicassem outras pessoas como proprietárias, os investigadores sustentam que Pablo comandava parte das operações.
A apuração também aponta que o inspetor recebia antecipadamente informações sobre fiscalizações do Procon e da Secretaria Estadual de Defesa do Consumidor. O acesso ocorreria por intermédio de um advogado e permitiria ao grupo conhecer agendas internas dos órgãos fiscalizadores.
Pablo Russo foi indiciado por organização criminosa armada, corrupção ativa, violação de sigilo funcional, venda ilegal de combustíveis, formação de cartel e lavagem de dinheiro.
Outro inspetor investigado é José Carlos Alves de Souza Júnior, conhecido como Júnior. A PF afirma que ele administrava parte dos recursos financeiros do grupo, apesar de não constar formalmente como sócio ou responsável pela maioria das empresas.
Os investigadores suspeitam que Júnior utilizava o nome de sua mulher, Luisi Correa Pinho, para ocultar a participação nos negócios. Ele também teria atuado na distribuição de recursos entre integrantes da organização e agentes públicos. A apuração atribui ainda ao inspetor ameaças contra um ex-sócio que cobrava a devolução de valores investidos.
Secretário municipal de Belford Roxo aparece na investigação
Inspetor da Polícia Civil e secretário municipal de Ordem Urbana de Belford Roxo, Christiano Gaspar Fernandes também teve a prisão preventiva decretada.
Segundo a investigação, Christiano mantinha participação oculta no posto Gasmix Alcântara, juntamente com seu irmão, Giovanni Gaspar Fernandes, que também integra os quadros da Polícia Civil.
A PF identificou registros de transferências financeiras relacionadas ao estabelecimento e afirma que os irmãos apareciam em anotações sob o codinome “Meninos”. No caso de Giovanni, os investigadores também examinam operações da Vitaserv, empresa ligada à sua mulher, Taissa Burgos Fernandes.
De acordo com a apuração, a companhia emitiu R$ 200 mil em notas fiscais por serviços de jardinagem destinados a Luisi Correa Pinho. A Polícia Federal suspeita que os documentos registravam serviços fictícios e destaca que a empresa não mantinha empregados formalmente registrados.
O advogado Ubiratan Guedes, representante dos irmãos, afirmou que ainda não havia recebido acesso ao processo e que seus clientes demonstraram surpresa com as prisões. “A única coisa que temos conhecimento é da prisão. Mais nada”, declarou. Conforme a defesa, ambos seriam encaminhados à Cadeia Pública José Frederico Marques, em Benfica, na Zona Norte do Rio.
Operação também investiga outros seis suspeitos
Além dos seis investigados que tiveram a prisão preventiva decretada, a PF incluiu outras seis pessoas nos mandados de busca e apreensão. Entre elas está Glaucio Paz da Silva, que sucedeu Marcus Amim na presidência do Detran-RJ. Segundo os investigadores, seu nome aparece em registros manuscritos relacionados a possíveis repasses financeiros provenientes dos postos investigados.
Dimitri Alecrim Gomes Gaudard Tavares também integra a lista. A PF suspeita que ele auxiliava José Carlos Alves de Souza Júnior na movimentação e ocultação de recursos. A apuração identificou transferências de Luana Oliveira para Dimitri que totalizaram R$ 93.062,84, consideradas pelos investigadores compatíveis com pagamentos não declarados.
Outro alvo é Fábio Henrique Ferreira dos Santos, escrivão da PF que sofreu afastamento cautelar de suas funções. A investigação aponta que ele teria transmitido informações sigilosas a Pablo Russo na véspera da sexta fase da Operação Unha e Carne, realizada em julho.
A comunicação ocorreu por mensagens que desapareciam automaticamente após 24 horas. A lista inclui ainda Diogo Dantas Aguiar, sobrinho de uma sócia da Opção Ativa. A empresa aparece em uma investigação sobre contratação direta irregular e movimentação de recursos públicos entre integrantes de um mesmo grupo familiar. Os investigadores identificaram transferências de R$ 160.773 para Diogo dentro desse circuito financeiro.
Gabriel da Silva Bastos, conhecido como Calcinha, também figura entre os investigados. A PF suspeita que ele compartilhava com Pablo Russo o gerenciamento da DAGG Tavares Projetos Estruturais, incluindo informações sobre o acesso à empresa e pagamentos provenientes de contratos públicos. Gabriel também teria utilizado a conta bancária da mãe para pagar despesas pessoais de Pablo.
Outro nome é Marcio Samary Machado, conhecido como Marcio Nit. Segundo a investigação, Pablo Russo encaminhou a ele um boleto de R$ 748.689,86 emitido em nome de uma terceira pessoa.
No dia seguinte, Marcio teria enviado um comprovante de pagamento de valor semelhante, efetuado por uma empresa de terceiros.
A PF também identificou uma empresa ligada a Marcio que forneceu kits escolares em um contrato executado no mesmo período de uma campanha publicitária de Márcio Canella.
Moraes determina bloqueio de bens e suspensão de empresas
As medidas judiciais da oitava fase da Operação Unha e Carne partiram de uma decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.
Além das prisões e buscas, o magistrado determinou o sequestro de bens e valores e a suspensão das atividades econômicas de 112 empresas investigadas. Desse conjunto, 96 correspondem a postos de combustíveis e revendas associadas.
As diligências alcançaram os municípios do Rio de Janeiro, Nova Iguaçu, Niterói, São Gonçalo, Petrópolis, Angra dos Reis e Armação dos Búzios.
A investigação integra o contexto da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 635, conhecida como ADPF das Favelas. Entre as providências relacionadas ao processo está a atuação da Polícia Federal na apuração de possíveis vínculos entre agentes públicos e organizações criminosas no estado.
Mais detalhes da operação
A Operação Unha e Carne teve início em dezembro de 2025 e avançou ao longo de 2026 com novas diligências sobre a atuação de integrantes do poder público e estruturas empresariais.
Na sexta fase, em 7 de julho, policiais federais cumpriram 19 mandados de busca e apreensão. Na ocasião, Canella e Marcus Amim já estavam entre os alvos da investigação.
Durante as diligências de julho, agentes encontraram um fuzil no veículo de Canella, circunstância que levou à prisão do político naquele momento.
A oitava etapa concentra a apuração nas relações entre a rede de combustíveis, os operadores financeiros e os agentes públicos que supostamente facilitaram o funcionamento do esquema.
Fonte: Brasil 247