Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital

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A Nova geração de deputados progressistas alia o domínio das redes com a vivência nas ruas

Existe uma mensagem clara nos resultados do primeiro turno das eleições do ­País? Para Ana Júlia, sim: “É um recado bem nítido de que o momento da política mudou”. Eleita deputada federal pelo PT no Paraná com 184.691 votos, a jovem de 26 anos é uma das apostas do presidente Lula para renovar a bancada petista na Câmara Federal. A apuração das urnas no domingo 4 demonstrou que o projeto de renovação surtiu efeito: tanto a Federação Brasil da Esperança (PT, PCdoB e PV) quanto a Federação PSOL/Rede despontam com caras novas para o Parlamento a ser empossado em janeiro de 2027. A oxigenação demonstra que, apesar do placar apertado entre Lula e Flávio Bolsonaro, o campo progressista mantém seu poder de tração popular com uma nova safra de lideranças jovens e combativas, forjada no trabalho concreto de base em seus territórios.

Entre os eleitos estão a petista Ana Elisa, de Minas Gerais, a mais jovem deputada federal da história, com 21 anos. Os mineiros também elegeram Pedro ­Rousseff, ativista político e até então vereador de Belo Horizonte pelo PT. Em Pernambuco, foram eleitos o historiador e comunicador popular Jones Manoel, pelo PSOL, e a militante sem-terra Rosa Amorim, pelo PT. No Rio de Janeiro, o geógrafo, professor e intelectual marxista Elias Jabbour também foi alçado ao Congresso pelo PCdoB, partido que elegeu também Giovana Mondardo, que era vereadora em Criciúma, no reduto bolsonarista de Santa Catarina. Já em São Paulo a vereadora Luna Zarattini foi a candidata mais votada do PT e o deputado estadual Guilherme Cortez, do PSOL, também conquistou a sua vaga. No Paraná, ao lado de Ana Júlia, Renato Freitas também deixa a Assembleia Legislativa para seguir com a postura combativa em Brasília.

De origens sociais distintas, eles têm em comum uma forte presença nas redes sociais. E, imediatamente após as eleições, foram convocados para conversar com o presidente e bolar estratégias de campanha. Ana Elisa, que viralizou já na segunda 5 com um vídeo que alertava para a necessidade de dar a mesma atenção ao Instagram e ao ­TikTok que se dá às ruas, chegou a dizer no encontro que o partido precisa “calçar as sandálias da humildade”. Cortez avalia que as urnas forçaram uma renovação: “O eleitor progressista preferiu candidaturas mais jovens e combativas, capazes de fazer o debate pelas redes sociais com uma linguagem contemporânea”. Rosa Amorim identifica “um sentimento muito profundo de mudança”. Cria de Piraquara, região periférica de Curitiba, Freitas faz um trabalho de base nas periferias com cozinhas comunitárias, oficinas de hip-hop e laboratórios de informática. Acredita que “o maior desafio não é a transição geracional nos partidos, e sim formar quadros independentes da burocracia partidária”. Ana Júlia despontou como uma liderança estudantil durante as ocupações das escolas públicas em 2016, quando os estudantes se posicionavam contra o Novo Ensino Médio. “A forma como a sociedade se organiza, se comunica e se mobiliza mudou, e o campo progressista precisa acompanhar essa mudança”, avalia.

“Futuro não é Bolsa Família, ser de esquerda hoje no Brasil é ter um discurso radical pela reindustrialização”, diz Elias Jabbour

Com mais de 2 milhões de seguidores no Instagram, Jones Manoel tornou-se um dos mais relevantes comunicadores populares do País. A partir de sua experiência, vê na sociedade “um desejo político de reconfiguração da esquerda radical e um cansaço generalizado com a conciliação de classes”. Jabbour e Mondardo avaliam que as urnas demonstraram um eleitorado sedento por alternativas reais de futuro. “O presidente mobiliza sentimentos de gratidão e memória. Mas precisa mobilizar o hoje e olhar para essa juventude que está submetida ao subemprego. É justamente a geração que precisa ter perspectiva”, alerta a deputada.

Além do domínio das redes sociais, os novos quadros levam ao Parlamento o acúmulo de experiência das ruas, dos movimentos sociais e da vivência nas periferias. Para Rosa Amorim, o momento não é de amenizar o discurso, pelo contrário, é demonstrar claramente qual foi a agenda capaz de mobilizar o eleitorado. “Não sou apenas uma sem-terra eleita ­deputada federal. Sou uma sem-terra lésbica, trago o sentimento de esperança e a voz de quem construiu a luta no território.” O conterrâneo Jones Manoel revela que o rap foi fundamental para a sua formação política e hoje usa essa ferramenta para angariar novos jovens. “Uma boa parte desses votos da periferia do Recife se deve à compreensão de que a batalha de rima hoje é central.” Essa construção coletiva quebra a lógica do “vote em mim e vá para casa”, explica, porque dá a sensação de pertencimento a um movimento contínuo, não voltado apenas para os períodos eleitorais. Na mesma linha, Freitas acredita que o vínculo comunitário é o caminho. “O povo não se afasta do partido, se afasta da prática partidária encastelada. Para criar laços reais, precisamos estar nas comunidades de igual para igual.”

Todos eles concordam que essa campanha foi atípica. Cortez qualifica como um processo eleitoral “silencioso” e pautado pela crise no Supremo Tribunal Federal. Ao circular por centenas de municípios, identificaram apatia da população e um profundo descontentamento social com a política. Para romper com esse sentimento, avaliam, é necessário apresentar perspectivas de futuro com mobilidade social. Jones Manoel elenca as prioridades de uma agenda de reformas profundas: “A classe trabalhadora tem fome de futuro. Pautas como o fim da escala 6×1, a tarifa zero no transporte público e a criação de empregos por meio da reindustrialização têm um apelo gigantesco”. A defesa da base material reaparece na análise de Jabbour, para quem o desenvolvimento industrial representa a única via concreta de ascensão. “Futuro não é Bolsa Família, futuro é emprego industrial de qualidade, com rendimento de quatro a seis salários mínimos. Ser de esquerda hoje no Brasil é ter um discurso radical pela reindustrialização”, lembra.

Renato Freitas e Jones Manoel apostam no vínculo comunitário, enquanto Pedro Roussef acredita no foco em segurança pública – Imagem: Redes Sociais

“O político tem de ter o espírito do seu tempo”, afirma Mondardo, que em sua campanha em Santa Catarina apresentou propostas de geração de emprego digno e desenvolvimento tecnológico. “Sou do time que discute as demandas da vida concreta: o buraco na rua, o transporte coletivo, o aluguel caro e a eficiência do Estado para quem decidiu empreender por necessidade ou sonho.” Em São Paulo, Cortez destaca o impacto da luta pelo fim da escala 6×1. “Por que deu tão certo? Viver além de trabalhar é uma necessidade concreta da população.” De acordo com ele, hoje o preço exorbitante dos aluguéis e a falta de perspectiva de ter uma casa própria são problemas que atingem diretamente os jovens. “O preço da moradia não afeta só a pessoa que chega em situação extrema e vai parar na rua. É também um problema para quem quer sair da casa dos pais, mas para morar com dignidade numa metrópole ou numa capital, paga-se mais de 4 mil reais num cubículo. É preciso barrar a especulação imobiliária.”

Pedro Rousseff avalia que a campanha de Lula errou e precisa mudar o tom imediatamente: “Ou a gente dá um cavalo de pau no discurso relacionado à segurança pública ou nós vamos passar o resto dessas eleições com a pecha de que o PT defende bandido, coisa que não é verdade”. Para ele, o campo progressista precisa adotar um discurso mais direto e simples de combate à criminalidade e estar mais atento às demandas urgentes. “O povo quer saber de comida barata, gasolina barata e segurança pública.” Em uma sociedade cada vez mais individualizada, seja pelos algoritmos, seja pelo home office, Ana Júlia defende “voltar a focar em causas estruturais, com propostas comunitárias e solidárias que enfrentem as raízes da desigualdade”.

O Congresso eleito este ano já é considerado o mais conservador desde a redemocratização. O PL, partido de extrema-direita de Jair Bolsonaro, conquistou a maior bancada da história, com 121 parlamentares, entre eles, os dois mais votados do país, Nikolas Ferreira, de Minas, e Lucas Pavanato, de São Paulo, que, juntos, arrebataram 6 milhões de votos. A agenda deles resume-se a infernizar os opositores políticos e proibir coisas que não existem, como “a esterilização de crianças trans”. Para neutralizá-los, Ana Júlia rejeita a postura defensiva: “A direita promove o medo e o pânico moral. Neste momento, as pessoas não se importam apenas com as entregas de um governo, pois fazer um bom governo não é mais que obrigação. Elas querem ver quem defende os seus valores”. O colega paranaense acredita que é momento de voltar a falar de reforma agrária e urbana: “São temas importantes de ser resgatados, claro, atacaria um setor da burguesia, mas com isso Lula teria um grande apoio”.

“A força do combate à extrema-direita depende do poder de pressão das ruas para travar os retrocessos no Parlamento”, diz Jones Manoel, eleito por pernambuco

Cortez, por sua vez, defende a postura antissistema sem timidez ideológica: “A extrema-direita performa um discurso antissistema, enquanto setores do nosso campo mantêm o constrangimento em fazer essa crítica. Defender entregas de forma puramente racional não basta, pois a direita criou um mal-estar coletivo sobreposto à realidade”. Giovana Mondardo reitera a necessidade de desmascarar falsas polêmicas em vez de discutir “o sexo dos anjos”, enquanto Pedro Rousseff promete combate firme na tribuna para desmentir declarações extremistas. Para Jabbour, a superação do fascismo exige enfrentar o dogma neoliberal: “O fascismo prospera onde as pessoas perdem a capacidade de ter esperança e mobilidade social. Sem uma alternativa clara ao neoliberalismo, ficamos reféns da guerra cultural deles”. A força desse combate, acrescenta Jones Manoel, depende do poder de pressão das ­ruas para travar retrocessos no Parlamento.

O cenário eleitoral desfavorável ao candidato petista, que terminou o primeiro turno com 45,16% dos votos, ante os 47,03% de Flávio Bolsonaro, não assusta os novos deputados. Na reta final da disputa, eles acreditam que a virada de votos passa pela mobilização de quem se absteve e dos indecisos, mediante propostas de presente e futuro. É preciso também fazer o básico, alerta Freitas: “Nos comitês de campanha no Paraná não chegou material, não tinha panfletos e adesivos de Lula, isso não pode acontecer”.

Ana Júlia e Pedro Rousseff apontam a necessidade de dialogar com quem se afastou das urnas e oferecer razões reais para o voto, em vez de focar apenas em conquistas antigas. Na visão de Cortez, Jones Manoel e Rosa Amorim, a reconexão com o eleitorado exige colocar pautas populares no centro da mensagem, unindo a comunicação digital dinâmica à presença combativa nas ruas para devolver a esperança ao País. Jabbour é enfático ao alertar que a campanha precisa recalcular a rota imediatamente: “A campanha do primeiro turno foi para mostrar legado e biografia. Deu errado. Precisa mudar”. •

Publicado na edição n° 1434 de CartaCapital, em 14 de outubro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Como vai ser o amanhã’


Mariana Serafini

Repórter da edição semanal de ‘CartaCapital’

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Fonte: Carta Capital

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