Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital

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Pressionado pela crise da habitação, Pedro Sánchez dissolve o Parlamento e antecipa as eleições

O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, anunciou a dissolução do Parlamento e a antecipação das eleições parlamentares para 29 de novembro. O anúncio foi feito na segunda-feira 5, em discurso no Palácio da Moncloa, residência oficial e sede do Executivo, em Madri. A intenção do longevo líder socialista, no poder ininterruptamente desde 2018, é formar “uma maioria progressista bem maior” que a atual, mas o risco de retrocesso para a legenda dele, o Partido Socialista Operário Espanhol, não é pequeno.

O motivo da reviravolta no calendário eleitoral da Espanha é o preço dos aluguéis. Ao dissolver o Parlamento atual e antecipar as eleições, Sánchez espera conseguir apoio massivo do eleitorado, que amplie sua bancada atual e renove seus poderes como primeiro-ministro, revestindo de maior força e legitimidade as políticas que a esquerda busca implementar para conter a alta no custo da moradia, especialmente na capital e nas grandes cidades da Espanha.

Em regimes parlamentaristas, como o espanhol, a dissolução do Parlamento é um recurso previsto em lei, ao contrário de regimes presidencialistas, como o do Brasil, nos quais a dissolução do Congresso pelo chefe do Executivo corresponderia a um golpe de Estado. No caso da Espanha – assim como no de outros países europeus que funcionam no mesmo sistema, como o Reino Unido e a Alemanha –, o primeiro-ministro põe em jogo seu próprio mandato ao dissolver o Parlamento e antecipar eleições nacionais: sua bancada pode tanto sair ampliada e fortalecida quanto pode diminuir e inviabilizar sua permanência no cargo, obrigando-o a dar a vez para o líder de uma nova maioria que venha a se formar. A manobra é sempre arriscada, porque pode levar a um jogo de tudo ou nada. Em maio de 2024, por exemplo, o premier conservador britânico Rishi ­Sunak tentou algo semelhante ao que Sánchez está fazendo, mas acabou perdendo a maioria para os rivais trabalhistas, que emplacaram Keir Starmer no lugar dele e permaneceram no poder desde então.

Imagem: Borja Puig de Bellacasa/Palácio de La Moncloa

No caso de Sánchez, a cólera dos espanhóis com o aumento do custo de vida – e, particularmente, com o preço dos aluguéis – é o que faz o atual premier acreditar que possa sair com ainda maior respaldo das urnas. Um dos termômetros desse ambiente é o acampamento montado, desde setembro, na Porta do Sol, marco zero de Madri. Há mais de um mês, um grupo de, aproximadamente, mil pessoas se instalou nesse ponto turístico e central da capital espanhola para protestar contra a explosão no custo da moradia. O estopim foi um episódio dramático envolvendo o despejo de uma idosa de 87 anos, que se tornou símbolo dessa campanha. María del Carmen Abascal viveu no mesmo apartamento, na capital espanhola, por 70 anos, até ser despejada depois que um grande fundo de investimentos adquiriu o imóvel e obteve na Justiça ganho de causa para uma ordem de remoção cumprida à força. A idosa foi retirada de casa em uma maca e internada em um hospital.

O preço dos aluguéis mais que dobraram no país na última década. O crescimento, muito acima do salário, expôs milhares de pessoas à vulnerabilidade, alimentando a insatisfação popular e uma onda de manifestações de rua que relembra os protestos de 2011, que chacoalharam o país, em reivindicações contra as políticas de austeridade econômica. ­Maricarmen, como é conhecida a idosa despejada, virou símbolo desse drama. Um dos vídeos gravados por ela, do leito do hospital, tornou-se emblemático para os inquilinos engajados no movimento por moradia: “Sejam corajosos, lutem, defendam o que é de vocês e, por favor, cuidem de si mesmos. Continuem acampados enquanto seus corpos aguentarem e enquanto quiserem. Esperamos que tudo isso termine bem amanhã”.

O gabinete de Sánchez encaminhou em regime de urgência dois projetos de lei sobre moradias ao Parlamento, mas ambos foram derrubados pela oposição, que, sob a liderança do direitista Partido Popular, acompanhado da extrema-direita do Vox, detém 169 assentos, contra apenas 121 do PSOE de Sánchez. As medidas visavam aumentar a proteção dos inquilinos contra a especulação imobiliária: o primeiro projeto pretendia estender até 2030 a atual proibição de despejo de pessoas vulneráveis, enquanto o segundo limitava a aquisição de imóveis por parte de grandes fundos de investimento que destinam esses imóveis para locação turística de curtíssima duração. O primeiro projeto foi rejeitado por uma diferença de 6 votos e o segundo, por 18.

O primeiro-ministro espanhol viu suas medidas contra a especulação imobiliária em regime de urgência serem derrubadas pela oposição

A direita e a extrema-direita espanholas dizem não temer a antecipação das eleições. Ambos acreditam ter condições de ampliar sua própria maioria parlamentar, defenestrando Sánchez e o PSOE do poder. O líder do direitista PP, Alberto Nuñez Feijoo, diz que Sánchez não tem “o Parlamento nem as ruas”, enquanto Santiago Abascal, nome forte da legenda radical Vox, diz estar “pronto para as eleições”. Nenhum dos dois é contra a cólera dos que protestam pela redução do custo dos aluguéis. O que eles dizem é que a situação chegou onde está porque Sánchez e a esquerda tentaram solucionar com dois projetos de lei apresentados em poucos dias uma crise protelada por oito anos.

O pior, para Sánchez, é que muitos prefeitos socialistas de cidades pequenas, que passarão por eleições locais em maio de 2027, temem ter de pagar a fatura política da briga que se desenrola no plano nacional. “Eu sei que uma parte dessa maioria social está insatisfeita hoje”, reconhece Sánchez, admitindo, inclusive, que seu governo “cometeu erros” e tem “muitas injustiças a corrigir”.

Em alguma medida, a situação dos socialistas espanhóis é semelhante à de outros líderes de esquerda pelo mundo, que se veem punidos por não conseguir oferecer respostas satisfatórias aos problemas inerentes a um capitalismo cada vez mais voraz. Estando no governo – especialmente por períodos longos, como é o caso de Sánchez –, é previsível que uma população insatisfeita e encolerizada possa querer passar a conta ao líder de turno, mais do que à oposição. O agregador de pesquisas eleitorais da RTVE dava esta semana vantagem ao PP (137 assentos) em relação ao PSOE (104). Outra legenda que cresceria é o Vox, que aparece com 65 cadeiras na projeção, contra as 33 que detém atualmente. •

Publicado na edição n° 1434 de CartaCapital, em 14 de outubro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Antes que o teto desabe’


João Paulo Charleaux

Jornalista, escritor e analista político. Autor de “As Regras da Guerra” (Zahar). Escreve sobre direito internacional dos conflitos armados e questões humanitárias.

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Fonte: Carta Capital

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