Como a Expedia copiou o modelo da Amazon e encareceu os hotéis em todo o mundo
Por Cory Doctorow — Núcleo Jornalismo
Artigo publicado originalmente no site Pluralistic, em inglês. Traduzido e republicado pelo Núcleo sob licença Creative Commons, com concordância do autor. O texto manteve sua formatação original.
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Não importa o lugar em que você faz compras: a Amazon está te ferrando. A empresa de varejo online deu um jeito de encarecer tudo o que você consome, seja na Target, na lojinha do bairro ou direto do fabricante. E não está sozinha: a Expedia fez a mesma coisa, mas com quartos de hotel.
Veja como a Amazon quebrou a economia. Primeiro, ela fidelizou um grupo primordial de consumidores. A grande maioria ricos nos EUA tem conta com Amazon Prime. Como já pagaram por um ano de frete adiantado, esses assinantes começam sua jornada de compra pela busca da Amazon e, se encontram o que procuram, o processo acaba ali.
O decil mais rico dos Estados Unidos, os 10% no topo, responde pela maior parte do consumo online do país, um fenômeno que foi acelerado pela queda vertiginosa dos EUA em uma oligarquia, algo que esgotou as economias, os limites de cartão de crédito e o patrimônio imobiliário da maioria dos americanos, cada vez mais sem condições de comprar qualquer coisa:
Quem quer vender algo nos EUA precisa vender onde o decil mais rico compra, e esse lugar é a Amazon. Para os lojistas, essa brincadeira sai bem cara: 51%-60% de cada dólar gasto por um vendedor independente na Amazon fica com a própria Amazon, via taxas abusivas, taxas de listagem, comissões, taxas de processamento e outros golpes:
>> pluralistic.net/2026/09/04/cheating-at-fraud/#absentee-rentier
Lojista nenhum tem margem de 51% a 60% para ceder à Amazon. Para continuar viável, ele precisa subir os preços. A Amazon não se importa que os preços subam, contanto que o preço dela continue competitivo. Por isso a empresa impõe aos fornecedores uma exigência chamada “nação mais favorecida” (most favored nation), que obriga o vendedor a oferecer na Amazon o melhor preço que pode cobrar:
>> pluralistic.net/2026/02/25/most-favored-nation/#price-fixing
Na prática, quando você aumenta o preço na Amazon, tem que aumentar em todo lugar na mesma proporção, o que significa que, independentemente de onde você comprar (Target, Walmart, mercadinho da esquina ou direto da fábrica), você acaba pagando o ‘Imposto Amazon’.
O Imposto Amazon é um exemplo clássico de enshittification, aquele processo em que um intermediário (uma empresa que fica entre compradores e vendedores, ou seja, uma “plataforma”) ferra tanto clientes e quanto vendedores para beneficiar a si mesma.
Mas a Amazon não é o único intermediário digital poderoso que usou seu poder de mercado para impor um imposto à economia inteira. Aonde quer que você navegue online, há gigantes que cresceram igual à Amazon (comprando todos os concorrentes) e depois fizeram o que a Amazon faz (pressionando compradores e vendedores, tornando os preços mais altos em todo lugar).
Foi isso que aconteceu com a Expedia. Quase todos os sites de viagem que você encontra foram comprados por ela (Hotels.com, Travelocity e Orbitz). Aqueles que não são subsidiárias da Expedia foram adquiridos pela principal rival, a Priceline (Booking.com, Kayak, Agoda e até o Opentable). Quase todas as reservas de hotel são feitas por uma minúscula minoria de viajantes – em grande parte o mesmo decil rico que a Amazon capturou e fidelizou – e o setor hoteleiro não vive sem esse público, o qual é composto quase integralmente por clientes da Expedia, da Priceline ou das duas. A Expedia responde por 80% de todas as reservas de hotel em valor:
A posição da Expedia, em poucas palavras, é basicamente a mesma da Amazon, então a Expedia está fazendo exatamente o que a Amazon está fazendo: eles cobram altas taxas de hotéis e então forçam esses hotéis a aumentar seus preços em todos os lugares por meio da prática de “nação mais favorecida”:
>>storage.courtlistener.com/recap/gov.uscourts.wawd.369601/gov.uscourts.wawd.369601.1.0.pdf
Acontece que ≠ como Lee Hepner escreve na newsletter BIG – a Expedia descobriu formas de superar o gambito da Amazon. Eles copiaram um dos modelos de negócios mais ensebados da Amazon e o tornaram pior:
>> www.thebignewsletter.com/p/how-expedia-rigs-travel-markets-and
A prática comercial mais ensebada da Amazon é essa: quando você faz uma busca, os primeiros resultados não são os que melhor correspondem ao que você procurou. São os produtos de quem pagou mais pela posição, num “leilão em tempo real” que roda a cada busca. O custo de ganhar esse leilão sai do seu bolso, em preços mais altos: o primeiro resultado de uma busca na Amazon é, em média, 29% mais caro que o melhor resultado. A primeira linha é 25% mais cara. Em média, o produto que melhor responde à sua busca está 17 posições abaixo, na segunda página, onde quase ninguém se dá ao trabalho de olhar:
>> pluralistic.net/2023/11/03/subprime-attention-rent-crisis/#euthanize-rentiers
Essa malandragem é a linha de negócio mais lucrativa da Amazon, mais que a AWS e que o Prime, rendendo à empresa mais de US$ 80 bilhões por ano. E, incrivelmente, a Expedia encontrou um jeito de piorar ainda mais o modelo.
Tal como a Amazon, a Expedia leiloa seus resultados de busca. Eles chamam isso de “Listagem VIP” (VIP listing). Na prática, os hotéis são obrigados a pagar por isso, porque a prática aumenta o volume de reservas em 42% (os dez primeiros resultados de um a busca na Expedia ficam com 62% dos cliques). Aparecer como VIP é caro para o hotel, mas é ainda mais caro para você e para mim.
Isso porque a Expedia exige que os hotéis do programa VIP aumentem seus os preços de 10% a 25% em outros sites… POR TEMPO INDETERMINADO.
Repetindo: para sobreviver, o hotel precisa estar na Expedia. Para sobreviver na Expedia, precisa subir os preços para bancar as taxas abusivas da Expedia, além de subir também seus preços em todos os outros lugares. Mas para realmente sobreviver na Expedia, hotéis precisam entrar no programa VIP, que é ainda mais caro. E, mais uma vez, hotéis na lista VIP precisam inflar os preços em todos os outros canais, POR TEMPO INDETERMINADO. Isso significa que os preços dos hotéis sobem, em toda a economia, acima da inflação, porque a Expedia, que controla 80% do mercado, empurra esses preços para cima.
Isso ajuda muito a explicar por que as diárias nos EUA subiram 58%, da média de US$ 103 por noite em 2020 para US$ 162 em 2025. Explica por que os preços dos hotéis subiram 5% no ano passado, o dobro da inflação. E explica por que as ações da Expedia subiram 65% desde o início da guerra do Irã, fato que a CEO da empresa, Ariane Gorin, atribui a “margens maiores” decorrentes de “preços mais altos”:
>>s202.q4cdn.com/757635260/files/doc_financials/2026/q2/Q2-2026-Earnings-Presentation-Final.pdf
Na cobertura do processo judicial contra a Expedia – que trouxe à tona muitos desses detalhes – Hepner observa que os próprios hotéis passaram por uma cartelização quase total: Hilton, Marriott e Choice International são donas da maioria dos hotéis, depois de uma série de aquisições que passaram quase sem contestação por reguladores antitruste adormecidos em todo o mundo. Essas redes consolidadas também aumentaram os preços e pioraram o serviço, cortando equipes de limpeza e de recepção e deixando as instalações se deteriorarem.
Isso também é característico da monopolização: quando um monopólio assume uma parte da cadeia de suprimentos, as demais partes se consolidam para evitarem serem exploradas pelo novo gigante. Foi a história das editoras de livros que se fundiram para se defender da Borders/B&N, do Walmart e da Costco, e depois da Amazon; e a das agências literárias que se fundiram para resistir ao poder dessas editoras que engordaram.
É também a história da saúde, que respondeu à consolidação na indústria farmacêutica com a fusão de hospitais, as quais, por sua vez, espremeram as seguradoras, que também se consolidaram.
Em todos os casos, quem fica com a pior parte da conta são os trabalhadores desses setores e as pessoas que dependem desses produtos e serviços. Hóspedes de hotéis, leitores e pacientes pagam mais por produtos piores. Escritores, editores, médicos, enfermeiros, funcionários de hotel e camareiras recebem menos e trabalham em condições piores:
>> pluralistic.net/2024/12/18/loose-flapping-ends/#luigi-has-a-point
Não há nada de errado com a ideia de intermediários. A maioria dos escritores não consegue publicar e vender os próprios livros, e poucos viajantes conseguem encontrar hotéis em cidades desconhecidas sem ajuda. O problema é quando o intermediário ganha poder de monopólio – comprando os rivais e capturando compradores e vendedores – e passa a poder espremer os dois lados. Como diz Tim Wu, esse é o momento em que a empresa que deveria ajudar vira predadora, ganha “síndrome de protagonista” e faz de cada transação uma prerrogativa do intermediário, à custa de quem compra e de quem vende:
>> pluralistic.net/2026/08/05/absentee-landlord/
São muitos os motivos para a inflação e a crise do custo de vida: salários estagnados, guerras de escolha no Irã, um cataclisma ambiental após o outro. Mas, escondido atrás desses fatores reais, há um grupo que Matt Stoller chama de “cupins econômicos”, parasitas que infestaram as paredes da nossa economia e a devoram por dentro.
Não dá para resolver isso comprando melhor. Ligar diretamente para os hotéis não adianta: eles precisam estar na Expedia para sobreviver, e, para estar na Expedia, precisam aderir à Listagem VIP, e, para estarem nessa lista, precisam manter os preços mais altos em todo lugar. Para resolver, é necessária ação sistêmica: a pena de morte corporativa para empresas que estão consumindo as vigas de sustentação da nossa sociedade.
Este texto foi traduzido do inglês com auxílio de inteligência artificial e integralmente revisado e editado por editores humanos, seguindo nossa política aberta de uso de inteligência artificial.
Fonte: Núcleo Jornalismo