IAs afirmam que Big Techs podem manipular a eleição sem que você perceba. Por Leonardo Sakamoto

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HAL 9000, o computador de 2001, Uma Odissea no Espaço, de Staley Kubrik

IAs afirmam que Big Techs podem manipular a eleição sem que você perceba. Por Leonardo Sakamoto

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Fiz a mesma pergunta a três das inteligências artificiais mais usadas do mundo: “Uma plataforma conseguiria manipular o debate em sua rede social favorecendo um candidato e prejudicando outro sem que a maioria dos usuários percebesse?”. O ChatGPT, da OpenAI, o Claude, da Anthropic, e o Gemini, do Google, deram a mesma resposta já na primeira palavra: sim.

A pergunta foi feita em modo temporário ou incógnito, tendo desligado todas as preferências, em conta de perfil profissional, com nível de pensamento elevado, pedindo para expor as fontes e como elas chegaram à conclusão.

Nenhuma delas começou com “depende” ou “é um tema complexo”. Num país em que não há consenso nem sobre o formato da Terra, três sistemas criados por empresas concorrentes, treinados de formas diferentes, chegaram ao mesmo diagnóstico. Isso deveria preocupar, ainda mais agora, com o segundo turno batendo à porta.

O motivo de a manipulação passar despercebida também foi apontado pelas três, cada uma com suas palavras.

O Claude resumiu bem a armadilha: como cada pessoa vê um feed diferente, não existe uma versão “neutra” para comparar, e o usuário “só vê o que aparece, nunca o que deixou de aparecer”. O Gemini foi na mesma linha e lembrou que ninguém tem um padrão fixo para dizer que deveria haver mais conteúdo de determinado candidato na sua tela. Quando um post some, a pessoa culpa a si mesma: “eu não interagi, por isso sumiu”. O ChatGPT acrescentou que cada usuário enxerga apenas uma fatia minúscula do que acontece na plataforma, e por isso dificilmente perceberia, olhando só o próprio feed, que alguns conteúdos estão sendo favorecidos de forma sistemática.

Ou seja, ninguém precisaria apagar post nem banir conta, que é o tipo de coisa que gera manchete e processo. Bastaria mexer no volume.

Como a manipulação pode ser feita

E é aí que as respostas ficam desconfortáveis. O Gemini foi o mais detalhista ao descrever como isso poderia ser feito. Afirmou que isso passaria em reduzir de 10% a 20% o alcance orgânico de um candidato e inflar o do adversário na mesma proporção. Também falou em usar o preenchimento automático das buscas para associar termos negativos a um nome e termos neutros ou positivos a outro, e em mexer nos critérios dos assuntos do momento, que pautam a imprensa e os influenciadores.

A mais sofisticada das estratégias que listou é a desmobilização: entregar conteúdo que gera desilusão e desinteresse cívico à base de um candidato e conteúdo energizante e de esperança ao eleitorado do outro. Não é preciso mudar o voto de ninguém. Basta convencer uma parte das pessoas de que não vale a pena sair de casa no domingo.Continua após a publicidade

Há uma ironia amarga em ouvir isso justamente do Gemini, produto de uma empresa dona do maior buscador do planeta e do YouTube. É como pedir ao dono da padaria que explique como seria possível mexer na receita do pão sem que o freguês notasse. Isso não significa que ele faça, mas ele sabe muito bem como faria.

O Claude chamou atenção para outro ponto. Cada uma dessas decisões, como o peso dado a certos temas, o shadowban silencioso, as sugestões de busca e a moderação mais rigorosa com um lado do que com o outro, pode ser justificada como técnica ou “de qualidade”. Isso torna muito difícil provar intenção. E lembrou que nem é preciso convencer muita gente: eleições costumam ser decididas por margens estreitas, e um efeito de um ou dois pontos percentuais sobre indecisos ou sobre a disposição de votar já pode ser decisivo.

O ChatGPT tocou no que talvez seja a dimensão mais perversa do problema: a plataforma pode interferir não só no que as pessoas pensam sobre os candidatos, mas no que elas acreditam que o resto da sociedade pensa sobre eles. O resultado seria uma percepção artificial de consenso, em que um candidato parece mais popular, mais apoiado ou menos criticado do que de fato é. Quem já viu alguém mudar de opinião para não ficar isolado no grupo da família sabe o poder disso.

Exemplos práticos fornecidos pelas IAs

As três IAs não ficaram só na teoria. O Claude citou o experimento de 2010 em que o Facebook mostrou a milhões de usuários uma mensagem incentivando o voto, com estimativa de centenas de milhares de votos a mais. Citou também um estudo de 2014 em que a empresa alterou a proporção de posts positivos e negativos nos feeds e mudou levemente o tom do que as pessoas escreviam, sem que elas soubessem que eram cobaias. Mencionou ainda as pesquisas do psicólogo Robert Epstein sobre o efeito da ordem dos resultados de busca sobre indecisos, ressalvando que a magnitude desse efeito é contestada.

O Claude e o ChatGPT citaram a pesquisa com dados internos do X/Twitter que encontrou maior amplificação algorítmica de políticos de direita na maioria dos países analisados, seis de sete, segundo o ChatGPT. Essa IA trouxe ainda um estudo publicado na Nature em fevereiro de 2026, segundo o qual o feed algorítmico do X favorecia conteúdo conservador e deslocava opiniões políticas dos participantes nessa direção, ainda que sem alterar significativamente a identificação partidária.Continua após a publicidade

O Gemini não citou estudos e preferiu se apoiar no efeito de mera exposição, conceito da psicologia social segundo o qual a simples frequência com que alguém vê um enquadramento altera sua simpatia por ele, mesmo de forma inconsciente.

O detalhe mais incômodo dessas pesquisas é que o viés pode existir sem que ninguém tenha apertado um botão. Como observou o Claude, o resultado pode ser desigual mesmo sem decisão deliberada, e nem a própria empresa necessariamente percebe. O ChatGPT propôs separar três coisas diferentes: um algoritmo que gera assimetrias sem intenção, uma escolha editorial explícita e uma interferência deliberada e escondida para beneficiar alguém. A distinção é importante para um tribunal.

Mas para o eleitor que recebeu um cardápio enviesado, o efeito é o mesmo.

E o que impede a manipulação das redes

Para ser justo, as IAs trazem evidências na outra direção. O Claude e o ChatGPT citaram os grandes estudos feitos com a Meta durante a eleição norte-americana de 2020. Trocar o algoritmo pelo feed cronológico mudou bastante o que as pessoas viam, mas, segundo elas, teve efeito pequeno sobre suas atitudes políticas no período analisado. Nas palavras do Claude, controlar a exposição não equivale automaticamente a controlar a opinião.

É uma ressalva honesta e necessária, mas uma eleição não se decide na média de um experimento de três meses. Ela se decide num domingo específico, às vezes por uma diferença menor do que a margem de erro.Continua após a publicidade

Sobre o que impede a manipulação, as três também convergiram. Apontam para pesquisadores que fazem auditorias com contas de teste, jornalistas que comparam alcances, funcionários que vazam informações, como aquelas obtidos por Patrícia Campos Mello, que publicou, hoje, na Folha de S.Paulo, a uma reportagem de peso: “Em mensagens internas, Meta admite que contas de Lula foram prejudicadas por restrições; engenheiros falam em falhas técnicas”.

O Claude lembrou o caso de Frances Haugen, que expôs as entranhas do Facebook. O Gemini argumentou que qualquer mudança no algoritmo passa por engenheiros, testes, revisores de código e cientistas de dados, o que torna alta a chance de alguém denunciar uma ordem de manipulação vida dos donos. Todas citaram a regulação: a Lei de Serviços Digitais da União Europeia, as resoluções do Tribunal Superior Eleitoral e, no caso do Claude, a decisão do Supremo Tribunal Federal que, em 2025, ampliou a responsabilidade das redes sobre certos conteúdos.

O Claude fez a síntese mais crua: o maior obstáculo hoje não é técnico, mas o risco de ser descoberto por quem observa de fora. O ChatGPT completou que descobrir a manipulação seria possível, mas difícil sem acesso amplo aos dados.

Vale nos determos nisso. A principal proteção da democracia contra esse tipo de interferência é o medo que as plataformas têm de ser pegas, não o seu alegado compromisso democrático. E a capacidade de pegá-las depende de dados que estão nas mãos delas. Não por acaso, nos últimos anos, o X passou a cobrar caro pelo acesso de pesquisadores à sua API, e a Meta desligou o CrowdTangle, ferramenta usada no mundo todo para monitorar a circulação de conteúdo no Facebook e no Instagram. É como deixar a raposa responsável pela câmera de segurança do galinheiro e depois se tranquilizar porque existe câmera.

Nada disso significa que toda eleição seja fraudada por algoritmo ou que cada post que some do seu feed seja conspiração. Mas significa que o poder existe, que ele é exercido por meia dúzia de empresas sem mandato popular e que a nossa capacidade de fiscalizá-lo ainda é precária. A resposta não é abandonar as redes, mas exigir transparência dos algoritmos, acesso garantido a pesquisadores e regras que não dependam da boa vontade de bilionários.

Por fim, uma pergunta que eu não fiz, pois o foco eram as redes sociais, e que apenas o Claude comentou. Cada vez mais gente tira suas dúvidas sobre política perguntando diretamente a chatbots de IA em vez de ler jornal ou pesquisar. Se uma rede social consegue enviesar o debate sem que a maioria perceba, o que impede uma inteligência artificial de estar fazendo o mesmo? A proibição de produzir cartaz com Lula 13 e a permissão para confeccionar Flávio 22 com a IA da Meta que o diga.

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