Claudia Faissol busca levar registros inéditos de João Gilberto ao cinema
A Gazeta

Reprodução/Instagram
Faissol busca agora uma parceria para produzir, preservar e distribuir o material. Diz que sua preferência será por uma empresa que também possa levar o projeto ao exterior. Ainda não há orçamento fechado nem diretor definido para o longa.
“JG autorizou tanto a biografia como o documentário em documentos com firma reconhecida em cartório”, diz Faissol.
A reportagem teve acesso a duas autorizações formalizadas em cartório, datadas de 2000 e 2005. A mais recente tem seis páginas e 13 itens e detalha aspectos da produção e da captação de recursos para o projeto audiovisual.
“Até o momento não tive nem condições emocionais de passar por todo o material e decupar tudo com atenção”, afirma. “O final da vida do JG gerou uma situação que me deixou em estado emocional muito abalada.”
Ela conta possuir fotos e filmes feitos desde a década de 1990 no Rio de Janeiro, Angra dos Reis, Aracaju, Fortaleza, Vitória, Salvador e São Paulo, além de cidades como Nova York, Tóquio, Osaka, Palermo, Perugia, Montreux, San Francisco, Boston, Buenos Aires e Montevidéu.
Segundo Faissol, o arquivo inclui registros inéditos de canções, cenas domésticas, viagens, bastidores de shows, momentos de João com a própria família, com a família dela e com Luísa e gravações nas quais o músico responde a perguntas. Ela ainda não sabe precisar o número de fotografias nem a duração total das filmagens.
A maioria das fotos do arquivo foi tirada por Faissol, assim como quase todos os vídeos. Depois do nascimento de Luísa, em 2004, ela passou também a contratar cinegrafistas para registrar apresentações de João.
O procedimento esbarrava numa característica conhecida do músico: a resistência a câmeras e gravações que não controlasse. Segundo Faissol, com a transição das câmeras analógicas para as digitais, João passou a se preocupar também com a possibilidade de técnicos terem acesso às gravações e colocá-las na internet.
“Ele dizia que não conseguia sentir-se à vontade em saber que estava sendo filmado”, diz ela.
Faissol diz que começou tentando convencê-lo por cartas e conversas telefônicas. João argumentava que a filmagem interferia na concentração necessária para tocar.
Nos shows, ela afirma ter visto seguranças retirarem equipamentos de fotógrafos e cinegrafistas. Em algumas ocasiões, diz, sua própria câmera era recolhida. João então pedia o aparelho para devolvê-lo a Faissol, sem informar à produção que havia permitido especificamente aquelas imagens.
Ao participar da organização das apresentações que João realizou em 2008, ela diz ter ouvido uma orientação direta do músico. “Show é uma coisa, filmagem é outra, e as propostas para filmagem até hoje não foram boas para o lado do artista”, teria dito João.
Segundo a jornalista, ele permitiu que ela apresentasse o acordo entre os dois quando fosse necessário obter autorizações para seus próprios registros, mas não que liberasse as imagens para utilização indiscriminada por terceiros.
Ela pretende participar do desenvolvimento do documentário e diz que, numa etapa posterior, gostaria de realizar também um filme baseado em acontecimentos reais. Vem trabalhando ainda numa série de pinturas que chama de “Bossa-Nova Raiz”, inspiradas nas músicas que aprendeu com João.
A ligação entre os dois começou muito antes do nascimento da filha. Faissol conta que conheceu João aos 18 anos na clínica odontológica de seu pai, Olympio Faissol, que atendia o músico. Na época, ela começava a dirigir e lembra-se de levar para ele frutas e palmito vindos de Angra dos Reis.
A relação começou como uma amizade. Claudia prefere não dizer quando a amizade se tornou um relacionamento amoroso e afirma que pretende reservar esse momento para o filme.
“João era uma companhia cativante, sedutora e inteligente. Às vezes era muito difícil de lidar com ele. Postergava tudo que podia.”
Faissol afirma que dedicou mais de 20 anos a João e deixou de lado trabalhos próprios para ajudá-lo. Diz ter abandonado um estágio na TV Globo e participado de questões práticas relacionadas à carreira e às apresentações do músico.
Ela quer usar o material também para recuperar pequenos traços do cotidiano de João. Em uma das gravações, feita enquanto ele assistia pela televisão ao casamento do príncipe Harry, em 2018, o músico critica os chapéus usados pelos convidados dentro da igreja.
A observação remetia ao costume de sua infância no interior da Bahia, onde entrar numa igreja de chapéu era visto como falta de respeito.
O arquivo não se limita às filmagens. Entre os documentos apresentados por ela à reportagem está uma correspondência da Universidade Columbia, de Nova York, de dezembro de 2016.
Assinada pelo então presidente da instituição, Lee C. Bollinger, a carta convida João a receber o título de doutor em música honoris causa na cerimônia de formatura marcada para 17 de maio de 2017.
Outro documento, datado de 20 de janeiro de 2017 e assinado por João, comunica que ele aceitava o convite e pretendia comparecer. “Estou feliz e honrado. Obrigado por esse prestigioso reconhecimento”, diz o texto em inglês.
Faissol pretende usar documentos desse tipo ao lado das imagens particulares e das gravações de apresentações. Ela diz ainda que o estado de parte do material exige trabalho de preservação e transferência para novos formatos.
“Estou em busca de recursos para preservar o acervo de imagens e realizar o documentário e o filme”, afirma. “Todo tipo de apoio será importante em todas as etapas do audiovisual, ajuda de produção, distribuição, exibição.”
Parte desse arquivo já serviu para outro projeto. No disco de estreia de Loulu Gilberto, nome artístico de Luísa, lançado em maio, a cantora recuperou canções que ouvia e cantava com o pai em casa. A pesquisa do repertório recorreu também a vídeos caseiros de Luísa cantando com João, feitos por Claudia.
Em setembro, Loulu foi indicada ao Grammy Latino nas categorias Gravação do Ano, por “O Amor nos Encontrou”, e melhor artista revelação. A premiação será realizada em 12 de novembro.
João Gilberto teve três filhos em relações diferentes. Foi casado com Astrud Gilberto entre 1959 e 1964. O filho dos dois, João Marcelo, nasceu em 1960. Depois, casou-se com Miúcha, em 1965. Bebel Gilberto nasceu em Nova York no ano seguinte. A relação do casal terminou no início dos anos 1970.
Luísa Carolina, filha de João com Claudia Faissol, nasceu em 2004. Há dois anos, Claudia entrou na Justiça pedindo o reconhecimento de união estável.
Outra disputa envolve Maria do Céu Harris, moçambicana que afirma ter mantido união estável com João durante 35 anos, de 1984 até a morte dele. Em 2022, ela obteve uma decisão liminar favorável.
No ano seguinte, Bebel chegou a um acordo com Maria em que reconheceu a união estável entre ela e o pai. João Marcelo e Luísa contestaram a decisão.
A sucessão permanece sem definição final. Em decisão noticiada em agosto, o Tribunal de Justiça do Rio manteve a proibição de que os filhos retirassem individualmente valores provenientes de direitos autorais até que fossem resolvidas questões sobre o número de herdeiros, o patrimônio e sua partilha.
Faissol diz que seu objetivo imediato é fazer um levantamento completo do que guardou, encontrar uma estrutura profissional capaz de preservá-lo e decidir, junto com produtores, qual será a forma final do projeto.
“Foi revisitando a obra que lembrei de muitas coisas e até agora ainda estou reencontrando memórias importantes”, afirma.
Por isso, não existe ainda uma relação completa das gravações e fotografias que diz possuir. O curta de 15 minutos funciona, por enquanto, como uma primeira montagem desse acervo. Um vídeo de alguns minutos de registros de canções e cenas domésticas e uma fotografia também foram liberado por ela para publicação pela Folha de S. Paulo.
“Foi difícil rever as imagens e encontrar estrutura para revisitar meu trabalho”, diz Faissol. O projeto que ela procura viabilizar começa, portanto, por uma etapa mais básica: rever, identificar e preservar o material acumulado desde os anos 1990.
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Fonte: A Gazeta