Cientistas comprovaram que as pirâmides egípcias não foram construídas por escravos

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Por Carlos Emanoel Freires dos Santos — Catraca Livre

As Pirâmides de Gizé carregam um dos equívocos mais repetidos da história popular: multidões de escravos chicoteados sob o sol, arrastando blocos de calcário. Escavações de arqueologia feitas ao pé do planalto contam outra história, com operários egípcios bem alimentados, tratados por médicos e enterrados perto dos faraós que serviram.

Esqueletos com fraturas curadas nas tumbas dos operários de Gizé indicam que eles recebiam atendimento médico – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial

Quem realmente ergueu as Pirâmides de Gizé?

As Pirâmides de Gizé foram levantadas por egípcios livres, organizados em turnos. Uma equipe fixa de especialistas cuidava do corte e do assentamento das pedras, enquanto grupos sazonais reforçavam a obra. A imagem de escravidão em massa vem, em boa parte, de relatos tardios como os de Heródoto, escritos cerca de dois mil anos depois da construção.

A virada veio nos anos 1990, quando pesquisadores como Zahi Hawass e Mark Lehner estudaram os cemitérios vizinhos ao complexo. Segundo o registro sobre a necrópole de Gizé, esses sepultamentos indicam mão de obra qualificada, e não cativa.

O que as tumbas dos operários revelam

Escravos dificilmente ganhariam sepultura ao lado de um túmulo real. Os operários de Gizé ganharam, e os achados dentro dessas tumbas ajudam a entender o tratamento que recebiam:

  • Túmulos de tijolo e pedra construídos junto às pirâmides, uma honra reservada a quem tinha prestígio.
  • Esqueletos com fraturas curadas e até amputações bem cicatrizadas, sinal de atendimento médico.
  • Oferendas de pão, cerveja e carne para a vida após a morte.
  • Inscrições de equipes com nomes orgulhosos, como “Amigos de Khufu”, o faraó que mandou erguer a Grande Pirâmide.

A escravidão existiu no Egito Antigo?

Existiu, sim. No Egito Antigo, prisioneiros de guerra e pessoas endividadas serviam em casas, templos e propriedades, e o fenômeno ficou mais visível depois das campanhas militares do Novo Império. O ponto é que nada indica que esse sistema sustentou as obras do Reino Antigo, quando as grandes pirâmides foram erguidas.

A diferença importa porque a escravidão costuma ser projetada sobre o passado a partir de filmes e de relatos bíblicos. Os vestígios materiais de Gizé mostram um Estado que recrutava, pagava em comida e honrava seus trabalhadores com ritos funerários.

O diário de Merer registra o transporte de calcário por barco até Gizé por uma equipe de cerca de 40 homens – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial

Como a arqueologia reconstruiu a rotina da obra

A cidade dos construtores, conhecida como Heit el-Ghurab, foi escavada ao sul do planalto e mostrou uma operação organizada. Em 2013, outro achado reforçou o quadro: os papiros do Uádi Al-Jarf, que incluem o diário de Merer, inspetor que comandava uma equipe de cerca de 40 homens no transporte de calcário por barco até Gizé. Os principais indícios são estes:

  • Padarias e cervejarias em escala industrial, capazes de alimentar grandes grupos.
  • Restos de bois, carneiros e peixes, indicando dieta rica em proteína.
  • Alojamentos coletivos e áreas de armazenamento organizadas por equipe.
  • Papiros com registros de entregas de pedra e rotinas de trabalho.

O que muda na história do canteiro de Quéops

Os dados reunidos em Gizé tiram a Grande Pirâmide do terreno do mito e a colocam no de um projeto estatal gigantesco. Padeiros, pedreiros, barqueiros e escribas trabalhavam em uma cadeia de tarefas que exigia planejamento, e os restos de comida e as tumbas mostram que essa gente era valorizada.

A leitura atual faz justiça a quem de fato moveu os blocos de calcário e granito. As pirâmides seguem como monumentos de faraós, mas também como obra de milhares de egípcios que deixaram seus nomes, suas ferramentas e seus túmulos à sombra das pedras que ergueram.

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Fonte: Catraca Livre

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