Campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro reveem estratégias após críticas de indecisos
Por José Reinaldo — Brasil 247
247 – As equipes do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do senador Flávio Bolsonaro (PL) preparam ajustes para o debate da TV Globo após identificarem falhas no confronto da Band, realizado no domingo (18). Segundo reportagem de O Globo, pesquisas qualitativas com eleitores indecisos apontaram incômodo com a agressividade do candidato do PL e com a postura considerada cansada do petista, além da falta de propostas para um próximo governo.
O diagnóstico levou as duas campanhas a discutir mudanças para o encontro de sexta-feira. Entre aliados de Flávio, a preocupação é que as provocações tenham afastado eleitores que ainda não escolheram um candidato. No entorno de Lula, a avaliação é que o presidente precisa apresentar suas propostas com mais clareza e responder às acusações com maior firmeza.
Os pesquisadores ouvidos pelo jornal convergem na percepção de que o debate pouco contribuiu para definir o voto dos indecisos acompanhados. As conclusões vêm de grupos qualitativos, voltados a compreender reações e percepções, e não representam uma medição das intenções de voto do conjunto do eleitorado.
Agressividade de Flávio incomodou até apoiadores
O primeiro bloco, com 30 minutos de confronto direto, concentrou as avaliações negativas. Renato Dorgan, do instituto Travessia, que coordenou grupos em São Paulo, relatou desconforto com o comportamento dos dois candidatos.
“O primeiro bloco deixou todo mundo atônito. Flávio passou imagem de arrogante, prepotente, todos ficaram bravos. Já Lula foi visto como alguém cansado e que titubeou muito”, afirmou.
Segundo Dorgan, os participantes recorreram a palavras como “desgastante”, “triste” e “decepcionante” para descrever o encontro. Entre os quatro indecisos acompanhados por ele, três disseram que anulariam o voto. Uma eleitora idosa declarou preferência por Lula após se incomodar com a postura de Flávio, que chegou a imitar o adversário de maneira jocosa.
“Os indecisos ficaram tristes. A sensação é de que queriam ir embora. Em 2022, percebi os eleitores mais acirrados; no domingo, constatei uma grande depressão”, disse o pesquisador.
O comportamento do senador também provocou ressalvas entre participantes que haviam votado nele no primeiro turno. Já eleitores de Lula consideraram que o presidente poderia ter demonstrado mais energia.
Houve reações positivas quando os candidatos abordaram temas associados às suas campanhas: Flávio ao falar de segurança pública e Lula ao tratar de políticas sociais.
Pesquisador vê oportunidade desperdiçada pelo senador
O presidente do instituto Locomotiva, Renato Meirelles, acompanhou remotamente pesquisas qualitativas com pessoas de diferentes estados. Para ele, Lula terminou com um saldo melhor, embora tenha apresentado limitações, porque o comportamento do adversário pesou negativamente.
“Lula passou longe de ser brilhante, mas Flávio fez tanta molecagem que ficou numa posição de ‘júnior’, não de um presidenciável. O eleitor já conhece Lula e seus defeitos. A novidade era o Flávio, a alternativa a um governo do qual parte considerável desses eleitores não gosta”, afirmou.
Na avaliação de Meirelles, o senador deixou de aproveitar a exposição para conquistar quem busca uma alternativa ao atual governo.
“E esse eleitor saiu decepcionado. Flávio perdeu a oportunidade de se apresentar como uma mudança viável.”
O pesquisador observou que a capacidade de comunicação do candidato do PL surpreendeu positivamente, mas perdeu força diante da ausência de respostas concretas. Lula, por sua vez, teve melhor recepção ao abordar o Sistema Único de Saúde (SUS) e políticas sociais, sem conseguir transmitir uma perspectiva clara para um novo mandato.
Um terceiro pesquisador ouvido por O Globo, que pediu anonimato por trabalhar para clientes do mercado financeiro, também relatou frustração. Segundo ele, os grupos acompanhados avaliaram que o debate não ajudou a decidir o voto. A maioria dos participantes afirmou que teria desligado a televisão ou trocado de canal se não estivesse no estudo.
Aliados cobram respostas e propostas
Na campanha de Flávio, interlocutores reconheceram que o senador seguiu o treinamento e demonstrou segurança, mas consideraram excessivos os ataques, as interrupções e os gestos de reprovação enquanto Lula falava.
Um episódio citado internamente foi a cobrança de respeito feita pelo candidato ao mencionar os quase 56 milhões de votos recebidos no primeiro turno. Para aliados, a manifestação transmitiu arrogância e teve mais apelo entre apoiadores já convencidos do que entre indecisos.
Também houve críticas às respostas evasivas. Embora a preparação previsse evitar determinados assuntos, integrantes da equipe avaliaram que Flávio exagerou nessa estratégia. A orientação defendida para o próximo encontro é apresentar mais propostas e responder diretamente às perguntas, mantendo os ataques ao presidente.
No núcleo de Lula, pesquisas internas indicaram desempenho inferior no primeiro bloco, considerado especialmente relevante por concentrar a maior audiência. Aliados avaliaram que o petista não rebateu acusações com a firmeza demonstrada em outras aparições.
Uma das respostas questionadas foi a dada quando Flávio perguntou se Lula conhecia Roberta Luchsinger, apresentada na reportagem como lobista e amiga de seu filho Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. O presidente respondeu que o assunto cabia à Polícia Federal, sem esclarecer se a conhecia.
A equipe também reconheceu que Lula concentrou sua exposição nas realizações de seus governos e deixou pouco evidente o que pretende executar em um eventual novo mandato, apesar da orientação recebida durante a preparação.
Ainda assim, seus aliados consideraram que o confronto terminou equilibrado. Nas redes sociais, a campanha pretende explorar o desafio de Lula para que ambos abram seus sigilos bancários e telefônicos, além das perguntas que Flávio deixou sem resposta.
Reta final terá concentração de atos no Sudeste
Além dos ajustes para o debate, as campanhas programaram viagens e atos nos últimos dias da disputa, com atenção especial a São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, os três maiores colégios eleitorais do país.
Segundo a programação relatada por O Globo, Flávio tem compromissos no Norte e no Nordeste antes de concentrar suas atividades no Sudeste. Para o sábado, estão previstos atos em Belo Horizonte e no Rio.
Lula, que esteve no Rio Grande do Sul na segunda-feira (19), tem passagens previstas por Maranhão e Pernambuco. A programação inicial para a véspera da votação inclui uma caminhada pela manhã no Rio e outra à tarde em São Paulo.
Fonte: Brasil 247