Caipira, Pirapora, Nossa Senhora de Aparecida

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Por Washington Araújo — Brasil 247

Toda romaria começa muito antes da estrada. Começa na promessa feita baixinho, na vela comprada com antecedência, no dinheiro juntado moeda a moeda e na fé que a gente carrega como carrega a própria infância. A viagem já existe dentro do romeiro antes que seus pés encontrem a poeira.

Em 1717, três pescadores puxaram das águas do Paraíba do Sul uma pequena imagem de terracota escurecida: primeiro o corpo, depois a cabeça. Desde então, o país caminha até ela. A devoção nasceu entre trabalhadores pobres e cresceu com a intimidade das coisas que o povo reconhece como suas.

Renato Teixeira traduziu essa liturgia em Romaria, eternizada por Elis Regina em 1977. A canção começa pela poeira, com um homem sozinho na estrada, filho de gente simples, consumido pela solidão. Ele chega à basílica de Aparecida sem saber rezar e oferece apenas o olhar. Nesse gesto desarmado reside a grandeza da fé.

A santa escura

Só então a letra se abre no refrão. O caipira diz quem é, lembra Pirapora e chama a padroeira pelo nome inteiro. Caipiras de todos os estados conhecem esse caminho de cor. A duas semanas de outro 12 de outubro, escrevo de Brasília ouvindo uma toada áspera, calculada e composta por autores conhecidos. E agora de rápido reconhecimento.

Em 2001, o bispo J. B. Carvalho, em cuja igreja o candidato da extrema-direita seria batizado mais de duas décadas depois, publicou um livro que pregava destronar a padroeira e declarar ilegal o feriado de 12 de outubro. Em 24 de agosto, o próprio candidato prometeu “decretar que o Brasil pertence a Jesus Cristo”. Nesta semana, um vídeo de aliado completou o coro, afirmando que “o Brasil não pertence a essa senhora”.

As três vozes obedecem à mesma partitura. O romeiro leva vela, promessa e joelho ralado; essa marcha leva púlpito, decreto e tinta. A fé serve de instrumento para um projeto de poder.

Projetos dessa natureza precisam fabricar inimigos, e o alvo escolhido foi a santa escura que o povo pobre retirou do rio com as próprias mãos. Os ataques produziram indignação imediata. Bispos, padres e católicos em geral reagiram nos púlpitos e nas redes. Acuado, o candidato acusou a CNBB de patrocinar mentiras, sem apresentar provas. O bispo respondeu: “não se combate uma mentira com outra mentira”.

O domínio

A inquietação católica começou muito antes da campanha. Desde 2019, a cúpula da Igreja examina, em artigos, seminários e estudos sociológicos, aquilo que passou a chamar de teologia do domínio. Textos daquele ano registraram imagens religiosas despedaçadas no asfalto e terreiros incendiados, sinais de que a disputa teológica já avançava sobre corpos e territórios.

Um estudo de 2020 descreveu a pintura de Aparecida apagada na entrada da favela de Acari, no Rio, e substituída por dizeres contra a idolatria.

Em 2022, um documento levado à CNBB comparou o projeto dominionista à teocracia iraniana. Três anos depois, novo artigo relacionou essa teologia ao avanço da extrema-direita.

Foram sete anos de alerta, reunidos pelo vídeo de agosto em um enunciado brutalmente simples. A lógica dominionista parte da sensação de cerco, transforma divergência em ameaça e procura no Estado as muralhas que a vida democrática recusa. O fiel assustado oferece um terreno fértil a quem promete ordem, pureza e proteção contra inimigos inventados.

Nos anos 1970, o teólogo norte-americano Rousas John Rushdoony formulou o reconstrucionismo cristão, defendendo governos submetidos à lei bíblica literal. Na mesma década, pregadores popularizaram a tese dos sete montes: governo, educação, mídia, família, religião, artes e economia deveriam ser conquistados por cristãos, palavra escolhida para encobrir uma corrente teológica específica.

A semente atravessou o Equador, encontrou solo fértil em parte do neopentecostalismo brasileiro e floresceu entre 2019 e 2022. Jair Bolsonaro foi apresentado em cultos como escolhido por Deus, enquanto o país ouvia a promessa de um ministro terrivelmente evangélico no Supremo. Petra Costa registrou esse ambiente no documentário Apocalipse nos Trópicos.

Fé sitiada

O fundamentalismo religioso cresce alimentado pelo medo. Em mais de quatro décadas de jornalismo, aprendi que o medo continua sendo o combustível mais barato da política. Ele dispensa argumentos complexos, reduz o mundo a amigos e inimigos e oferece ao pregador eleitoral uma multidão pronta para trocar liberdade por uma sensação provisória de segurança.

A palavra surgiu nos Estados Unidos entre 1910 e 1915, período em que teólogos protestantes publicaram a série de panfletos The Fundamentals. Reagiam a Darwin, à crítica histórica da Bíblia e a um mundo que mudava depressa demais.

Karen Armstrong demonstrou que fundamentalismos cristão, judaico e islâmico partilham a sensação de cerco pela modernidade.

Dessa sensação nasce a decisão de contra-atacar. O adepto assustado vira soldado, e a dúvida, antiga companheira da fé, recebe o tratamento reservado à traição.

A experiência histórica recomenda cautela diante de narrativas com um único vilão, pois crenças desprezadas, combatidas ou humilhadas costumam aprofundar suas raízes no coração dos fiéis. Não se deve embrulhar fogo com papel. Não dá certo.

No fim do século II, Tertuliano advertia Roma de que o sangue dos mártires se tornava semente de cristãos. Depois que Teodósio fez do cristianismo a religião oficial do Império, em 380, o perseguido aprendeu a perseguir. Cruz e espada seguiram juntas, dando ao poder político uma linguagem sagrada e à violência uma aparência de missão.

No Brasil colonial, indígenas foram catequizados à força, enquanto africanos escravizados escondiam Xangô e Iemanjá atrás de imagens de santos. É o que chamamos de sincretismo religioso, que sobrevive ainda hoje e inspira a fé de milhões de pessoas: no sincretismo afro-brasileiro, Iemanjá costuma ser associada a Nossa Senhora da Conceição, enquanto Santa Bárbara corresponde a Iansã, orixá dos ventos, tempestades e raios; sobretudo no Rio de Janeiro, São Jorge se liga a Ogum e São Sebastião a Oxóssi, ao passo que São Jerônimo representa Xangô.

A Constituição de 1824 fez do catolicismo a religião do Império. Somente em 1890, pelo Decreto 119-A, redigido por Rui Barbosa, o Estado brasileiro se separou da Igreja. A laicidade custou séculos de dor e exclusão.

O preço humano

Os monoteísmos, quase sempre, carregam uma tentação de hegemonia: um Deus verdadeiro converteria os demais em ilegítimos. Essa febre alcança judeus, cristãos e muçulmanos sempre que fé e poder se confundem.

Freud chamou de narcisismo das pequenas diferenças a hostilidade que floresce entre vizinhos quase iguais, como cristãos disputando quem ama Jesus da maneira correta.

O diálogo inter-religioso foi a vacina desenvolvida pela civilização contra essa febre. Um candidato que promete usar decretos para definir a quem pertence o país ataca essa proteção coletiva.

A sociedade conhece o resultado: em 1978, um visitante despedaçou a imagem de Aparecida dentro da basílica; em 1995, um bispo chutou sua réplica pela televisão. Restaurada fragmento a fragmento, a imagem voltou ao altar ainda mais amada. Os danos mais fundos recaíram sobre gente de carne e osso. Em 21 de janeiro de 2000, Mãe Gilda morreu em Salvador depois de ver seu terreiro depredado. A data tornou-se o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa.

Seguem nessa trilha as crianças do candomblé humilhadas na escola, os terreiros atacados e os muros pintados de rancor.

Max Weber advertia que a política firma um pacto com potências diabólicas ao recorrer à violência. A apropriação da fé acrescenta a esse pacto uma aparência de santidade e oferece licença moral à crueldade.

A própria religião paga parte elevada dessa conta. Convertida em cabo eleitoral, a fé abdica de sua voz profética. O pastor que abençoa hoje um candidato perde autoridade para corrigi-lo amanhã. O altar transformado em palanque entra na disputa partidária, enquanto o amor ao próximo encolhe até caber na conveniência de um slogan. Como água e óleo, religião e política devem coexistir de forma independente. A religião se corrompe quando se deixa sequestrar pela política partidária, quando os fiéis se transformam em cabos eleitorais e quando sua natureza espiritual se traga benta a um ponto em que não é mais reconhecível.

O embate entre Donald Trump e Leão XIV expôs essa tensão em escala mundial. Após o papa condenar a ofensiva no Irã, o presidente o acusou de prejudicar a Igreja e exigiu que fosse um grande pontífice. Leão XIV declarou não temer Washington e prometeu continuar falando contra a guerra e suas vítimas.

Sem dono

Pelo visto, os estrategistas da intolerância esqueceram a lição de Tertuliano.

Na última semana de setembro, as buscas pela história da padroeira dispararam no Google, e o episódio superou 6 milhões de interações nas redes. Milhares de fiéis reafirmaram sua devoção e repudiaram os ataques. A tentativa de destronar Aparecida terminou reacendendo sua presença pública. Respeito todas as religiões porque creio num só Deus e vejo em cada fé um caminho até Ele. Por isso, os ataques à padroeira me feriram: senti a dor dos meus amigos marianos como se atingisse a minha crença.

A resposta deve vir das instituições e da sociedade.

O Estado laico protege com a mesma régua quem reza para santos, quem rejeita imagens, quem cultua orixás, quem acredita que a melhor oração é uma ação feita com amor e quem descrê de tudo.

Nenhum grupo pode apagar o mural do outro, chutar a imagem alheia ou reivindicar escritura pública sobre a consciência religiosa do país.

O Brasil pertence aos brasileiros em sua extraordinária diversidade. Uma formulação espiritual registrada em Paris, em 1911, por ‘Abdu’l-Bahá ensinou que seria preferível viver sem religião caso ela se transformasse em causa de ódio e divisão.

Quem ama a fé deveria protegê-la da cobiça dos palanques.

Religião alguma se engrandece pela humilhação da crença vizinha, e governo algum recebe autoridade para decidir o conteúdo da alma nacional. A fé sobreviveu a impérios, perseguições e demagogos. Merece atravessar também esta eleição sem ser exibida como troféu de guerra.

Fonte: Brasil 247

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