Brasil aderir ao nacionalismo de Trump seria ruim para o mundo, diz Piketty

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Por Otávio Rosso — Brasil 247

247 – O economista francês Thomas Piketty afirmou que uma guinada do Brasil em direção ao nacionalismo associado ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, teria consequências negativas não apenas para o país, mas também para os esforços de reformulação da ordem econômica internacional. Para ele, o Brasil ocupa uma posição estratégica nas discussões sobre tributação dos super-ricos, mudanças no sistema monetário global e financiamento de políticas climáticas.

Em entrevista à BBC News Brasil, Piketty destacou a atuação brasileira nos últimos anos em fóruns multilaterais e disse considerar importante que o país mantenha esse protagonismo.

“Será muito triste para o próprio país tanto quanto para o mundo se o Brasil seguir na direção do nacionalismo trumpista daqui algumas semanas. Precisamos do Brasil contribuindo para reconstruir o sistema monetário, econômico internacional em um sentido muito mais inclusivo, igualitário, democrático e consciente sobre o clima”, afirmou.

Piketty, codiretor do World Inequality Lab e professor da Paris School of Economics, é um dos pesquisadores mais conhecidos internacionalmente pelo estudo da concentração de renda e patrimônio. Ele participou da elaboração do Relatório de Justiça Global, lançado em junho pelo World Inequality Lab. O documento propõe uma reorganização de longo prazo da economia mundial, combinando redução das desigualdades, mudanças no sistema financeiro internacional e políticas ambientais. O próprio laboratório descreve o projeto como uma trajetória de transformação econômica e ecológica até 2100.

Brasil e a taxação dos bilionários

Na avaliação de Piketty, um dos exemplos mais relevantes da capacidade de articulação brasileira ocorreu durante a presidência brasileira do G20, quando o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva colocou a tributação internacional das grandes fortunas no centro das discussões econômicas.

“Sob o governo Lula, houve um papel importante de propor um imposto a bilionários na agenda do G20. Ela quase foi adiante”, afirmou.

Segundo o economista, uma articulação mais ampla entre grandes economias do Sul Global poderia aumentar a pressão sobre os países mais ricos para aceitar mecanismos internacionais de tributação.

“Eu acredito que, se houvesse um apoio mais firme da Índia ali, em particular, teria se criado uma coalizão do Sul global que tornaria a resistência do Norte muito mais difícil”, disse.

Piketty acrescentou que, mesmo sem um acordo amplo, a discussão já tornou politicamente mais difícil para alguns governos europeus rejeitar diretamente a proposta.

“Mesmo sem esse apoio, muitos países europeus já ficaram constrangidos em negar a proposta. Não apoiaram, mas não souberam dizer ‘não’.”

Para ele, o financiamento da transição climática deverá inevitavelmente colocar em discussão a contribuição das pessoas mais ricas.

“Eles sabem que não podem cobrar mais impostos — para pagar reparação — de suas classes trabalhadoras ou das suas classes médias. Logo, em algum momento, terão que aceitar que são os mais ricos, em especial bilionários, os que deverão arcar com essa conta.”

Piketty ressaltou que esse princípio, em sua visão, deveria valer independentemente da origem geográfica das grandes fortunas.

“Isso vale, é importante dizer, tanto para bilionários do Norte quanto do Sul.”

Dados recentes do World Inequality Lab reforçam o diagnóstico de forte concentração patrimonial que fundamenta esse debate. Segundo o World Inequality Report 2026, os 10% mais ricos possuem cerca de três quartos da riqueza mundial, enquanto a metade mais pobre detém apenas 2%. O grupo correspondente aos 0,001% mais ricos, formado por menos de 60 mil pessoas, concentra patrimônio equivalente a três vezes a riqueza da metade mais pobre da humanidade.

“Visão trumpista do futuro”

Na entrevista, Piketty apresentou uma avaliação crítica das políticas econômicas e geopolíticas associadas ao governo Trump e do que chamou de avanço de uma agenda “tecnonacionalista”.

“Estamos em um período repleto de distopias. Os tecnobilionários, os tecnonacionalistas estão elaborando visões malucas sobre o futuro”, declarou.

Segundo ele, esse modelo privilegia a expansão tecnológica, a disputa entre Estados e a exploração de recursos naturais sem responder adequadamente aos desafios de desigualdade, desenvolvimento e mudanças climáticas.

“É uma visão trumpista do futuro que não está funcionando, que não resolve problemas de desenvolvimento, de meio ambiente, que precisamos resolver.”

Piketty disse que a conjuntura internacional piorou desde que, há cerca de cinco anos, comparou os atuais níveis de desigualdade a períodos históricos marcados por grandes rupturas políticas.

“Eu diria que, em muitos sentidos, ela piorou.”

Apesar disso, afirmou acreditar que pressões sociais e políticas podem produzir transformações institucionais.

“Mas sejamos otimistas: a longo prazo, as forças democráticas e as lutas sociais estarão prontas para transformar as instituições e fazer do mundo um lugar mais igualitário e próspero.”

Relatório propõe nova arquitetura econômica mundial

O Relatório de Justiça Global, elaborado por pesquisadores ligados ao World Inequality Lab, propõe mudanças profundas na economia internacional até o fim deste século.

Entre as medidas discutidas está a criação de um sistema monetário internacional menos dependente de uma única moeda nacional, além de mecanismos globais de tributação da riqueza, redução da jornada média de trabalho e transferência de mão de obra de setores de produção material para áreas como educação e saúde.

O projeto também trabalha com mudanças estruturais destinadas a conciliar crescimento do padrão de vida, redução da desigualdade e limites ambientais. Os estudos que embasam o relatório propõem redução das horas de trabalho e do consumo material, acompanhada de expansão dos setores de saúde e educação, em um cenário destinado a limitar o aquecimento global.

A equipe sustenta que a atual configuração das instituições econômicas internacionais precisa ser democratizada diante da ascensão de uma economia global cada vez mais multipolar.

Piketty questiona papel central do dólar

Uma das principais mudanças defendidas pelo economista é a redução da dependência mundial do dólar.

Piketty argumentou que o peso relativo dos Estados Unidos na economia mundial vem diminuindo e que, por isso, seria cada vez mais difícil sustentar uma arquitetura monetária internacional baseada predominantemente na moeda americana.

“Não é mais possível ter o dólar operando como moeda internacional em um mundo em que a economia dos EUA é apenas uma pequena fração do PIB global”, afirmou.

Segundo ele, o modelo atual também teria efeitos negativos para os próprios Estados Unidos ao contribuir para uma valorização excessiva da moeda americana e para o déficit comercial do país.

“Essa não é uma notícia tão boa ao mundo, mas tampouco é para os Estados Unidos, porque esse sistema está sobrevalorizando o dólar e contribuindo para o enorme déficit comercial deles.”

Piketty defende, como alternativa, uma unidade monetária internacional apoiada em diferentes moedas nacionais.

“Em uma economia mundial multipolar, isto é, em que não há um país com hegemonia sobre o PIB global, temos que ter uma moeda internacional baseada em uma cesta de moedas — dos EUA, da China, da Índia, do Brasil, seja lá de quem for — que colabore para financiar o desenvolvimento dos países e para fazer investimentos climáticos.”

Reforma do FMI

O economista também apontou o Fundo Monetário Internacional (FMI) como uma das instituições que poderiam passar por mudanças nas próximas décadas.

Piketty mencionou especificamente o peso dos Estados Unidos no sistema de votação do Fundo e afirmou acreditar que a diminuição relativa da participação americana na economia mundial poderá alterar a estrutura de poder da instituição no longo prazo.

“Eles vão perder esse poder de veto muito em breve, porque, se hoje os EUA detêm cerca de 15% do PIB mundial e, por consequência, dos direitos de voto no FMI, logo eles vão cair para perto de 10%. Eu diria que isso vai acontecer pelos próximos 10 ou 20 anos.”

Ele argumenta que uma eventual reorganização dessas instituições poderia facilitar a emissão e distribuição de instrumentos monetários internacionais, além de criar mecanismos de financiamento para desenvolvimento e políticas climáticas.

Coalizões mesmo sem consenso global

Piketty reconhece, entretanto, que uma reforma abrangente da ONU, do FMI e do Banco Mundial encontra fortes obstáculos políticos.

Diante dessa dificuldade, ele defende a formação de grupos de países dispostos a avançar em determinadas áreas, mesmo sem adesão universal.

“Como não é viável, seria necessário, pelo menos durante um período intermediário, criar o que chamamos de ‘coalizão incompleta’, isto é, uma coalizão de países que não cubra o mundo inteiro, em alguns casos não cubra mesmo os Estados Unidos, mas que consiga ir na direção certa.”

O economista citou como exemplo as negociações para uma convenção internacional de cooperação tributária no âmbito das Nações Unidas, das quais participam países que defendem maior representatividade do Sul Global nas regras tributárias internacionais.

Crítica à esquerda e ao abandono da agenda econômica

Na entrevista, Piketty também fez críticas aos partidos de esquerda e centro-esquerda. Na avaliação dele, essas forças perderam parte da capacidade de formular propostas econômicas capazes de mobilizar trabalhadores e segmentos de renda média.

“A esquerda perdeu suas ambições de fazer propostas para reduzir desigualdades, para redistribuir a riqueza.”

Segundo o economista, a convergência de diferentes correntes políticas em torno da liberalização dos mercados e da redução da progressividade tributária ajudou a deslocar o debate para temas ligados à identidade e às fronteiras nacionais.

“Se você passa anos a fio dizendo para a opinião pública que não há políticas econômicas alternativas, que os governos precisam todos seguir a mesma agenda pró-corporações e que a única coisa que eles podem realmente fazer é controlar suas fronteiras, depois de 20, 30 anos, o resultado é um debate político que se resume em controle fronteiriço e identidade.”

Para ele, recolocar desigualdade, tributação e estrutura de classes no centro da discussão política seria uma forma de ampliar novamente o espaço para alternativas econômicas.

Um mundo “mais desigual e mais quente”

Piketty afirmou que não é possível antecipar qual crise política ou econômica poderá provocar mudanças significativas na atual ordem internacional. Segundo ele, porém, momentos históricos de ruptura costumam ser acompanhados pela criação de novas instituições.

O economista citou como exemplos a criação dos sistemas de seguridade social, a expansão dos serviços públicos, a educação universal, os direitos trabalhistas, o sufrágio e a descolonização.

“Não dá para prever que tipo de catástrofe política, que tipo de crise levará à transição, mas é importante discutir como queremos nos reorganizar antes que aconteça.”

Para Piketty, a ausência de mudanças estruturais levaria a uma combinação de maior concentração econômica e agravamento da crise climática.

“Se o curso não mudar, o mundo ficará mais desigual e mais quente. Por consequência, mais instável que o atual.”

Ainda assim, o economista disse acreditar que a consolidação de uma ordem internacional multipolar poderá aumentar a influência de países do Sul Global.

“O futuro será multipolar com uma prevalência das forças democráticas. E isso, principalmente, pela pressão que sairá do Sul global.”

Fonte: Brasil 247

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