“Bom demais para viver”, mas por que todos foram embora? Filme goiano “Pequenas Tragédias” revisita memórias LGBTQIAP+ de Catalão

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Por Luan MonteiroJornal Opção

“Bom demais para viver”, mas por que todos foram embora? Filme goiano “Pequenas Tragédias” revisita memórias LGBTQIAP+ de Catalão

Depois de estrear no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro e provocar risadas, emoção e aplausos do público, “Pequenas Tragédias”, novo longa-metragem do cineasta goiano Daniel Nolasco, será exibido gratuitamente em Goiânia neste domingo, 20. A sessão ocorre às 18h30, no Cine Cultura, na Praça Cívica, e tem classificação indicativa de 18 anos.

O filme teve estreia mundial no último domingo, 13, na Mostra Competitiva Nacional do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Desde então, a produção tem ganhado espaço entre críticos e espectadores e concorre ao Troféu Candango, principal premiação do festival. O resultado será divulgado neste sábado, 19, um dia antes da exibição na capital goiana.

“Pequenas Tragédias” nasce, em parte, da própria história de Nolasco. Em 2011, ele deixou Catalão, no interior de Goiás, para estudar Cinema no Rio de Janeiro. Foi o primeiro de um grupo de amigos queer a sair da cidade. Uma década depois, aquele cotidiano compartilhado já não existia: alguns haviam se mudado para outros centros urbanos, enquanto outros mantinham diferentes formas de ligação com o município.

É desse movimento de partidas, permanências e lembranças que o cineasta constrói uma narrativa híbrida, na qual documentário e ficção se encontram. Tragédias, reflexões, memórias e um humor sarcástico são utilizados para revisitar as experiências LGBTQIAP+ em uma cidade do interior goiano e questionar o que pode levar pessoas dissidentes a deixar o lugar onde cresceram.

Catalão, nesse sentido, não funciona apenas como cenário. A cidade ocupa o centro do filme e se torna parte das histórias de quem foi embora e de quem ficou.

Entre risadas, lágrimas e aplausos

A recepção durante a primeira exibição em Brasília chamou atenção. Ao longo da sessão, o público reagiu às diferentes mudanças de tom do longa, com risadas em determinados momentos e emoção em outros. No encerramento, a produção foi recebida com aplausos.

A repercussão se estendeu à crítica especializada. EstadãoRevista de Cinema, Meio Amargo e Jornal Opção estão entre os veículos que publicaram análises sobre o filme após a estreia.

No Estadão, o crítico Luiz Zanin publicou a análise intitulada “A força do cinema queer” e chamou atenção para a estrutura da produção. Para ele, o longa é “um objeto cinematográfico de grande equilíbrio” e trabalha com diferentes “camadas de distanciamento crítico”. Zanin também destacou a forma como o filme confronta uma imagem de cordialidade e tolerância a partir da experiência de pessoas LGBTQIAP+ em cidades do interior.

Maria do Rosário, da Revista de Cinema, ressaltou a inventividade e o humor da produção, além da combinação entre documentário e ficção. A crítica também chamou atenção para a trilha sonora, que transita entre referências como Ney Matogrosso e o chamado “agronejo”.

Em crítica publicada pelo Jornal Opção, Pedro Lima de Andrade destacou justamente a maneira como o humor surge em meio às memórias e às situações dolorosas reconstruídas por Nolasco. Para ele, o longa encontra comicidade no “patético” e no moralismo presente nas lembranças do diretor, sem abandonar os traumas que atravessam essas histórias.

Já Bruno Carmelo, do Meio Amargo, analisou a forma como “Pequenas Tragédias” recorre ao fetiche, à ficção e à erotização como ferramentas para reelaborar memórias e traumas. Na avaliação do crítico, essa reconstrução não representa adesão à violência vivida, mas uma tentativa de modificar simbolicamente o passado.

Por que todos foram embora de Catalão?

A pergunta que atravessa o longa começou a ganhar forma em 2019. Naquele ano, Nolasco passou quatro meses em Catalão durante as filmagens de “Vento Seco” e percebeu que as pessoas que faziam parte de seu antigo núcleo de amigos LGBTQIAP+ já não estavam reunidas na cidade.

“Comecei a me questionar porque todos tinham ido embora, a vida na cidade, pelo menos do ponto de vista material, era confortável. Com o tempo entendi que a fuga aconteceu por causa de algo mais subjetivo e forte — era um sentimento que é difícil explicar em palavras ou imagens, mas que qualquer pessoa dissidente que mora ali consegue entender”, explicou o diretor.

A constatação se tornou uma das bases de “Pequenas Tragédias”. Em vez de buscar apenas quem deixou Catalão, porém, o filme também volta o olhar para aqueles que permaneceram e para as diferentes maneiras de construir afetos, desejos e vínculos com o lugar.

A contradição atravessa até a apresentação da cidade. Como lembra a própria sinopse do filme, Catalão é conhecida por um slogan que afirma ser um lugar “bom demais para viver”.

De Catalão para festivais internacionais

A relação com o interior de Goiás aparece em diferentes momentos da trajetória de Daniel Nolasco. O diretor é formado em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e em História pela então Universidade Federal de Goiás (UFG), em Catalão, atual Universidade Federal de Catalão (UFCAT).

Seu primeiro longa-metragem, o documentário “Paulistas”, estreou em 2017 no Dok Leipzig. Depois vieram “Mr. Leather” e “Vento Seco”, primeiro longa de ficção do cineasta, selecionado para a Mostra Panorama do Festival de Berlim em 2020. Mais recentemente, Nolasco dirigiu “Apenas Coisas Boas”, também ambientado na região de Catalão.

Antes mesmo da estreia mundial, “Pequenas Tragédias” já havia percorrido circuitos do audiovisual. Ainda em fase de finalização, participou do Conexão Brasil CineMundi 2026, durante a Mostra de Cinema de Tiradentes, onde recebeu o Prêmio Málaga WIP.

Em março deste ano, a produção também venceu o principal Prêmio Málaga WIP Iberoamérica, na Espanha.

O longa é produzido por Daniel Nolasco e Cecília Brito, sócios da Rensga Filmes e parceiros em diferentes projetos. A coprodução é da goianiense Bebop Filmes e da alemã Welt Film, com distribuição da Embaúba Filmes.

Com 119 minutos de duração, o filme tem no elenco Guilherme Théo, Geovaldo Souza, Lucas Drummond, Aivan, Marcelo Camargo, Ronaldo Martins, Karvalio, Serge Bear, João Bennett, Cecília Brito, Dudu Soares, Álvaro Sobral, Del Neto, Felipe Oliveira e Helder Amorim.

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Fonte: Jornal Opção

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