Boato sobre Nossa Senhora Aparecida e Flávio retoma narrativas falsas de 2018 e 2022
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Os boatos que atribuem ao candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) a intenção de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil para agradar a grupos evangélicos retomam uma narrativa explorada em eleições anteriores contra seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Naquela época, conteúdos falsificados atribuíam ao ex-presidente o ato de vetar a padroeira com base em documentos e comunicados forjados. Desta vez, a polêmica é tratada como uma articulação de bastidores e um compromisso futuro.
Publicações relacionam o boato a um projeto de lei de 2007, de autoria do ex-deputado Victorio Galli (PMDB-MT), que pedia a alteração da redação da lei que estabelecia o dia 12 de outubro como feriado nacional. A proposta era mudar a designação de Nossa Senhora Aparecida para “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. O projeto foi arquivado em 2008 e, como seu autor não foi reeleito, não pode ser desarquivado. Durante o governo Bolsonaro (2019-2023), Galli foi assessor especial da Presidência da República e, neste ano, tenta se eleger deputado federal pelo PP.
Em vídeo publicado em suas redes sociais, Flávio negou que pretenda promover a mudança.
O caso chegou ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e, em decisão liminar, o ministro André Mendonça classificou como “notoriamente inverídica” a associação entre Flávio ou sua família e uma iniciativa para retirar o título de Nossa Senhora Aparecida. O magistrado determinou que plataformas digitais removessem proativamente publicações que apresentassem essa relação como fato. Dentre elas, no entanto, há posts que não fazem referência direta ao boato.
A decisão também proíbe novas postagens que acusem o candidato de se associar à medida, sob multa diária de R$ 50 mil para as plataformas que mantiverem publicações que “transmitam esse mesmo núcleo factual” no ar. Segundo Mendonça, os documentos apresentados pela campanha de Flávio Bolsonaro indicam que o candidato não propôs nem apoiou a iniciativa de retirar o título de padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida.
O boato ganhou força nas redes sociais na noite de quinta-feira (24), depois que a jornalista Maria Cristina Fernandes afirmou na GloboNews que setores católicos estão reagindo a uma parcela de evangélicos que tentaria mobilizar uma proposta para retirar o título da santa. A comentarista não citou Flávio, mas trechos de sua fala passaram a circular associados ao candidato. A emissora publicou posteriormente um aviso de correção, mencionando o projeto de lei hoje arquivado.
A alegação sobre Flávio retoma uma série de conteúdos desinformativos verificados pelo Aos Fatos ao longo dos últimos anos:
- 2018: uma página falsa da Folha de S.Paulo afirmou que Jair Bolsonaro havia negociado com o bispo Edir Macedo a troca da imagem de Nossa Senhora Aparecida, inclusive de seu tom de pele. Outra versão dizia falsamente que Jair e seu filho Eduardo Bolsonaro haviam assinado o projeto que alterava a designação da padroeira. Leia a checagem do Aos Fatos.
- 2022: uma montagem atribuída ao perfil de Jair Bolsonaro dizia que seu governo criaria um grupo de trabalho para acabar com o feriado de 12 de outubro. A postagem nunca foi publicada pelo então presidente. Leia a checagem do Aos Fatos.
- 2022: depois de tumultos provocados por apoiadores de Bolsonaro durante as celebrações em Aparecida, um tuíte fabricado atribuiu ao então presidente ataques contra padres e bispos católicos. Leia a checagem do Aos Fatos.
Contexto
Nos dias anteriores à circulação do boato, bispos católicos publicaram manifestações sobre as eleições e a soberania nacional. Na terça-feira (22), o Regional Norte 1 da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), que abrange Amazonas e Roraima, divulgou um vídeo em defesa do voto consciente. Entre outros pontos, os religiosos exaltaram a “soberania do Brasil, da nossa Amazônia e de nossas riquezas e bens” e condenaram a “manipulação religiosa, que pede votos em nome de Deus”. Na publicação, o Regional apresentou o conteúdo como uma orientação eleitoral, sem vinculá-lo a Flávio nem a uma proposta sobre Nossa Senhora Aparecida.
Uma pesquisa do instituto Quaest divulgada nesta semana mostra que Lula tem vantagem sobre Flávio Bolsonaro entre o eleitorado católico, com 43% a 27%. Porém, entre os evangélicos, Flávio lidera, com 49% a 23%.