Banco Master: no Rio governado pelo PL, até o dinheiro dos aposentados entrou na roda de Daniel Vorcaro
Por Marcos Pędłowski — Blog do Pedlowski
Rioprevidência liderou a exposição previdenciária ao Master, enquanto a PF investiga as relações entre o ex-governador fluminense e Daniel Vorcaro
A reportagem publicada neste domingo pelo Poder360 sobre os institutos de previdência que colocaram dinheiro no Banco Master permite compreender uma dimensão particularmente incômoda do escândalo: entre os fundos públicos alcançados pelas investigações da Polícia Federal, o caso de maior impacto é justamente o do Rio de Janeiro.
Não estamos falando de alguns milhões de reais utilizados por algum pequeno fundo municipal seduzido pelas taxas oferecidas pelo banco de Daniel Vorcaro. O Rioprevidência, responsável pelo pagamento das aposentadorias e pensões dos servidores públicos fluminenses, tornou-se protagonista dessa história. Primeiro apareceram R$ 970 milhões aplicados em letras financeiras do Master entre outubro de 2023 e julho de 2024. Depois vieram outros R$ 2,01 bilhões aplicados em fundos relacionados ao banco. A conta investigada pela Polícia Federal chegou, assim, à casa dos R$ 3 bilhões.
A dimensão financeira já seria suficientemente escandalosa. Afinal, estamos falando de recursos destinados a garantir aposentadorias e pensões, e parte importante das aplicações ocorreu em instrumentos financeiros sem a proteção do Fundo Garantidor de Créditos. Mas seria um erro reduzir o episódio a uma discussão técnica sobre política de investimentos, rentabilidade ou avaliação inadequada de risco.
No caso fluminense existe uma questão política muito mais incômoda. A Polícia Federal avançou sobre as relações entre o então governador Cláudio Castro do PL e Daniel Vorcaro e descreveu, segundo documentos da investigação divulgados pela imprensa, a existência de um vínculo pessoal estreito entre ambos. Encontros privados foram identificados pela PF até no exterior, além de coincidências temporais entre encontros de Castro com Vorcaro e posteriores aportes realizados pelo Rioprevidência. Em um dos episódios já tornados públicos, R$ 80 milhões foram aplicados no Master no dia seguinte a um encontro entre os dois. Portanto, quando se observa o mapa nacional dos institutos previdenciários envolvidos com o Banco Master, o Rio de Janeiro não aparece simplesmente como mais um pontinho. O estado governado por Cláudio Castro aparece no centro do problema.
E existe ainda uma dimensão política que não deveria ser tratada como mero detalhe. Cláudio Castro construiu sua trajetória recente dentro do campo político bolsonarista, governou o Rio pelo PL e manteve relações políticas próximas com a família Bolsonaro. Isso, por si só, evidentemente não demonstra participação da família Bolsonaro nos investimentos do Rioprevidência e seria irresponsável sugerir uma relação causal sem provas. Mas constitui contexto político relevante quando o escândalo do Banco Master passa a revelar sucessivas conexões com personagens e estruturas de poder que circularam pelo mesmo campo político. O que torna o caso fluminense especialmente grave é justamente a combinação dessas duas dimensões. De um lado estão bilhões de reais pertencentes a uma instituição cuja função deveria ser proteger aposentados e pensionistas. Do outro estão relações políticas e pessoais que a Polícia Federal decidiu investigar para saber se tiveram influência sobre a decisão de colocar tamanha quantidade de dinheiro público nas mãos do Banco Master.
Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja apenas quanto o Rioprevidência poderá recuperar. Antes disso, será necessário esclarecer por que o fundo previdenciário dos servidores do Rio de Janeiro assumiu tamanho protagonismo na compra dos papéis e fundos ligados ao Master e quem, dentro e fora do governo estadual, participou efetivamente das decisões que permitiram essa exposição. Os aposentados e pensionistas fluminenses certamente merecem essa resposta. Afinal, enquanto determinados personagens circulavam pelos ambientes do poder e das altas finanças, era o dinheiro destinado a garantir a aposentadoria dos servidores públicos que estava sendo colocado sobre a mesa.
Nascido em Monte Alegre do Tibagi, atualmente parte do município de Telêmaco Borba (PR), Marcos Pędłowski é Bacharel e Mestre em Geografia pela UFRJ e PhD em “Environmental Design and Planning” pela Virginia Tech. Professor Associado da Universidade Estadual do Norte Fluminense em Campos dos Goytacazes, RJ., com atuação no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da UENF. Pesquisador Colaborador Externo do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais da Universidade de Lisboa. Membro da Comissão de Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física e da Rede de Pesquisadores em Geografia (Socio)Ambiental. Pesquisador principal do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Transferência de Materiais Continente-Oceano, Fase III (2008-2028).
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Fonte: Blog do Pedlowski
