As mentiras que circulam na internet em períodos eleitorais sobre a chamada “ideologia de gênero
Por FODA — Mídia NINJA
17 de setembro de 2026
As mentiras que circulam na internet em períodos eleitorais sobre a chamada “ideologia de gênero
Desinformação transforma conceitos acadêmicos e direitos fundamentais em instrumentos de medo, polarização e disputa política
FODA
Fora do Armário, a editoria e frente de mobilização LGBTQIAP+ da Mídia NINJA.

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17 de setembro de 2026
14:49
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Fora do Armário, a editoria e frente de mobilização LGBTQIAP+ da Mídia NINJA.
Por Artur Vieira*
Em períodos eleitorais, temas relacionados à educação, à família, à sexualidade e aos direitos das mulheres e da população LGBTQIA+ costumam ganhar destaque nas redes sociais. Entre os assuntos mais explorados está a chamada “ideologia de gênero”, expressão frequentemente utilizada em mensagens alarmistas, vídeos fora de contexto e publicações sem fonte confiável. Embora o termo apareça com frequência no debate político, ele não corresponde a uma categoria científica reconhecida nas áreas de educação, psicologia ou ciências sociais. Na prática, costuma ser empregado como um rótulo genérico para desacreditar discussões sobre igualdade, combate à violência, respeito às diferenças e direitos humanos.
Como a desinformação é construída
As mentiras sobre o tema geralmente seguem um padrão. Uma proposta relacionada à educação sexual, à prevenção de abusos ou ao respeito à diversidade é apresentada de forma distorcida e associada a uma suposta tentativa de “doutrinação” de crianças. Em seguida, a informação é acompanhada por imagens chocantes, frases atribuídas falsamente a autoridades ou vídeos antigos apresentados como acontecimentos recentes.
Também é comum que conteúdos produzidos em outro país sejam divulgados como se tivessem relação direta com a realidade brasileira. Documentos oficiais podem ser recortados, interpretados fora do contexto ou apresentados como provas de medidas que nunca foram aprovadas. Em muitos casos, a publicação não informa a data, o local, a fonte original nem o órgão responsável pela suposta decisão. A estratégia é simples: substituir a análise dos fatos por uma reação emocional. Ao provocar medo e indignação, a mensagem aumenta as chances de ser compartilhada rapidamente, mesmo sem qualquer comprovação.
Uma das principais distorções está na mistura entre conceitos diferentes. Identidade de gênero, orientação sexual, educação sexual, proteção contra abusos e igualdade de direitos são temas relacionados à vida em sociedade, mas não significam a mesma coisa.
A educação sexual, quando conduzida de maneira adequada à idade e baseada em informações confiáveis, pode abordar o conhecimento do próprio corpo, a prevenção de abusos, o respeito aos limites individuais, a saúde e a responsabilidade. Isso não equivale a incentivar comportamentos específicos nem a substituir a responsabilidade da família. Da mesma forma, discutir gênero não significa negar diferenças biológicas ou impor uma visão única de mundo. O debate pode envolver os papéis sociais atribuídos a homens e mulheres, a prevenção da violência e a garantia de tratamento digno a todas as pessoas.
O uso político do medo
A exploração eleitoral desse assunto costuma ocorrer quando candidatos ou grupos políticos apresentam adversários como uma ameaça à família, à infância ou à religião. Em vez de discutir políticas públicas concretas, a comunicação se concentra na criação de um inimigo simbólico.
Esse tipo de narrativa é especialmente eficaz porque mobiliza valores afetivos e identitários. Muitas pessoas compartilham o conteúdo não necessariamente por terem verificado sua veracidade, mas porque ele confirma suas preocupações ou reforça a visão que já possuem sobre determinado grupo político. A desinformação, portanto, não depende apenas de uma mentira explícita. Ela também pode surgir por meio de omissões, exageros, imagens manipuladas, títulos enganosos e interpretações apresentadas como fatos.
Como verificar uma mensagem? Pontos essenciais para checar antes de compartilhar!
- Qual é a fonte original da informação?
- O conteúdo apresenta o documento completo ou apenas um trecho?
- A data da publicação corresponde ao período atual?
- O fato ocorreu realmente no Brasil?
- Outros veículos jornalísticos confiáveis noticiaram o mesmo acontecimento?
- A mensagem usa linguagem excessivamente alarmista ou pede compartilhamento imediato?
- A imagem ou o vídeo pode ter sido retirado de outro contexto?
Também é recomendável consultar sites oficiais de governos, secretarias de educação, tribunais eleitorais, instituições de pesquisa e agências de checagem. Quando uma informação envolve uma decisão pública, deve existir algum registro verificável em documentos oficiais ou em veículos jornalísticos que apresentem os dados com clareza.
O jornalismo profissional tem papel essencial no combate à desinformação durante as eleições. Isso exige separar fatos de opiniões, ouvir fontes qualificadas, contextualizar documentos e evitar a reprodução de acusações sem evidências. A cobertura responsável não deve transformar boatos em manchetes nem tratar declarações políticas como fatos comprovados. Também é necessário deixar claro quando uma informação foi desmentida, corrigida ou ainda não pôde ser verificada.
Ao público, cabe exercer uma atitude igualmente responsável: desconfiar de mensagens que prometem revelar um suposto escândalo, apelam para o pânico moral ou apresentam uma solução simplista para questões complexas.
Em uma democracia, temas como educação, família, direitos individuais e políticas de proteção devem ser discutidos de forma aberta. Divergências são legítimas, mas precisam estar baseadas em informações verificáveis, e não em boatos destinados a provocar medo. As chamadas mentiras sobre “ideologia de gênero” revelam como a desinformação pode ser utilizada para manipular emoções e influenciar escolhas eleitorais. Combater esse processo não significa impedir o debate político. Significa garantir que ele ocorra com honestidade, contexto e respeito aos fatos.
Em períodos eleitorais, verificar antes de compartilhar é mais do que uma atitude de prudência. É uma forma de proteger o direito de escolha dos cidadãos e preservar a qualidade da democracia.
Artur Vieira é um cristão, gay e jornalista que trabalha com o público LGBT desde 2013 na internet com o perfil @devoltaaoreino
Fonte: Mídia NINJA