A misteriosa química dos interesses de classe e o uso político do rancor

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Por Halley Margon — Jornal Opção

A misteriosa química dos interesses de classe e o uso político do rancor

“Destituído do seu fundamento racional, o princípio democrático torna-se exclusivamente dependente dos chamados interesses do povo, e estes são funções das forças econômicas cegas ou mais do que conscientes. Não oferecem quaisquer garantias contra a tirania”. — Max Horkheimer em “Eclipse da Razão”

Os números que saíram das urnas são eloquentes o bastante para que não seja necessário reproduzi-los. Está na memória (e nos pesadelos) de todos. Mas para não ficarmos sem nenhuma referência, cito apenas alguns. O bolsonarismo conquistou as duas vagas de São Paulo para o Senado, deixando de fora nada menos que Marina Silva e Simone Tebet, e as duas vagas do Rio de Janeiro, deixando de fora Benedita da Silva. O partido oficial de Bolsonaro tem agora 28 senadores, contra nove do PT. Na Câmara, o PL ficou com 121 deputados, contra 70 do PT. Consideradas isoladamente, as diferenças nem parecem tão grandes. Mas quando se olha para o geral, com todos os partidos, o panorama é dantesco.

Dito isso, convém buscar uma perspectiva mais alongada para quem sabe encontrar os rastros que formaram o tsunami — até porque agora mesmo um número significativo de análises esmiuçando o quadro já estará disponível por aí.

Pouco antes do primeiro turno, o diretor da Quaest, Felipe Nunes, se referiu ao ressentimento como motivador do voto em determinados segmentos do eleitorado.

Essa é uma palavra que me persegue como um cão danado e já não é de hoje.

Nos misteriosos escaninhos do que ainda me resta de cérebro, ressentimento aparece como rancor — mas são sinônimos, como você sabe. Daí que me ocorreu pedir ao ChatGPT que fizesse um levantamento sobre o seu uso nos artigos publicados nessa coluna.

Como é de praxe, ele educadamente respondeu: “Sim. Fiz uma busca dirigida… combinando ‘rancor’, ‘ressentimento’, ‘raiva’, ‘frustração’, ‘ódio’, ‘energia’ e ‘pulsão’ e a ideia aparece como um fio recorrente… na coluna” — e seguiu adiante, sem economizar recursos, num apanhado de quase duas mil palavras (o que é demasiado para ser reproduzido nesse pequeno espaço).

Resumidamente, informou que o registro mais antigo é de outubro de 2022, no texto cujo título era “A recalcada raiva do homúnculo”. Ali, segundo Ele (ChatGPT), “a formulação já está praticamente completa”. Ali, sempre segundo Ele, me refiro “a uma ‘perigosa pulsão’ que move milhões de brasileiros, a um discurso que serve para ‘nutrir o ódio’ e ‘incrementar o combustível pulsional’ e, finalmente, às ‘energias obscuras’ que alimentam o bolsonarismo”.

Em agosto de 2024 (“O fascismo cruza o Atlântico”), a tese desse colunista, diz Ele…, “fica explicitamente ligada à ultradireita internacional”. Exatamente um ano depois (“O mundo da chantagem de Trump e Bolsonaros”), “o vocabulário muda um pouco, mas a estrutura permanece”, quando “tenta explicar a persistência do bolsonarismo a partir de elementos que não seriam estritamente racionais ou materiais” (esses termos são escolha Dele…). Coisas como ‘pulsões abjetas’ e que tais – “à medida que aumentam ‘a frustração e o sentimento de derrota’ (pessoal), aumentam também o impulso de romper as normas da racionalidade política”.

A farsa e a tragédia na conta dos Bolsonaros (novembro de 2025) “reúne numa mesma explicação ‘interesses, desejos, recalques e frustrações’”. Aqui “o ressentimento deixa de aparecer apenas como emoção individual e funciona claramente como elemento de coesão política”.

Em 2026 há, segundo o Chat…, pelo menos mais cinco colunas associando o ressentimento “à capacidade de mobilização eleitoral”. Uma delas, por exemplo, diz que “parte da base bolsonarista seria mais atraída pela ‘exploração de rancores, frustrações’ e valores identitários do que por propostas políticas e econômicas”.

Mas “Um monstrengo seduz as multidões do Ocidente”, diz ainda, “me parece agora o texto-chave para compreender toda a série”. Ali “a escala exclusivamente brasileira” é deixada de lado e o bolsonarismo é associado à mesma energia “que empurra e faz crescer o Vox da Espanha, Milei, Ventura na Colômbia, Reform UK, trumpismo, RN na França e Fratelli d’Italia”.

Uma “energia tremenda… que teria permanecido… contida depois da Segunda Guerra” e voltado à superfície a partir dos anos 1990 – dali em diante, o que vimos foi esse combustível (que “se alimenta da frustração ao mesmo tempo em que a alimenta”) apenas crescer e se esparramar planeta afora.

Na coluna seguinte onde o tema é retomado, “a formulação é quase conceitual: o bolsonarismo é descrito como um agrupamento cuja retórica encontra inimigos segundo as conveniências e vai ‘organizando sentimentos nebulosos, rancores e raivas’ ”. A ultradireita, portanto, “não apenas se alimentaria do rancor”, sua retórica “organiza politicamente esses sentimentos”.

O Chat… conclui sua resposta afirmando que “há uma evolução interessante no vocabulário: em 2022, “raiva”, “ressentimento”, “pulsão” e “energias obscuras”; em 2024, “energias, rancores e frustrações”; em 2025, “rancor”, “ódio”, “recalques” e “frustrações”; e em 2026, a formulação se fecha em torno da ideia de que esses sentimentos constituem uma energia política, organizada pelo discurso da ultradireita e capaz de se retroalimentar”.

“Sem atribuir ao autor uma teoria que ele não tenha explicitamente sistematizado, os textos recuperados permitem identificar uma evolução bastante clara: raiva → ressentimento/rancor → frustração → pulsão → energia → organização política dessa energia → retroalimentação.

“E há uma mudança particularmente interessante. Nos primeiros textos recuperados, o problema parece ser predominantemente psicológico-político: pessoas ressentidas, frustradas ou raivosas aderem a determinado discurso. Nos textos mais recentes, especialmente em 2026, a explicação se torna mais dinâmica: existe uma energia social difusa; a ultradireita captura essa energia, dá-lhe inimigos e símbolos, organiza-a politicamente e, ao mobilizá-la, produz mais frustração/rancor, realimentando o circuito”.

P. S.

O leito acolhedor dos templos religiosos, onde se exalta a fé dos fiéis como uma dádiva ao mesmo tempo que os laços privilegiados com o Criador, operam como um maquinismo para a digestão das brutais frustrações produzidas em escala industrial pelo mundo da mercadoria.

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Fonte: Jornal Opção

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