A Globo perdeu o púlpito, conserva o sermão e continua se achando
Por Washington Araújo — Brasil 247
A Globo gastou onze minutos na abertura do Jornal Nacional de sexta-feira, 2 de outubro, para explicar por que decidiu cancelar o debate presidencial previsto para a noite anterior. O espaço assumiu o formato de defesa da própria emissora: manifestações de solidariedade, juristas, especialistas e a insistência de que aquele encontro seria indispensável para o eleitor conhecer propostas e decidir melhor.
A impressão transmitida foi quase cômica: sem o debate da Globo, milhões de brasileiros chegariam às urnas no domingo como quem entra num quarto escuro. Faltou ressuscitar o óleo de fígado de baleia e oferecê-lo como remédio simultâneo para unha encravada, artéria entupida e indecisão eleitoral.
O cabotinismo empresarial atingiu o teto.
Durante dois anos, candidatos viajaram pelo país, concederam centenas de entrevistas, participaram de sabatinas, comícios, carreatas, podcasts, programas de rádio, transmissões digitais e outros debates. Houve propaganda eleitoral, redes sociais funcionando dia e noite e aplicativos levando discursos, propostas, ataques e contradições diretamente ao eleitor.
Tudo isso, então, teria sido inútil?
O exagero seria apenas vaidade corporativa se não carregasse uma mensagem mais grave: a ideia de que o eleitor brasileiro ainda depende de uma única emissora para compreender a eleição. Em 2026, essa pretensão beira o anacronismo.
A Globo parece contemplar diante do espelho uma fotografia amarelada do Brasil em que meia dúzia de redações escolhia o assunto do dia e milhões aguardavam o cardápio. Esse país acabou. A emissora conserva audiência, estrutura e influência. O que perdeu foi o monopólio simbólico da conversa nacional.
Acompanho a vida brasileira há 45 anos e raramente vi uma eleição cercada por ambiente tão atípico. Redes orgânicas de desinformação, vídeos manipulados, falsidades fabricadas e notícias fraudulentas circulam com velocidade industrial. Nesse terreno, uma frase arrancada do contexto pode atravessar milhões de telas antes que sua correção alcance sequer uma pequena parcela do mesmo público.
Participar de um debate concebido sob regras alteradas na reta final pode equivaler, politicamente, a sentar diante de uma roleta russa. Uma bala já bastaria para comprometer uma campanha; imagine descobrir, ao pegar o revólver, que o dono da arma colocou outras três no tambor sem que todos os jogadores tivessem recebido o mesmo aviso. Política exige coragem. Exigir ingenuidade é outra coisa.
Minha reflexão sobre debates apenas no segundo turno vale, porém, para circunstâncias muito específicas. Penso em sociedades profundamente divididas em campos quase equivalentes, nas quais um desses campos chega ao primeiro turno pulverizado entre cinco ou seis candidaturas, enquanto o outro se concentra em apenas uma ou duas. Nesse desenho, até regras formalmente idênticas podem produzir efeitos politicamente muito diferentes.
Quanto maior o número de candidatos, maior também o espaço para combinações, convergências momentâneas e acordos táticos sobre o que deve ser discutido, defendido e, sobretudo, atacado. Não faltam inteligência, cálculo político nem alianças circunstanciais numa campanha presidencial. A igualdade escrita no regulamento pode sobreviver no papel e desaparecer completamente na dinâmica real do estúdio.
Por isso, em situações de polarização extrema e forte assimetria numérica entre os campos, considero mais racional concentrar os grandes debates televisivos no segundo turno. Restariam dois candidatos, tempos equivalentes, direitos idênticos de pergunta e resposta, regras previamente estabilizadas e condições mais próximas de uma efetiva paridade de armas.
E foi justamente essa discussão que faltou ao Jornal Nacional.
Dois daqueles onze minutos poderiam ter aberto a caixa-preta do formato. Caberia ao jornalismo explicar minuciosamente o que havia mudado, quais consequências práticas surgiam dessas alterações e por que determinadas candidaturas passaram a considerar o desenho do encontro desfavorável.
A meu ver, o formato final parecia uma escada preparada para alguém subir enquanto outros seguravam os degraus. Ninguém é obrigado a aceitar uma arena que considera inclinada.
Existe inteligência política fora dos estúdios do Jardim Botânico. Existe democracia fora do controle remoto. E existe hoje uma esfera pública muito mais ampla, fragmentada e indisciplinada do que aquela que durante décadas coube à televisão organizar.
A Globo precisa atualizar o espelho. Atualizar seu manual. Continua grande. Já não edita sozinha o país.
Fonte: Brasil 247